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Porto Alegre: Capital del “fútebol”

Danton Júnior, Pedro Vasconcelos Costa e Silva

Outrora conhecido como Continente do Rio Grande de São Pedro, o Estado mais meridional do Brasil vive as consequências de estar localizado no centro de disputas históricas entre os impérios espanhol e português. Entre 1816 e 1820, a República Oriental do Uruguai chegou a ser incorporada ao Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, sob o nome de Província Cisplatina. A independência uruguaia foi declarada em 1825, com apoio da atual Argentina. Os acontecimentos levaram à Guerra da Cisplatina, entre 1825 e 1828. Décadas mais tarde, Brasil, Argentina e Uruguai formaram a Tríplice Aliança e lutaram do mesmo lado na Guerra do Paraguai.

Muito mais do que a vegetação do bioma Pampa e as extensas criações de gado, o Rio Grande do Sul compartilha com Argentina e Uruguai valores que fazem parte do imaginário da região. A relação é favorecida pela extensa fronteira: cerca de 800 quilômetros no caso da Argentina, separada pelo Rio Uruguai, e 1.000 quilômetros com o Uruguai, onde os freeshops das cidades fronteiriças atraem grande público entre os gaúchos.

Apesar da proximidade geográfica e da identificação cultural, especialmente quando o assunto é o futebol, o Rio Grande do Sul sedia pela primeira vez, em 2019, jogos da Copa América. Nas outras quatro edições do campeonato realizadas no Brasil – a última delas em 1989 –, Porto Alegre havia ficado de fora do roteiro.

Cinco jogos foram marcados para a Arena do Grêmio, incluindo partidas dos vizinhos Argentina e Uruguai, o que faz com que torcedores das duas seleções mobilizem-se para transformar o estádio em uma extensão do seu país. Tanto o time de Messi quanto a equipe de Suárez jogam uma vez pela primeira fase em Porto Alegre, e há a possibilidade de retorno na semifinal. A prefeitura da cidade afirma que a rede hoteleira tem 85% de ocupação para os dias dessas partidas.

A identificação com o futebol jogado na bacia do Prata fica evidenciada não apenas pelos inúmeros estrangeiros que já atuaram na dupla Grenal, mas também nas arquibancadas. Com seu jeito peculiar de torcer, as famosas barras argentinas e uruguaias inspiraram movimentos semelhantes no Grêmio e no Inter. Para alguns personagens desta história, porém, essa identidade encontra-se ameaçada pelo futebol “moderno” e pela era das arenas, com impacto sobre o comportamento das torcidas durante as partidas.

Pampa futeboleiro

Para o jornalista e pesquisador Juremir Machado da Silva, Rio Grande do Sul, Argentina e Uruguai compartilham um mesmo espaço ecológico e cultural, o que fica evidenciado no futebol.

“Em outras áreas decidimos nos afastar, nos tornamos mais norte-americanos. Mas o futebol preserva essa identidade comum entre o Rio Grande do Sul e os países do Prata”, resume Juremir, autor do livro “Diferença e descobrimento: o que é o imaginário”, entre outras obras.

No imaginário do futebol, o histórico de lutas que permeia a formação do continente é representado por alguns personagens emblemáticos. Em épocas diferentes, os zagueiros uruguaios Atilio Ancheta e Hugo De León marcaram época no Grêmio. No Internacional, o argentino Andrés D’Alessandro, há 12 temporadas no clube, é o jogador mais identificado com este perfil. Porém a lista é mais extensa e inclui o argentino José Villalba, segundo maior artilheiro colorado em Grenais, com 20 gols, nascido em Santo Tomé, na fronteira com a gaúcha São Borja. Julio Pérez, meia uruguaio que participou do Maracanazo em 1950, jogou pelo Internacional no final de carreira. Pelo lado tricolor, há nomes como os argentinos Salvador Germinaro, goleiro do time multicampeão dos anos 1950, e Néstor Scotta, atacante autor do primeiro gol da história do Campeonato Brasileiro, em 1971 (quando a competição começou a ser chamada por este nome).

