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Por outras Capitais do Futebol!

Leandro Batista Cordeiro

Recentemente assisti dois documentários que abordam, por certos ângulos, o futebol e a paixão clubística em algumas cidades mundo afora. O documentário se chama Capitais do Futebol e foi produzido pela emissora de televisão ESPN.

Poderia ter sido mais uma experiência audiovisual, como outra qualquer, que pouco ou nada traz para reflexão e, ainda, incapaz de suscitar uma busca por informações para além dos próprios documentários.  Mas, definitivamente, não foi isso que ocorreu!

Os documentários que assisti foram feitos em Montevidéu e Buenos Aires, no primeiro caso tratando da rivalidade entre Nacional e Peñarol e no caso da capital argentina o foco de atenção estava voltado para o duelo Boca Juniors e River Plate.

É certo que os clássicos Peñarol x Nacional e Boca x River são importantes eventos futebolísticos no calendário das cidades em questão, assim como no calendário emocional dos sujeitos/torcedores que por lá vivem, capazes inclusive de transcender a esfera do próprio campo de jogo; mas estas cidades também se pintam de outras cores, em virtude de outras histórias de paixões que por lá existem.

Assim, ao voltarmos o olhar somente para o Campeonato Argentino 2016, da primeira divisão, perceberemos que há outros 4 clubes da capital na principal competição futebolística do país, para além dos Bosteros[1] e das Gallinas[2]: Argentinos Juniors, Huracán, San Lorenzo e Vélez Sarsfield. Esses clubes representam bairros e regiões da cidade, onde inúmeros hinchas[3] se aliam, filiando-se emocionalmente em torno de comunidades de sentimentos compartilhados.

Dessa maneira, o contexto da capital portenha chama a atenção, pois Buenos Aires possui um número considerável de equipes no principal campeonato nacional, para além de Boca & River, o que contribui para demonstrar, por esta mirada, a centralidade da cidade no panorama futebolístico do país.

Em Montevidéu o cenário impressiona ainda mais, pois, além de Peñarol e Nacional, a cidade conta com nada mais nada menos que 10 outros clubes de futebol disputando o torneio clausura, da primeira divisão do campeonato uruguaio 2016, de um total de 16 equipes, sendo eles: Cerro, Danubio, Defensor Sporting, Fénix, Liverpool, Montevideo Wanderers, Racing, Rentistas, River Plate e Villa Teresa.

Ora, como não se impressionar com Montevidéu, uma cidade de aproximadamente 1,5 milhão de habitantes em um país com mais ou menos 3.4 milhões. Não saí à busca de outra situação similar, mas acredito que a capital uruguaia, tendo em vista a primeira divisão nacional de futebol profissional, regulado pela FIFA, seja um caso único no mundo e, mesmo reconhecendo a representatividade de Peñarol e Nacional no contexto histórico e sociocultural da cidade, considero que ela pode/deve ser vista como uma Capital do Futebol em razão da existência de outras paixões clubísticas, que vão além desses dois clubes.

Assim, poderíamos vislumbrar Montevidéu e Buenos Aires como Capitais do Futebol para além de Nacional x Peñarol e Boca x River? Acredito que sim. O que diriam, por exemplo, os hinchas do San Lorenzo ou do Defensor Sporting?

Enfim, assistir às produções da ESPN incitou-me a tecer algumas breves reflexões sobre a seguinte questão: há critérios determinantes para definir uma cidade como Capital do Futebol?  Muito provavelmente a ESPN os tem e utilizou-os para eleger outras cidades na mesma série de documentários, tais como Rio de Janeiro, São Paulo, Milão, Madrid, Manchester, Barcelona, Medellín, Londres, Roma e Bogotá.

Mas, como não pensar em outros cenários e outras possíveis Capitais do Futebol? Assim, vêm à mente alguns exemplos, como Campinas, Funchal, Guimarães, Sevilha, Pelotas, Goiânia, Barranquilla, Caxias, Lima, Ribeirão Preto, Rosário, Campo Grande, Verona, Belém, Cairo, Praga, Budapest, Birmingham, Sarajevo, Valencia, Zagreb, Nottingham, Recife e Avellaneda, dentre tantas outras cidades espraiadas pelo mundo e que têm o futebol como elemento que congrega sentimentos diversos em suas ruas, avenidas, praças, esquinas e estádios.

