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Prass sempre no coração de uma geração de palmeirenses

Lucas Dorta

Sábado, manhã de 7 de dezembro de 2019. Véspera de última rodada do Campeonato Brasileiro. Foco da mídia esportiva estava na luta do Cruzeiro contra o rebaixamento. Eis que sai na internet uma notícia que movimentou o coração dos palmeirenses e até de quem gosta de futebol: Fernando Prass, atleta de 41 anos de idade, confirmava em suas redes sociais a saída do Palmeiras. O fato revoltou e entristeceu muitos torcedores. A sensação de vazio que ficará será inevitável, principalmente em um clube que vive crise de liderança.

Prass pode não ter sido o maior vencedor em número de títulos. Nem jogou grande quantidade de partidas recentemente. Mas a sua passagem nestes sete anos foi muito intensa. Não dá pra saber como a historia o classificará no futuro. Com certeza a expectativa é de que o goleiro seja lembrado como o símbolo da reconstrução do Palmeiras por ter vivido de tudo entre 2013 e 2019.

O atleta também ficará marcado como maior representante do torcedor palmeirense dentro das quatro linhas durante esta década. Assinou contrato no interminável ano de 2012, quando ninguém queria vestir a camisa verde, principalmente com a equipe rebaixada enquanto o rival festejava o Mundial. Sem contar a nada confortável situação financeira. Como quem defendeu o chute do Fred no 2º jogo da semifinal da Copa do Brasil 2015, soube se defender da pressão de ser goleiro contratado, algo que não era comum no Palmeiras. Vestiu o uniforme e as luvas, foi conquistando a torcida aos poucos. Pelo profissionalismo e grandes defesas. Não pela língua, que aliás, sempre usou tão bem quanto as mãos.

Prass foi apresentado como reforço do Palmeiras no dia 13 de dezembro de 2012. Foto: Cesar Greco/Ag Palmeiras/Divulgação.

Dos jogos intermináveis até a glória

O goleiro encarou o sonolento ano de 2013, que tinha a  Série B no caminho. Campeonato indesejado, em que o título era obrigação. Representou o palmeirense com profissionalismo nos longos jogos das noites de terças e sextas-feiras e tardes de sábado. Andou pelo Brasil naquela competição conhecendo a força da massa do Palmeiras no país. Ajudou a colocar o clube no seu devido lugar, após aquela partida contra o São Caetano no Pacaembu que teve mais sensação de alívio do que de festa. Ainda em 2013, o goleiro sofreu a inexplicável derrota para o Mirassol por 6 a 2 pelo Campeonato Paulista.

Veio o centenário. Junto o enganoso começo de 2014, quando o time conseguiu sete vitórias e dois empates nas primeiras nove rodadas do Paulistão. O palmeirense ainda não sabia o que esperava no final daquele ano do novo estádio, que ganhava as primeiras cicatrizes. Prass ficou boa parte do Campeonato Brasileiro fora da titularidade por fratura no cotovelo. Enquanto isso, a equipe se perdia nas derrotas e a sensação de que ocorreria nova queda era grande. O goleiro assumiu ter jogado no sacrifício. Representou o palmeirense nas últimas rodadas vibrando a cada lance. Respirando fundo a cada sufoco. Liderando e dando tranquilidade aos profissionais mais novos. Foi a cara do palmeirense – parecia um torcedor –  quando estava dando entrevista emocionado, tenso, olhos assustados, após o dramático Palmeiras 1 a 1 com o Athletico, dia em que a torcida passou pelo vexame de comemorar gol do Santos contra o Vitória como se fosse um título e a TV transmitindo os momentos finais exatamente na hora em que os baianos estavam indo para o ataque podendo fazer o gol que levaria o Verdão num poço sem saída. Acabou sendo o grande nome na milagrosa fuga do rebaixamento.

Veio 2015. Novo projeto e a diretoria deixando de ver apenas cifras para pensar em títulos dentro de campo.  É neste ano que aquele cara que vestia o uniforme azul seria imortalizado. Logo no primeiro semestre, o confronto que simbolizava a possível volta do Palmeiras como protagonista: Corinthians x Palmeiras, semifinal do Campeonato Paulista, 19 de abril, Itaquerão. Empate em 2 a 2 no tempo normal, partida decisiva, tensa, lá e cá. Tudo vai ser decidido no drama dos pênaltis. A equipe da casa, que vinha de grandes conquistas, tem a chance de matar o confronto com Elias. Prass defende. Esperança do palmeirense que respirava aliviado. A disputa caminha com as duas camisas pesadas. Até que Petros bate o pênalti. Prass pega, jogadores vibram em direção aos poucos torcedores, na época em que o futebol paulista ainda podia ter duas torcidas, o palmeirense explode de alegria com uma mistura entre nostalgia e sensação de retorno aos bons tempos. O goleiro da camisa azul grita olhando para a arquibancada como se fosse um torcedor que tivesse desabafando após todo o sofrimento da década de 2000.  Na final contra o Santos no Paulistão, o então novo Palmeiras não conseguiu o título por detalhes. Talvez, pensando nos dias de hoje, aquela derrota nos pênaltis doeu, mas deve ter valido a pena por causa daquilo que aconteceu no final do ano.