“O imaginário é uma ficção, algo subjetivo, vivido com realidade objetiva. Então essa ideia passa a ser encarnada e considerada como verdadeira e intemporal. No imaginário gaúcho e platino, nosso futebol prima pelo combate e pelo esforço”, resume Juremir, que nasceu em Santana do Livramento, cidade localizada na fronteira com a uruguaia Rivera. Mesmo o zagueiro Elias Figueroa, um dos principais estrangeiros da história do Internacional, foi “amalgamado ao imaginário platino”.

O perfil combativo, inspirado nos jogadores citados acima, é o que move os times gaúchos a buscarem reforços na Bacia do Prata. A quantidade de jogadores estrangeiros com passagem pela dupla Grenal é significativa, sobretudo nos últimos anos. A lista de estrangeiros com passagem pelo Internacional inclui 50 jogadores, dos quais pelo menos metade são argentinos ou uruguaios – 20 deles chegaram ao clube nos últimos 20 anos. Pelo lado do Grêmio, o site Gremiopedia registra a passagem de 93 estrangeiros, dos quais 61 são oriundos destes dois países – deste total, 28 chegaram ao clube após o ano 2000.

Luisito Suárez come um pancho na Borges de Medeiros

Além dos jogadores, os times platinos marcaram fortemente a cultura futebolística e a memória do torcedor do Rio Grande do Sul. Uma bola com o distintivo do time uruguaio Peñarol, presente dado por seu pai, é uma das lembranças mais remotas que João Luís Alves, hoje com 39 anos, tem de sua infância em Rosário do Sul, interior do Estado.

“Devido à proximidade, é muito comum as pessoas de lá torcerem para os times do Uruguai. Eu torço para o Grêmio e para o Peñarol por causa do meu pai. Lembro de quando ele escutava os jogos decisivos de Nacional e Peñarol pela rádio uruguaia Sarandi”, explica o comerciante.

João Luís saiu da região fronteiriça há quinze anos e trouxe para Porto Alegre a paixão pelo futebol e pela culinária local. Na famosa escadaria da Avenida Borges de Medeiros, região central da capital, abriu um restaurante especializado em panchos: o Pancho Uruguaio.

João Luís e seu Pancho Uruguaio. Foto: Pedro Vasconcelos.

A decoração é um cartão de visita. Nas paredes e no balcão é possível notar as diversas marcas que nos remete à cultura do país vizinho: alfajores, comidas típicas, cervejas locais e futebol.

Os símbolos futebolísticos estão por toda parte. Na cozinha as camisas dos principais clubes de Montevidéu dividem espaço com a camisa da seleção celeste. Quadros com personalidades importantes do país, como a do ex-presidente Pepe Mujica, divide o espaço na parede com a representação de importantes jogadores da seleção uruguaia. Em um deles, o atacante do Barcelona Luis Suárez é representado em caricatura. Com os dentes bem à mostra, Luisito aparece comendo um pancho, iguaria feita com uma salsicha espacial, que lembra de longe um cachorro quente e que é muito consumida nos estádios do país vizinho.

Gonzalo Rodriguez, ilustrador argentino de 40 anos radicado em Porto Alegre desde 2008, é um dos artistas que mistura arte futebol e tem quadros espalhados pela cidade. Sua arte encanta torcedores, inclusive fora do continente, e já virou inspiração para produtos licenciados, camisetas e até mesmo tatuagens.

Gonzalo Rodriguez em La Bombonera. Foto: Arquivo pessoal.

Nascido em Santa Fé, capital da província de mesmo nome, Rodriguez conheceu a sua atual esposa em uma visita ao Rio Grande do Sul. A mudança para capital gaúcha não interrompeu os laços com a terra natal. Torcedor do Boca Juniors, teve como primeiro grande ídolo no futebol o centroavante Gabriel Batistuta, na época em que este atuava pelo clube xeneize, no início dos anos 1990. Além do talento para balançar as redes, Batistuta destacou-se pela entrega em campo. “Sempre gostei desta classe de jogador: potente, forte e aguerrido”, confessa.

