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Precisamos de mais times

Guilherme Trucco

Temos mais de 600 equipas profissionais no país, amigos. Repito, mais de 600 é o número.

Se chutarmos média de 1.500 lugares por estádio, a capacidade instalada nacional é de aproximadamente 1 milhão de lugares para ver futebol. Considerando população de 200 milhões, temos 1 lugar para cada 200 pessoas. É muito pouco.

A Argentina tem mais de 300 times, o que daria uma capacidade média de 96 pessoas por assento, enquanto o Uruguai, pasmem, 43 pessoas por assento.

Sim,  em termos de futebol, o eixo de comparação deve necessariamente ser a América Latina. Nunca os europeus.

Não sou a favor de estádios maiores, arenas, elefantes brancos. Muitíssimo pelo contrário. Precisamos é de mais times.

Como comportar tantos times? Tantos jogos? O ano não é elástico, vai continuar tendo sempre 52 semanas.

Mapa invertido da América do Sul. Autor: artista plástico uruguaio Joaquín Torres García (1874-1949). Foto: Reprodução.

Somos nação porosa. O futebol nos escorre pelas pernas. Adotar um calendário europeu seria o rabo abanar o cachorro, não o inverso. Precisamos de mais times, mais jogos, mais estádios pequenos!

O estadual é campeonato miúdo. Sem envergadura. Atrapalha o planejamento das equipes grandes. Os europeus, sim, têm futebol aprumado, de calendário organizado, desenvolvido, evoluído e rentável.

Percebe?

Essas palavras não são o futebol. Nunca foram o futebol.

Sem os estaduais, o que seriam de clássicos de incrustada polpa futebolística, como o JuveNal na A2 paulista? O que seria do Guarani de Sobral? Do Atlético Cajazeiro? Do Vitória da Conquista? Do Barcelona de Rondônia?

Proponho, inclusive, uma exaltação aos times tacanhos.

Necessitamos de maior apropriação desta espessa pasta que compõe nosso caroço já enferrujado de futebol lúdico, desproposital.

Eis o ponto que eu queria chegar: proponho o Calendário Brasilis.

Divide-se o ano em primeiro e segundo semestre. No segundo semestre temos o campeonato nacional, o Brasileirão do dia a dia, com suas consolidadas séries A, B, C e D. Não é dele que quero falar.

Entretanto, o primeiro semestre, ah o primeiro semestre, tem desproporcional fundura.

Analise este fino biscoito:

1 – Campeonatos organizados não por estado, mas sim por semântica de grupos. Assim, podemos ter o grupo dos Botafogos (do Rio, de Ribeirão Preto, e da Paraíba); o grupo dos Guaranis (de Juazeiro, de Sobral, de Campinas, de Adamantina, etc.); o grupo das datas com XV de Piracicaba, 7 de Dourados, 4 de Julho-PI, XV de Jaú, Treze-PB; o grupo religioso com São Paulo, Santos, São Raimundo e etc; o grupo dos otimistas com Vitória, Vitória da Conquista, Confiança-PB, Nova Conquista-TO,  Progresso-RR; o grupo dos Flamengos, dos Américas, dos Atléticos, dos Operários, das Ferroviárias, dos Rios Brancos, Negros e Claros, e assim por diante.

2 – Estes grupos formariam uma copa em sistema mata-mata, tendo turno e returno, com os quatro primeiros de cada grupo se classificando, e os demais indo para repescagem. A ideia é que nenhum time seja desclassificado. Nunca. O primeiro turno se chama Taça Pré-Carnaval, e o segundo Taça Pós-Carnaval. As partidas acontecem em três quadros (Esporte – até 30 anos, Veteranos – 30 a 50 anos, e Master – acima de 50).

3 – Os jogos acontecem apenas, repito, apenas aos domingos de manhã, com cerveja e churrasco.

4 – O carnaval deve ser respeitado.

O calendário europeu, evoluído, prioriza a venda de direitos televisivos. O negócio. Pois vamos e venhamos, isto é o que menos importa. A ossatura do futebol deve ser pensada de fora para dentro, com a experiência da rua, dos campos, da vivência completa do dia do jogo.

Apetece muito mais o estádio charmoso, cômodo em sua humildade e pequenez.

Se ao invés de 600, tivéssemos mil times profissionais, com capacidade para 5 mil pessoas, temos uma relação de 1 assento para cada 40 pessoas. Já é número mais redondo, ainda que minha utopia acredita que deveríamos ter uma capacidade suficiente para abrigar todo e qualquer cidadão brasileiro.

Que os clubes sobrevivam de direitos televisivos é uma ideia europeia. Nossa matriz de renda dos clubes deve ser o estádio e a camisa. Apenas.