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Vista aérea dos Estádios do Independiente e Racing, localizados a menos de três quadras de distância entre si. Foto: Roger Schultz.

Dando prosseguimento ao jogo, encontrei algo interessante na página virtual da ESPN[4] sobre o clássico entre Milionários e Santa Fé, da cidade de Bogotá, capital da Colômbia. A chamada do documentário traz os seguintes dizeres: torcer para Milionários ou Santa Fé é como escolher um modo de vida! Considero verdadeira essa assertiva, tendo em vista que os clubes de futebol têm importantes significados na vida de cada dia dos torcedores, o que impacta, inevitavelmente, os seus comportamentos.

Mas, sendo verdadeira a assertiva para Bogotá, porque não nos posicionarmos a favor de outras Capitais do Futebol mundo afora, pois assim como essa importante cidade colombiana, há outras urbes futeboleiras, onde os modos de vida dos torcedores também seriam influenciados pela relação com os clubes, para os quais os adeptos canalizariam seus sentimentos e seus corações pulsariam mais fortemente, vindo à tona inúmeros e diversos comportamentos que traduzem o compromisso pessoal para com o clube.

Também na página da ESPN encontrei a seguinte chamada no documentário sobre  Barcelona: Barcelona, a cidade que respira futebol!

Mas, como assim a cidade? Não seria mais adequada a expressão uma cidade? O que dirão, por exemplo, os moradores de Madrid e torcedores do Real? Ou os moradores e torcedores londrinos, com seus inúmeros clubes de futebol espalhados pelas diversas latitudes e longitudes da cidade?

Acredito na pujança do futebol na capital catalã, onde o azul e o grená do Barcelona e o azul e branco do Espanhol deixam marcas ao vivo e a cores nas ramblas[5] e na paisagem local em geral. Creio também que, atualmente, quando se faz referência à Barcelona (enquanto cidade) é quase inevitável não relacioná-la ao clube de futebol homônimo, devido ao capital esportivo, simbólico e econômico conquistados (dentro e fora de campo) ao longo de sua história.

Mas, a meu ver, dizer que Barcelona é a cidade que respira futebol foi uma decisão tática arriscada da ESPN, decisão esta que pode ser vista com olhares desconfiados (e talvez raivosos) por parte de adeptos/telespectadores de diferentes clubes espraiados em outras coordenadas geográficas mundo afora.

Por outro lado, não obstante o posicionamento a favor de outras Capitais do Futebol, entendo que as cidades escolhidas pela emissora, assim como as rivalidades clubísticas apresentadas em Montevidéu (Peñarol x Nacional) e Buenos Aires (Boca x River), possuem representatividade no cenário futebolístico.

Nesse sentido, considero que o trabalho feito pela ESPN possui elementos interessantes para discussão, capazes de provocar reflexões a partir de diversas perspectivas, como a geográfica, histórica, sociológica, cultural, econômica, política, entre outras, atentas à relevância dos clubes de futebol no contexto de várias cidades do globo, abaixo ou acima da Linha do Equador, mais à esquerda ou à direita do Meridiano de Greenwich.

Por fim, faz-se necessário destacar que uma obra audiovisual é idealizada e levada a cabo a partir de certos valores, escolhas, pontos de vista, limitações, condicionantes e circunstâncias, mas, a despeito de tudo isso, entendo que inúmeras cidades poderiam ser intituladas Capitais do Futebol e, pois, mereceriam maior atenção por parte da televisão, afinal, outras histórias de paixões e rivalidades futebolísticas existem e precisam ser (re)conhecidas, por que não!

[1] Maneira que os torcedores do Boca Juniors são denominados na argentina.

[2] Denominação dada aos torcedores do River Plate.

[3] Forma pela qual os torcedores de futebol são denominados na Argentina e no Uruguai.

[4] http://espn.uol.com.br/videos/programas/capitaisdofutebol

[5] São vias para trânsito de pedestres, bastante utilizadas pelos moradores e turistas em Barcelona.