Hoje, Rodriguez acompanha os jogos do Boca pela televisão, já que não tem o hábito de frequentar bares com outros torcedores. O mesmo ocorre com as partidas da seleção.

Mesmo vivendo há 11 anos no Brasil, Rodriguez afirma não ter um clube de preferência no país, embora frequente tanto a Arena quanto o Beira-Rio. Há, contudo, uma gratidão com o Internacional, que acolheu sua proposta de logotipo alusivo ao centenário do clube, em 2009. Foi a partir de então que o argentino passou a receber para outros trabalhos. Desde então, o foco principal do seu trabalho é voltado ao futebol.

A proximidade geográfica e cultural faz com que muitos argentinos se sintam em casa no Rio Grande do Sul, não apenas dentro de campo. Para Rodriguez, Porto Alegre tem se mostrado uma cidade amigável aos argentinos, “tirando casos isolados”. A identificação, segundo ele, pode ser observada principalmente pelo comportamento das torcidas, que têm o hábito de empurrar o time em qualquer situação, ainda mais quando o time está perdendo — característica também observada nas “barras” de Grêmio e Internacional.

“Não sei o motivo científico, mas acho que pode ser por uma questão cultural, de tradição. O povo daqui é muito mais próximo nos seus costumes ao argentino e ao uruguaio do que ao restante do país”, resume o ilustrador.

Sobre a expectativa para esta Copa América, Rodriguez afirma que a albiceleste encontra-se em uma fase de transição. Ele lamenta que a geração de Messi, Di Maria e Agüero não tenha sido devidamente reconhecida pela falta de um título pela seleção principal — embora alguns destes jogadores tenham conquistado a Medalha de Ouro na Olimpíada de 2008 e o Mundial Sub-20 de 2005.

“Lamentavelmente, essa geração não conseguiu se coroar como merecia. Não se espera muito, mas sempre se tem essa esperança quando começa um campeonato novo”, observa Rodriguez, que também considera Uruguai e Colômbia favoritos.

Também são boas as expectativas de João Luís para o torneio continental. Não do ponto de vista esportivo, uma vez que o comerciante revelou que sua relação com a seleção brasileira está bastante arrefecida por causa dos últimos resultados, mas pela oportunidade comercial que ele enxerga nas datas.

“Na Copa do Mundo o movimento de torcedores foi bem grande na cidade, sobretudo o movimento de torcedores argentinos e uruguaios. Eu estou apostando nisso, vou colocar uma televisão aqui e fazer algumas promoções em dias de jogos”, prospecta João.

A percepção de João é confirmada por números: a cinco dias do início do torneio, apenas 65% dos ingressos haviam sido vendidos. Em Porto Alegre, a partida entre Brasil e Honduras, que acabou com um massacre de 7×0 do escrete canarinho, teve menos de 16 mil pagantes — um dos piores públicos não só da Seleção Brasileira, mas também do estádio Beira-Rio neste ano. Todos os jogos do Inter pelo Campeonato Brasileiro levaram mais gente ao estádio até a data desta reportagem.

João aposta que boa parte da torcida brasileira irá torcer para seleções vizinhas.

“Aqui tem essa característica. A gente vê muita gente torcendo para o Uruguai e para Argentina na Copa do Mundo. São seleções que despertam nossa simpatia, aqui são hermanos mesmo, diferente do resto do país”.

Um jeito de torcer platino

Foi na região das fronteiras entre o Brasil e o Uruguai que o futebol gaúcho deu os seus primeiros passos no final do século XIX. Registros históricos coletados no trabalho de dissertação do historiador Ricardo Santos Soares apontam que o esporte era praticado nas cidades de Uruguaiana e Santana do Livramento antes do início do século passado.

Sob forte influência do país vizinho, na cidade de Rio Grande surgiu um dos clubes de futebol de futebol mais antigos do país: Conhecido como o vovô do futebol, o Sport Club Rio Grande foi fundado em 19 de julho de 1900. Se os uruguaios tiveram uma importância significativa na consolidação do esporte no estado, foram as torcidas argentinas que inspiraram os modos de torcer das organizadas dos principais times de Porto Alegre.