O capitão palestrino pegou dois pênaltis em Itaquera e ajudou o Verdão a se garantir na final do Paulista de 2015. Foto: Cesar Greco/Ag Palmeiras/Divulgação.

Chegou o segundo semestre de 2015. Time ainda irregular, mas de alma copeira na jornada épica e histórica da Copa do Brasil. Prass era grande nome do elenco, só que faltava uma grande conquista para ele. E que momento histórico aquela competição reservava. Na semifinal, o adversário entalado graças ao agonizante Brasileirão 2009. Placar de 2 a 1 no confronto de volta. Resultado levava a disputa para os pênaltis. Nos minutos finais a bola sobra para Fred dentro da área que chuta no canto. Prass faz um milagre no momento em que as câmeras de TV estavam sedentas pra capturar imagens de jovens palmeirenses novamente entristecidos. Nas penalidades o goleiro pega a cobrança de Scarpa, mostra o escudo pra massa como quem sabe o tamanho da instituição que está representando. Vai nos braços da torcida após a vaga garantida. Sente o calor humano daqueles que ele soube entender muito bem a importância deles para o clube.  

A volta da grande final da Copa do Brasil contra o Santos acontece no incrível 2 de dezembro de 2015, com o elenco sendo abraçado pelo estádio e por milhares de pessoas que estiveram nos arredores. Na entrada em campo, o mosaico do Prass gigante era a profecia daquilo que iria acontecer dentro de algumas horas. No tempo normal 2 a 1, com direito a gol de Ricardo Oliveira no fim que levou a decisão para os pênaltis, ressuscitando os pensamentos de que tudo daria errado.

Nas penalidades Prass passa para a história do Palmeiras, pegando pênalti, chamando a responsabilidade no momento decisivo ao assumir o posto de batedor da cobrança do título. Chute com raiva, como quem estava mandando longe o sentimento de incerteza dos  palmeirenses. Raiva pelas provocações dos santistas na semana do jogo, pela derrota no Paulistão, pela imprensa que dava o rival como campeão e por todos os anos de derrotas e goleadas difíceis de entender. O atleta se emocionava como se fosse um das arquibancadas. Este duelo contra o Santos talvez seja visto pela minha geração de palestrinos – tenho 25  anos de idade – como o 1993 dos mais antigos, principalmente pelo clima e representatividade do duelo decisivo. Um chute capaz de causar lembranças assim como muitos torcedores mais velhos lembram da cobrança de pênalti do Evair contra o Corinthians. Só o tempo dirá o quanto esse jogo vai significar para os jovens.

Na final da Copa do Brasil de 2015 contra o Santos, Prass foi o herói ao defender um pênalti e converter a última cobrança garantindo a festa alviverde na Arena. Foto: Cesar Greco/Ag Palmeiras/Divulgação.

Em 2016 mais uma vez pegou pênalti do rival naquele 1 a 0 no Pacaembu pelo Campeonato Paulista. Foi convocado para as Olimpíadas e acabou sendo cortado. Teve de passar por cirurgia no cotovelo. Retornou ao futebol na partida do título do Brasileirão 2016 contra a Chapecoense, proporcionando a linda cena do abraço entre dois goleiros de duas grandes histórias.

Nos anos 2018 e 2019 a quantidade de jogos já diminuía, sendo respectivamente 7 e 11 partidas. Mesmo assim não procurou entrar em polêmicas. Nem tentou ganhar idolatria por picuinhas nas redes sociais. Pelo contrário. Manteve a seriedade e o espírito de liderança quando entrou em campo. Festejava cada gol como se fosse titular absoluto. Na festa do título em São Januário se emocionou como um torcedor desde a infância. Nem parecia que era reserva.

A saída de Prass remete a ideia de fim de ciclo desse Palmeiras que busca a renovação. Só que essa renovação poderia ter um líder no vestiário pra ajudar na condução de novas ideias. Tecnicamente acredito até que dava pra manter o alto nível pelo menos até 2020 e assim seria possível ter a despedida à altura. Era até legítima a intenção de a diretoria não querer renovar com o atleta, porém isso teria que ser feito de maneira mais transparente. Fica parecendo que Prass foi tratado de maneira descartável e que poderia ao menos receber algum aviso para fazer o último jogo.

Fernando Prass recebe placa e camisa emoldurada e se despede após 7 anos. Foto: Ag Palmeiras/Divulgação.

O goleiro deixará um vazio. Não apenas pelo lado técnico e sim pela postura nas interessantes entrevistas, pelo respeito ao torcedor, pelo reconhecimento do tamanho da instituição, pelas brigas compradas de forma elegante na rivalidade da final Copa do Brasil 2015. Prass é o tipo profissional cada vez mais raro no meio futebolístico. Respeitado por todos torcedores. Não busca se promover por meio de encrencas de internet. Engajado na busca por melhorias no futebol. É um cara que o cidadão comum pode se enxergar nele, devido ao exemplo de ética profissional.

O palmeirense ficará com saudades e dificilmente o posto de ídolo será preenchido de maneira fácil. Na lembrança dos mais novos grudará na memória o cara que simbolizou a reconstrução do Palmeiras.