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Por que o Flamengo?

Letícia Marcolan, Marcus Vinícius Costa Lage

O Flamengo, sem grandes dificuldades, adotou durante a sua história na era profissional o urubu como mascote, a favela como casa e o pobre como seu representante.

 “Um Flamengo grande, um Brasil maior”, Renato Coutinho.  

Eu, capixaba, do interior do estado, nunca tinha parado para pensar, até pouco tempo, no porquê da minha adesão às cores do Clube de Regatas do Flamengo. Quando digo que sou flamenguista, geralmente as pessoas atribuem isso à baixa competitividade dos times do Espírito Santo, e, para mim, isso fazia sentido, até me mudar para Belo Horizonte, em 2016. Essa mudança me fez perceber que tal argumento poderia até explicar a minha paixão ao clube, mas não é capaz de explicar tudo. Pois, não é difícil encontrar flamenguistas em Minas Gerais, e, ao contrário do Espírito Santo, o estado conta com times de expressão nacional. Além disso, nos meus primeiros dias na capital mineira, conheci um certo gaúcho, que viria a se tornar o meu namorado. A convivência com ele, e as idas a Porto Alegre me deram episódios assim como o que Renato Coutinho conta em sua tese1. Todas essas situações, somado a minha inserção no curso de História, começaram a colocar uma dúvida na minha cabeça em relação à “natural” popularidade e abrangência nacional do clube. 

Essa mesma inquietação motivaria Renato Soares Coutinho, flamenguista como eu, a pesquisar a história rubro-negra como doutorando do Programa de Pós-Graduação em História, da Universidade Federal Fluminense. O resultado dessa pesquisa, que contou com a orientação do renomado professor Jorge Ferreira, foi apresentado em 2013 em formato de tese, com o seguinte título: Um Flamengo grande, um Brasil maior: o Clube de Regatas do Flamengo e o imaginário político nacionalista popular (1933-1955)”. Diante da qualidade do texto e das análises ali desenvolvidas, cerca de um ano depois a tese seria publicada pela Coleção Brasil Republicano da Editora 7 Letras, mantendo seu título original. Meu objetivo aqui será o de apresentar-lhes, mesmo que sucintamente, essa obra.

Como já adiantado, a tese/livro de Renato Coutinho trata dos fatores que contribuíram para a popularidade e a abrangência nacional do Flamengo. Em linhas gerais, o texto encontra-se estruturado em quatro capítulos e uma breve e convidativa introdução. Logo nesse texto introdutório, Renato Coutinho faz uma pertinente observação sobre os motivos que levam um indivíduo a aderir às cores de um clube de futebol. Para ele, essas escolhas clubísticas não se resumem à conquista de títulos, como se pode imaginar, à primeira vista, envolvendo também, sobretudo, “as representações sociais que passam a compor a identidade de um clube de futebol”2. Dessa forma, quais representações comporiam a identidade do Flamengo, fazendo-o despertar paixões por todo o país?

Para responder a essa questão central, Renato Coutinho parte sua análise da década de 1930, contexto marcado pela profissionalização do futebol em alguns dos principais centros urbanos brasileiros, como o caso do Rio de Janeiro. Para o autor, esse período é crucial para entendermos como os clubes que assumiram a imagem de representantes de símbolos nacionais e populares – condição que passou a ser fortemente valorizada pela propaganda estatal brasileira nas décadas de 1930 e 1940 – continuam até hoje sendo os mais queridos. Portanto, pode-se dizer que esse é um importante momento não apenas para a construção identitária dos clubes, mas, também, da nação. Um momento de busca por definições de elementos e traços culturais que seriam genuinamente brasileiros. Para Coutinho, o futebol, nesse contexto brasileiro, tornou-se capaz de realizar algo que parecia distante: “unificar os símbolos nacionais e padronizar os rituais de exaltação cívica em associação com o Estado Nacional”3. E, segundo aponta o cerne de suas análises, teria sido o Flamengo o clube que melhor conseguiu aproximar-se desse projeto.

No primeiro capítulo da tese/livro, intitulado “O Clube de Regatas do Flamengo nas páginas dos jornais: do fidalgo clube ao clube do povo”, Renato Coutinho nos mostra que o Flamengo não nasceu um clube popular, como muitas narrativas memorialísticas tentam sustentar. Ao contrário disso, segundo documentos jornalísticos por ele mobilizados, até meados dos anos de 1930 as características sociais do clube rubro-negro não diferiam muito da dos demais clubes da cidade, sendo considerado a “fina-flor” carioca e comumente exaltado pelo refinamento de seus associados.

