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Por um rúgbi inclusivo e sem preconceitos

Michelle Carreirão Gonçalves, Wagner Xavier de Camargo

A boa notícia que fechou setembro no mundo do rúgbi foi que Marjorie Enya, a voluntária que pediu em casamento a namorada jogadora de rúgbi Izzy Cerullo nos Jogos Olímpicos Rio-2016, foi nomeada pela Sudamerica Rugby para o Conselho da World Rugby, Federação Internacional da modalidade. Ela já é representante da categoria de atletas na Confederação Brasileira de Rugby (CBRu) e acumula várias posições importantes, inclusive possui uma bolsa de “liderança no rúgbi” voltado a mulheres.

Porém, nem tudo são flores dentro deste contexto esportivo, particularmente nos bastidores da modalidade, no Brasil. Ainda em setembro de 2020, o ex-jogador de rúgbi, Eric Romano, foi indicado para CEO da CBRu e, no mesmo dia em que tomou posse, demitiu-se (ou foi retirado) da função. CEO é, em geral, o cargo máximo de uma empresa ou entidade, responsável pela gestão e direção da mesma e, segundo consta, Eric foi contratado para desenvolver um planejamento de médio e longo prazos para o esporte. O que o “derrubou”, por assim dizer, foi algo que já estava sendo dito aqui e acolá nas redes sociais, acerca de sua postura discriminatória contra a pauta feminista, os direitos LGBT e a condição de pessoas gordas.

A questão é que, mesmo nesses tempos de conservadorismo político e agendas reacionárias, está cada vez mais difícil espalhar fake news e discursos de ódio e não ser cobrado por tais opiniões. Cedo ou tarde, as mesmas redes sociais usadas na propagação de tais conteúdos voltam-se contra essas pessoas. Isso é produto da contemporaneidade, do presente tecnológico. O feminismo é um movimento que luta por justiça e igualdade de gênero na sociedade e não “um mal a ser combatido”, como escreveu Eric. Aliás, são movimentos feministas que encampam uma pluralidade de expressões em busca de voz e condições de mulheres negras, lésbicas, indígenas, faveladas, deficientes, entre outras. Esses feminismos não emasculam homens ou os tornam fracos, como também disse ele, mas lhes oferecem mecanismos para autoconsciência e uma atuação menos predatória de mulheres e demais sujeitos comumente marginalizados.

O nome do ex-jogador e sua possível contratação tiveram estrondosa repercussão nas redes sociais, tanto por parte de atletas ativistas, como pelo Portal do Rugby (maior página web sobre a modalidade) e mesmo por veículos da mídia como o site UOL/Folha e revista VEJA, em sua versão eletrônica. No blog do Juca Kfouri saiu uma “nota de repúdio”, assinada pelas equipes de rúgbi em atividade, que decidiram manter o protesto à iniciativa de contratação do referido CEO, pois entendem que, cargo tão importante, deve ser “ocupado por alguém que represente toda a população rugbier e esteja alinhado com todos os pilares do esporte: integridade, respeito, solidariedade, paixão e disciplina”. Algo interessante também colocado na nota é que a modalidade tem se desenvolvido buscando uma “democratização do rúgbi considerando as interseccionalidades” e que repudia discriminações “LGBTfóbica, racista, machista, classista” para que seja cada vez mais acessível.

A equipe Ciervos Pampas, da Argentina. Foto: Divulgação

Curiosa tal postura, no entanto, se nos lembrarmos da origem elitista da modalidade, na Inglaterra do século XIX, na qual os privilégios aristocráticos (de homens brancos, educados, ricos e cristãos) vinham antes de tudo e acima de todos. Desenvolvido no interior das public schools, instituições de ensino voltadas para os filhos das classes abastadas, o rúgbi se apartou da versão jogada exclusivamente com os pés. Havia, na época, duas formas de jogar o “primitivo futebol”: uma delas o rúgbi, e outra aquela que, rapidamente, se tornou popular fora do contexto britânico, ficando mundialmente conhecido como futebol.

Assim, o rúgbi criou sua própria história entre àqueles jovens rapazes ricos, tendo suas regras organizadas em forma de livro (e pela primeira vez) pelos estudantes da Rugby School, em 1845. Se o mito fundador da modalidade confere o nascimento do esporte a William Webb Ellis (ex-aluno da referida escola), que teria executado uma jogada ilegal durante uma partida de futebol nos campos da escola em 1823, a historiografia mostra que havia distintas versões do jogar football em todas as escolas Vitorianas da Grã-Bretanha, e que o feito significativo da Rugby School (conferindo, inclusive, nome ao esporte) foi ter organizado e difundido as regras da variante de seu jogo por todo território bretão no século XIX.

Histórias à parte, entre aqueles estudantes, o rúgbi não era apenas um jogo, mas uma espécie de “guia de vida” que ensinava, entre outras coisas, disciplina, liderança, força, coragem, caráter e respeito. Algo que, convenhamos, parece seguir permeando o imaginário rugbier. Em carta à revista VEJA, Eric afirmou ostentar todos esses valores e que suas postagens discriminatórias seriam antigas.

No tocante à realidade brasileira, e apesar do esporte ter se desenvolvido com mais afinco a partir da metade da década de 20 do século passado, foi com a definição da realização dos Jogos Olímpicos Rio 2016 que grupos se proliferaram treinando e praticando rúgbi, com incremento no incentivo à modalidade, sendo criada a CBRu. É desse período, por exemplo, o desenvolvimento acentuado do rúgbi de mulheres no país, fortificando ações iniciadas na década de 2000, momento em que ocorreram as primeiras iniciativas de organização de selecionados de rúgbi praticado por elas para disputas internacionais (lembrando que elas já praticavam a modalidade de maneira mais sistemática no Brasil desde final dos anos 1990).