Juliano Franczak, 37 anos, é um dos membros fundadores da torcida Geral do Grêmio. Junto com Carlinhos Caloghero, Alexandre Martau e outros, o torcedor folclórico do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense é notado por estar sempre presente nos jogos do tricolor com roupas típicas: bombacha, chapéu e bandeira do Estado do Rio Grande do Sul em punho.

Juliano Franczak, conhecido por Gaúcho, é um dos membros fundadores da torcida Geral do Grêmio e deputado estadual pelo Rio Grande do Sul. Foto: Richard Ducker.

A torcida foi a precursora da implementação deste jeito de torcer no Estado e também no país. Fundada em 2001 como Alma Castelhana, trouxe para os estádios da Capital uma atmosfera diferenciada, marcada por um jeito de torcer das barras argentinas e uruguaias. O conceito de Geral se dá em 2003, quando a direção gremista coloca os espaços atrás do gol com ingressos populares (a geral). Levam faixas (trapos), bandeiras (tirantes) e entoam cânticos com temas castelhanos. Cantam o jogo inteiro.

“A geral do Grêmio trouxe para a cancha a cultura gaúcha de torcer. Como somos mais próximos ao Uruguai, Argentina, do que do centro do país, natural que nossas influências se confundam com as do hermanos. Brasileiros, mas gaúchos, cisplatinos, esse é o nosso modo de ser”, ressalta o Alemão, como é conhecido pelos torcedores.

A Geral começou a ganhar força e reconhecimento ainda nos tempos em que o Grêmio mandava os seus jogos no Estádio Olímpico, localizado no bairro da Medianeira, em Porto Alegre. A cada gol a torcida fazia um movimento descendente na arquibancada, conhecido como “avalanche”, gerando um efeito visual impactante. Na Arena, entretanto, isso foi proibido: em 2013, uma “avalanche” rompeu a barreira de proteção da arquibancada norte, que é mais alta que o campo — no Olímpico, o limite da Geral era o chão. Algumas pessoas caíram e ficaram feridas. Desde então, a “avalanche” é proibida.

Apostando nessa popularidade com a  torcida, Juliano foi eleito deputado estadual pelo Rio Grande do Sul pelo PSD — mesmo partido de Danrlei e Mário Jardel, que também se elegeram com apoio da torcida gremista — em 2016 com cerca de 43 mil votos.  O seu mandato, embora não seja exclusivamente voltado para questões relativas ao esporte, tem o futebol como uma das principais bandeiras. Recentemente Gaúcho protocolou o projeto de lei “Futebol para Todos” na assembleia legislativa. O projeto prevê que os torcedores do Rio Grande do Sul em situação de baixa renda possam adquirir o ingressos com desconto de 80%.

No lado vermelho da cidade, a extinção da Coreia – o setor popular do Beira-Rio –, em 2003, amplificou o movimento que deu origem à Guarda Popular do Inter. No início, eram torcidas organizadas localizadas no setor popular do estádio, à beira do campo:  Diabos Vermelhos, PCC (Primeiro Comando da Coreia), Malditos da Coreia e Fúria Vermelha. Esses movimentos uniram-se para formar a base da Popular do Inter no final de 2003. Em 2005, houve uma breve cisão entre Guarda Colorada (que ficava na Popular Gigantinho) e Popular do Inter (que ficava na Popular do antigo placar eletrônico) por divergências ideológicas. Essa divisão acabou em 2 de outubro de 2005,  formando a Guarda Popular, hoje reconhecida como “a maior e principal torcida do Internacional”, segundo o site do clube.

“A principal barra do Internacional se formou assim, do nada, sem combinar muita coisa”, explica Claiton Castro Junior, o Master, fundador da Guarda Popular.

Guarda Popular, torcida do Internacional. Foto: Reprodução/Instagram/@popularoficial.

Com o passar do tempo, o modo de torcer foi sendo incrementado por meio da confecção de bandeiras, da composição de músicas e dos churrascos realizados antes das partidas. A torcida esteve presente no ciclo de conquistas recentes do clube, que teve como ápice a conquista do Mundial de Clubes em 2006.