Diante dessa constatação, ainda nesse primeiro capítulo, Coutinho procura demonstrar como o Flamengo passou por um amplo processo de reinvenção, deixando para trás o elitismo dos tempos do amadorismo para aproximar-se cada vez mais do “popular”. Para Coutinho, essa transformação teria acompanhado a própria mudança do valor social do futebol, que paulatinamente passou a valorizar o caráter “popular” em contraste com o futebol “civilizador e refinado”, exaltado nas décadas anteriores a 1930. Essa transformação teria tido seu ápice na disputa política entre os defensores do futebol profissional e aqueles afeitos ao regulamento exclusivamente amador do esporte, o que implicava principalmente no fim das proibições de participação de jogadores negros e de origem pobre nos times.

Torcida do Flamengo monta mosaico. Foto: Pedro Martins/Mowa Press.

Segundo Coutinho, a valorização da mestiçagem e da imagem do trabalhador brasileiro pela propaganda estatal da época, fundamental nesse processo de invenção de símbolos nacionais e populares, teria encontrado ressonância entre os cartolas do Flamengo e a imprensa esportiva. Para o autor, durante a gestão do presidente José Bastos Padilha, diversas campanhas de marketing foram desenvolvidas pelo clube nesse sentido em parceria com o Jornal dos Sports, dirigido desde 1936 por Mário Filho. Dentre as várias campanhas citadas pelo autor, poderíamos destacar o ritual de cantar o hino nacional antes da partida entre Flamengo e Fluminense em 1936. Ou a premiação, concedida pelo Jornal dos Sports ao fotógrafo Hans Peter Lange, que registrou dois operários na construção do Estádio da Gávea. A partir dessas ações Coutinho chega a duas conclusões: o caráter popular do futebol, antes visto como negativo, passou a ser cada vez mais valorizado, e o Clube de Regatas do Flamengo foi o primeiro clube a associar-se a essa mudança. Essa transformação teve como pano de fundo o nacionalismo, que passa a fazer parte da identidade do clube definitivamente no ano de 1936.

Essas considerações tornam-se mais evidentes no segundo capítulo da tese/livro, intitulado “Cinco anos eternos: a gestão José Bastos Padilha (1933-1937)”, onde Renato Coutinho procura demonstrar as transformações simbólicas vivenciadas pelo clube durante a gestão desse dirigente. Ali Coutinho nos apresenta quais teriam sido “os fundamentos do projeto” desse presidente, sua participação ativa na transição do amadorismo para o profissionalismo no futebol carioca e sua atuação destacada no sentido de ressignificar a imagem do clube. Para o autor, o grande marco dessa ressignificação simbólica do Flamengo teria acontecido em 1936. Foi naquele ano que chegaram ao clube os três maiores ídolos negros do futebol brasileiro da época: Fausto, a “Maravilha Negra”; Leônidas da Silva, o “Diamante Negro”; e Domingos da Guia, o “Divino Mestre”. O que, além de fortalecer o time, em termos desportivos, ajudava ao novo torcedor, de origem popular, a identificar-se mais ainda com o clube.

No último ano de gestão de Padilha como presidente do clube, Coutinho ainda relembra o concurso promovido em 1937, quando a exaltação dos valores nacionalistas pelo Flamengo atingiu seu auge. Desta vez a campanha destinava-se às crianças, que deveriam construir frases associando os termos Flamengo e Brasil. Várias frases enviadas foram divulgadas no Jornal dos Sports, e as frases vencedoras, “O Flamengo ensina: amar o Brasil sobre todas as coisas”4 e “Um Flamengo grande, um Brasil maior”5 , foram escritas, respectivamente, por Marcio Lyra e Maria de Lourdes. É, portanto, dessa maneira que Coutinho defende a ideia de que a gestão de José Bastos Padilha imprimiu as marcas simbólicas e identitárias que até hoje associamos ao rubro-negro carioca.

No entanto, apesar da importância da gestão de Padilha, Renato Coutinho não ignora o fato de que, exatamente durante sua gestão, o Flamengo enfrentou a pior fase de sua história em campo: um jejum de doze anos sem conquistas oficiais. Mas, para o autor, o fim desse  “amargo período”, em 1939, quando o clube conquistou o campeonato carioca, serviu como uma demonstração pública, inclusive em jornais nordestinos, da força da “nova identidade popular” do Flamengo. Seria, portanto, após a conquista de 1939, e do tricampeonato na década de 1940, que o Flamengo atinge o ápice de divulgação da sua identidade popular.

Bandeiras do Flamengo. Foto: Pedro Martins/Mowa Press.