A última década do século passado foi importante para o rúgbi em contexto mundial, pois rompeu-se com duas tradições do esporte, que remontavam à sua origem no século XIX: a proibição do profissionalismo e da participação de mulheres em contendas oficiais. Assim, foi apenas em 1995 que a Federação Internacional permitiu o pagamento de atletas e passou a reconhecer a modalidade disputada por mulheres. Destacar tais características é significativo, na medida em que mostram que o esporte não é um território neutro, como alguns discursos insistem em defender, e que no caso do rúgbi, é ele, tradicionalmente, demarcado por uma posição de classe e de gênero, algo que vem se desconstruindo nos últimos anos.

Ainda importante no contexto, por exemplo, é a presença de árbitro assumidamente gay no quadro da Federação Internacional (considerado, inclusive, um dos melhores da modalidade), ou ainda, especificamente no Brasil, a destacada campanha das Yaras (a seleção nacional de rúgbi sevens de mulheres) desde sua criação em 2004, com importante representatividade na América do Sul, assim como nos Circuitos Mundiais – algo ainda não alcançado pelo selecionado de homens. Apesar disso tudo, valores reacionários e conservadores permanecem como sombras na modalidade, espaço de disputas políticas e simbólicas.

A seleção brasileira de rúgbi sevens de mulheres. Foto: Wikipédia

De um ponto de vista mais geral, de tempos em tempos, o esporte aparece em cena protagonizando situações em que se coloca a ideia de que “esporte e política não se misturam”. Pois isso é um engano recorrente do senso comum e um equívoco dos meios de comunicação. Tal noção está assentada na opinião de que manifestações políticas não devem fazer parte dos shows esportivos, justamente porque imagina-se que eles têm a oferecer o espetáculo, a emoção, o entretenimento, a performance de atletas super-humanos, treinados e preparados para tais “feitos”. No entanto, o feminismo lá em suas origens, já registrou que o “pessoal é político”, e portanto, se um atleta negro ou uma atleta com deficiência traz(em) a problematização de sua(s) existência(s) para dentro do esporte é porque isso importa no modo como tal prática é subjetivada e desempenhada.

Não nos esqueçamos do atual movimento Black Lives Matter, protagonizado por atletas negras e negros nos EUA, notadamente pelos jogadores da NBA. Da mesma forma, noutros esportes ocorre algo similar: a exemplo de Lewis Hamilton, um dos maiores automobilistas da história recente, que tem encabeçado os protestos antirracistas dentro da F1, um das modalidades mais elitistas, caras, brancas e masculinistas que existe.

Aqui no Brasil também temos nossas demonstrações políticas de atletas: coincidentemente, na mesma semana em que aconteceu o caso do rúgbi e da demissão/desligamento de Eric da CBRu, a jogadora de vôlei de praia Carol Solberg, que após ganhar medalha de bronze ao fim da etapa de Saquarema (Rio de Janeiro), proferiu um retundante “fora Bolsonaro!” ao vivo, na SporTV, causando constrangimento geral e reprimenda direta da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), que soltou comunicado “proibindo manifestações de qualquer cunho político. Importante destacar que nenhum dos jogadores, em sua maioria homens, do mesmo esporte de Carol, foram repreendidos enquanto faziam campanha para o atual presidente da República lá nos idos de 2018, ao final das partidas transmitidas ao vivo pelos canais de TV paga. Ou não seria isso também uma manifestação de cunho político?

O sintomático de toda essa reflexão aqui feita nos leva a observar, primeiro que o esporte envolve outras dimensões além daquelas que estamos acostumados a imaginar e, segundo, que há fatos de natureza semelhantes, os quais são orientados de modos diferentes. E sobre isso temos que pensar. Fora o “dois pesos, duas medidas” das situações do rúgbi e do vôlei de praia citadas aqui (mas também entre homens e mulheres dentro de uma mesma modalidade), federações e confederações de esporte têm, igualmente, uma vida política, seja porque têm representantes que transitam entre o esporte e a política (como ocorre, no Brasil, com ex-jogadores de futebol, por exemplo), ou porque estão diretamente envolvidas com instâncias governamentais responsáveis pela liberação de recursos financeiros. Ambas situações provocam decisões parciais e privilegiadas.

Se Eric foi desligado ou se demitiu, pouco importa. O que fica registrado é que machistas, fascistas, LGBTfóbicos e preconceituosos em geral não continuarão ilesos e em seus lugares sagrados de poder. Com a disseminação rápida de informação e o alcance das mídias sociais a um clique, a sociedade civil está alerta e os grupos que militam ativamente em espaços esportivos (como de ex-atletas, pesquisadoras/es, estudantes, jornalistas esportivos mulheres e homens, entre outros) estão de prontidão. Definitivamente, o mundo e o esporte do século XXI devem lutar contra discriminações que mantêm privilégios de corpos, de classes, de gênero, ou quaisquer outros critérios instituídos.


Como citar

GONçALVES, Michelle Carreirão; CAMARGO, Wagner Xavier de. Por um rúgbi inclusivo e sem preconceitos. Ludopédio, São Paulo, v. 136, n. 9, 2020.