Também ao molde das barras argentinas e uruguaias, a Guarda Popular diferencia-se tanto pelo visual quanto pelos instrumentos utilizados durante o jogo. A banda inclui bumbo, bumbo de murga (com pratos), caixa de bateria, repinique e instrumentos de sopro, como trompete, saxofone e trombone.

“Somos a torcida que mais canta no Brasil. Outras torcidas chegam a copiar as nossas músicas”, gaba-se Claiton, que começou a integrar o movimento no início. A identificação com o estilo platino não fica restrita ao modo de torcer: bandeiras ilustram os rostos de D’Alessandro e Guiñazú, além de outros ídolos do clube.

As raízes platinas ficam evidentes também na amizade dos torcedores colorados com outras torcidas do continente. Uma das mais simbólicas é com o Independiente, da Argentina. A simpatia com o Rei de Copas vem desde a vitória dos argentinos contra o Grêmio, na final da Libertadores da América de 1984. A irmandade foi intensificada quando Internacional e Independiente enfrentaram-se pela Recopa, em 2011, com vitória dos gaúchos. Naquela ocasião, os torcedores argentinos foram recebidos com um churrasco de confraternização na Banda Saldanha. Outro fator que aproxima as duas torcidas é o vermelho do uniforme, que levou a uma aliança com dois outros “rojos do continente”: o Caracas, da Venezuela, e o América de Cali, da Colômbia.

Símbolos de resistência, as barras sentem as consequências do chamado “futebol moderno”. A reforma do Beira-Rio, reinaugurado em 2014 para a Copa do Mundo do Brasil, trouxe profundas mudanças no jeito de torcer da Guarda Popular. Cadeiras foram colocadas no setor do portão 7, onde o público costumava assistir aos jogos em pé.

“Parece que a alma do estádio foi roubada”, resume Master, que foi contra a reforma “padrão Fifa” recebida pelo estádio. “A gente gosta de concreto, do futebol raiz”, acrescenta. No final do ano passado, porém, a insatisfação dos torcedores foi ouvida e os assentos foram retirados. No espaço, cabem cerca de 4 mil torcedores.

As barras gaúchas, além dos modos de torcer, também importaram a agressividade e a violência das torcidas platinas. Ambas eram vistas como sendo muito violentas. Segundo Juliano, um caso emblemático contribuiu para formação desta imagem negativa.

No Gre-Nal 366, em 30 de junho de 2006, torcedores da Geral do Grêmio invadiram a parte da torcida do Inter e enfrentaram a polícia no Estádio Beira-Rio, incendiando banheiros químicos e deixando inúmeros feridos. Episódios como este ajudaram a construir uma má fama para as barras. Juliano Franczak afirma que essa imagem foi modificada nos últimos tempos.

“Os atos de violência têm diminuído consideravelmente, sobretudo depois que alguns torcedores precisaram responder por inquérito policial, a impunidade é o que traz esse tipo de gente pra dentro do estádio”, explica.  

Um jeito de jogar platino

O treinador de baby fútbol – como as escolinhas são chamadas no Uruguai – costumava dizer a Sebastián Gastelumendi, hoje com 28 anos: “dentro da nossa área, a bola não pode ficar”. Então com 5 anos, o zagueiro mirim assimilou o ensinamento, que pratica ainda hoje nos jogos de futebol sete. “Obviamente, a gente se aproveita dessa fama”, sorri, dando uma pista sobre a origem do futebol aguerrido praticado do outro lado da fronteira.

Sebastián Gastelumendi, designer gráfico uruguaio, é torcedor do Nacional e do Grêmio. Foto: Pedro Vasconcelos.

Radicado em Porto Alegre desde os 19 anos, Sebastián, torcedor do Nacional de Montevidéu, sente-se totalmente adaptado à cultura e aos costumes locais. Em parte por razões familiares e afetivas, já que os avós moravam na Capital gaúcha, onde vinha passar as férias de verão na infância. Mas foi o futebol de outro tricolor, o Grêmio, e a semelhança com o modo de torcer que mais ajudaram na plena identificação com os rio-grandenses – embora atualmente não veja com bons olhos certas novidades introduzidas pelo futebol “moderno”.