A propagação dessa nova identidade rubro-negra é explorada por Renato Coutinho no terceiro capítulo da obra, que recebeu o título de “A tradição imaginada: o clube mais querido do Brasil”. Ali, Coutinho também nos apresenta a importância das rivalidades nessa ressignificação identitária e simbólica do Flamengo; isto é, não bastava apenas divulgar o Flamengo como o clube do povo brasileiro, era necessário inventar os rivais: lusitanos vascaínos e os grã-finos torcedores do Fluminense. Nesse sentido, o autor destaca Ari Barroso, José Lins do Rego e Mário Filho como alguns dos artífices mais importantes dessas rivalidades. Em 1944, por exemplo, José Lins do Rego e Ari Barroso teriam explorado consideravelmente o contexto bélico mundial para reforçar a oposição entre Flamengo e Vasco, atribuindo ao rubro-negro o título de clube mais querido do Brasil, e ao Vasco a identidade de clube da união de duas pátrias. Já a tensão entre Flamengo e Fluminense é interpretado de maneira bem diferente pelo autor. Para Coutinho, esses dois clubes são vistos como “irmãos”, uma vez que, o próprio Flamengo surge do Fluminense, e o clássico entre eles é comumente vinculado ao “espírito brasileiro”, existindo uma espécie de mística conciliadora entre os dois clubes. Para entender tal relação, o autor recorre a Mário Filho, “o responsável pela criação do termo Fla x Flu e pelos elementos simbólicos conferidos ao clássico”6. De acordo com Coutinho, Mário Filho, e também José Lins do Rego, via no Fla x Flu a integração de duas partes indispensáveis para o sucesso da nação brasileira moderna, os operários e o patronato.

No quarto e último capítulo da tese/livro, intitulado “O clube da Nação”, as atenções de Renato Coutinho se voltarão para a relação estabelecida entre o Estado democrático, pós-Vargas, e essa ressignificação identitária e simbólica do Flamengo. Segundo o autor, essa representação popular rubro-negra foi legitimada pelo próprio Estado brasileiro, quando, por exemplo, o presidente Café Filho, na cerimônia de abertura dos jogos da primavera fez a seguinte declaração acerca do desfile de atletas do clube: “Este é o Brasil que se deve mostrar lá fora”7. Dessa maneira, Coutinho sustentará, por fim, que a inquestionável popularidade do Clube de Regatas do Flamengo, se deu principalmente a partir da vinculação do clube ao projeto nacionalista do Estado brasileiro da década 1930, que atinge seu ápice em 1950. Tal vínculo foi estabelecido principalmente através de ações propagandistas do clube na gestão de José Bastos Padilha em parceria com o Jornal dos Sports, que contava com a atuação de Mário Filho e, principalmente, de José Lins do Rego, um flamenguista apaixonado que não fazia questão de esconder sua identidade clubística, exaltando o Flamengo como o clube da Nação.

Para concluir essa breve resenha, gostaria de dedicar este texto à memória do meu pai, que me ensinou a amar as cores do Flamengo, e também, aos garotos do Ninho do Urubu, vítimas da ganância dos cartolas brasileiros. Parafraseando uma das partes mais bonitas do hino do clube, “Eu teria um desgosto profundo, se faltasse o Flamengo no mundo”, diria: sem vocês, falta uma parte do Flamengo no mundo.


[1]  Renato Coutinho conta que, em uma viagem a Porto Alegre, se deparou com o seguinte episódio: “Eu estava em Porto Alegre, numa sala da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A aula de Teoria Política era ministrada por um professor reconhecido pela excelência acadêmica e pelo afeto declarado ao tricolor dos pampas, o Grêmio de Porto Alegre. Após uma hora de aula, entrou na sala um rapaz com a camisa do Flamengo. A aula, que transcorria de maneira sóbria pelos debates neoinstitucionais, foi interrompida pelo olhar fulminante do professor, que se incomodou mais com a camisa do que com o atraso. Ironicamente, o docente questionou a preferência do rapaz, que retrucou dizendo ser o Flamengo um clube nacional. Não satisfeito com a resposta do aluno, o professor disparou: ‘Nacional do Mampituba para cima!” In: COUTINHO, Renato Soares. Um Flamengo grande, um Brasil maior: o Clube de Regatas do Flamengo e o imaginário político nacionalista popular (1933-1955). Niterói – RJ: Tese de Doutorado (UFF), 2013, p. 16.

[2] Ibid., p. 9.  

[3] Ibid., p. 22.

[4] Ibid., p. 87. 

[5] Ibid., p. 87. 

[6] Ibid., p. 131. 

[7] Ibid., p. 174.