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Por que Del Nero foi afastado da presidência da CBF pela Fifa?

Rafael Iandoli

A Fifa, entidade máxima do futebol mundial, suspendeu o presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), Marco Polo Del Nero, por 90 dias, prorrogáveis por mais 45, começando na sexta-feira (15/12/17). Com a decisão, o chefe do futebol brasileiro fica proibido de exercer qualquer atividade relacionada ao esporte no período, tanto no Brasil quanto no exterior. A decisão foi tomada pelo chefe de investigação do Comitê de Ética da entidade.

Segundo a nota oficial da Fifa, que cita artigos de seu Código de Ética, a decisão pode ser tomada com base nos documentos disponíveis ao investigador, sem a necessidade de ouvir previamente o acusado. Agora, Del Nero terá o direito de se defender perante o órgão, seja presencialmente ou em carta. Depois disso, o comitê da Fifa deve decidir se mantém a suspensão (que, por enquanto, é provisória), ou a revoga. Até lá, a presidência da CBF será exercida por Coronel Nunes, vice-presidente mais velho da entidade – as regras da CBF adotam a idade como método para decidir quem assume, nesses casos. Nunes é ex-presidente da Federação Paraense de Futebol e ex-militar da Aeronáutica, atuante no período da ditadura.

O que pesa contra Del Nero

Del Nero é acusado nos EUA pelos mesmos sete crimes que pesam contra José Maria Marin, seu antecessor na presidência da CBF e que está em prisão domiciliar em Nova York desde novembro de 2015.

As acusações

OS POSSÍVEIS CRIMES

Ambos são acusados de cometer três crimes diferentes: fraude, lavagem de dinheiro e “conspiração para extorquir”, segundo o FBI, ou seja, formação de organização criminosa.

COMO TERIAM SIDO COMETIDOS

Marin e Del Nero, segundo o FBI, cobraram propina de duas empresas brasileiras de marketing esportivo – a Traffic, de J. Hawilla, e a Klefer, de Kleber Leite – para que elas tivessem benefícios em contratos comerciais de três campeonatos diferentes: Copa do Brasil, Copa América e Copa Libertadores da América. Os dirigentes confessaram os subornos, que teriam ocorrido entre 1991 e 2013.

POR QUE SETE ACUSAÇÕES

Como são três torneios diferentes, os crimes de fraude e lavagem de dinheiro teriam sido cometidos três vezes cada, uma para cada contrato, totalizando seis acusações. A elas, soma-se a acusação de formarem uma organização criminosa. As acusações fazem parte da investigação tocada pelo FBI nos EUA, chamada de Caso Fifa.

Por que Marin está preso e Del Nero, não

Rio de Janeiro- RJ- Brasil- 15/04/2015- Cerimônia de posse do Presidente Marco Polo Del Nero.  Foto: Ricardo Stuckert/ CBF

Marin e Del Nero na cerimônia de posse do presidente Marco Polo Del Nero. Foto: Ricardo Stuckert/CBF.

Em 2015, durante uma reunião da alta cúpula da Fifa em sua sede na cidade de Zurique, na Suíça, cartolas que já eram investigados pela polícia americana foram presos e depois deportados para os EUA – entre eles Marin e dois outros cartolas sul-americanos, Manuel Burga (Peru) e Juan Angel Napout (Paraguai). Del Nero também estava em Zurique, mas como ainda não era alvo de investigações nos EUA, conseguiu voltar para o Brasil. Depois, entrou para a lista de acusados do FBI, e desde então não sai do Brasil.

Caso vá para um país que tem acordo de extradição com os EUA, pode ter o mesmo destino de Marin e ser preso. O Brasil não deporta seus cidadãos, e por isso Del Nero está seguro por aqui. Uma juíza do Rio de Janeiro ainda negou qualquer possibilidade de cooperação entre Brasil e EUA no Caso Fifa, impedindo o Ministério Público de colaborar com os americanos. Por isso, a Fifa é a única instância na qual Del Nero pode ser julgado e condenado.

Nos EUA não pode ser preso, por estar no Brasil, e no Brasil não é acusado de nenhum crime. A Fifa, caso entenda que Del Nero agiu de forma contrária a seu Código de Ética, pode bani-lo do esporte e, consequentemente, do futebol. Ele não seria preso, mas perderia o poder no esporte.

O momento da suspensão

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Del Nero durante coletiva em 2016. Foto: Pedro Martins/Mowa Press.

A decisão da Fifa acontece dias depois de a defesa de Marin tentar, pela última vez, livrar seu cliente das acusações nos EUA. A estratégia adotada pelos advogados do ex-presidente da CBF é de responsabilizar seu ex-aliado Del Nero.

“O futebol brasileiro é uma monarquia, e o rei era o Marin. Daqueles reis que não decidem nada. Marco Polo era o presidente, que fazia as coisas”
Charles Stillman Advogado de Marin, em audiência nos EUA

A suspensão também chega alguns meses antes de Del Nero se candidatar a um novo período à frente da CBF. Segundo o site Globoesporte.com, o presidente deve convocar uma nova eleição em abril de 2018 na qual seria o único candidato. Se eleito, ganha o direito de comandar a CBF até 2023 e, depois, poderia tentar uma reeleição para ficar no cargo até 2027. A atual regra da CBF só permite uma reeleição a seus presidentes. Mas ela foi adotada quando Del Nero já estava no cargo e, portanto, não leva em conta a eleição que o levou à presidência em 2015.

“Avanço, modernização, legalidade. Estímulo à gestão responsável dos clubes. Busca de padrões de governança. Abertura, segurança jurídica. Consciência de sua função social. Esses são os lemas da nova CBF. Assim será o novo futebol brasileiro”
Marco Polo Del Nero
Em cerimônia de posse na presidência da CBF, em 2015

Del Nero nega todas as acusações que são feitas contra ele pelo FBI e que são investigadas na Fifa, e diz que não existem e nem existirão provas que o incriminem. Marin também alega inocência, sustentando que as provas contra si são “frágeis”.

nexo_jornal_logoEste texto é uma republicação de artigo publicado no site Nexo Jornal.