Ao chegar ao Rio Grande do Sul em definitivo, para estudar design gráfico, uma inquietação passou a perturbar o uruguaio. Como acompanhar os jogos do Nacional de Montevidéu a 800 quilômetros de distância? “Foi uma coisa que eu não pensei”, revela o fanático torcedor, até então presença certa em todos os jogos do tricolor uruguaio, tanto no Gran Parque Central quanto fora de casa.

Se, por um lado, o clube do coração ficou mais distante; por outro, Sebastián passou a torcer, no Brasil, por outro tricolor: o Grêmio. A escolha do clube no Rio Grande do Sul não foi difícil, já que pesou a identificação histórica entre as duas torcidas, que contam com um ídolo em comum – o zagueiro Hugo De León, campeão da Libertadores de 1983 pelo Grêmio – e façanhas contra os principais rivais, como a vitória do Nacional sobre o Internacional pela Libertadores de 1980 e a do Grêmio contra o Peñarol na final de 1983.

Com amigos na torcida do Grêmio, Sebastián passou a frequentar os jogos do tricolor ainda no Estádio Olímpico, casa do clube até 2012.

“Em parte, isso saciou a minha saudade do futebol”, afirma. Para acompanhar o Nacional, o torcedor utiliza um serviço de transmissão, com o qual pode assistir aos jogos pelo celular – já que hoje em dias as viagens ao país de origem são escassas. Ele também lamenta o fechamento recente do restaurante La Pasiva que transmitia os jogos do clube.

Foi no antigo Olímpico, hoje prestes a ser demolido, que o torcedor uruguaio viu uma identificação maior com os torcedores do talud, a “rampa” situada atrás do gol do Parque Central, onde o ingresso é mais barato e a principal “barra” do clube, La Banda del Parque, canta os 90 minutos.

O conceito de arena, no entanto, contribui para uma mudança no jeito de torcer. Sebastián chama a atenção para “a falta de sentimento” dos torcedores, que assistem ao jogo como se estivessem no cinema.

“A Copa veio para melhorar muitas coisas, mas também para apagar um pouco a torcida de raiz”, observa. “A mudança do Grêmio do Olímpico para a Arena foi absurda”, complementa, sem deixar de reconhecer a qualidade de infraestrutura do atual estádio tricolor.

A Geral guarda diversas semelhanças – e possui laços históricos – com a La Banda del Parque. É na famosa “barra” gremista que o uruguaio costuma acompanhar as partidas do tricolor gaúcho.

“É outra atmosfera. Me lembra quando ia ver o Nacional”, compara.

Quando o assunto é a seleção do seu país, no entanto, os uruguaios sabidamente demonstram um comportamento bem diferente dos gaúchos em relação à amarelinha – e dos brasileiros em geral, considerando a fase atual do time de Tite. O pequeno país de 3 milhões de habitantes sente-se representado pelos 11 que entram em campo. Pode até ser que a Celeste não empolgue um ou outro uruguaio, mas torcer por outra seleção é considerado uma heresia.

A raça e a valentia dos jogadores uruguaios, demonstrada desde o baby fútbol, é personificada na figura de Diego Godín, capitão do Uruguai, que segundo Sebastián é quem melhor representa na atualidade o jeito de jogar da seleção.

“Além da tranquilidade, ele deixa tudo em campo. É o capitão ideal”, resume.

Com ingresso comprado para o jogo do Uruguai contra o Japão, no dia 20 de junho, na Arena do Grêmio, Sebastián espera que o jogo seja mais um passo na conquista do 16º título de Copa América. O último título foi em 2011, ocasião em que, como lembra o torcedor, poucos acreditavam na Celeste.


Durante a Copa América, Puntero Izquierdo e Ludopédio publicam uma série de reportagens sobre a história e a atualidade da competição.