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Presenças e ausências: Memorial do Figueirense Futebol Clube (e Sérgio Gil)

Alexandre Fernandez Vaz

Conhecer o Memorial do Figueirense Futebol Clube é, para quem viveu a maior parte da vida em Florianópolis e gosta de futebol, uma linda experiência. Nele há fotos, camisetas, troféus, bolas e tantos outros artefatos, como em qualquer outro lugar do mesmo tipo. Mas a identificação com o clube e com a cidade fazem da visita algo singular, ainda que também a boa organização, a riqueza de detalhes e a hospitaleira recepção da responsável pelo espaço, a historiadora Lidiane Teixeira Costeira, ajudem a despertar, involuntários, os fios da memória.

O Memorial fica abaixo das arquibancadas do Orlando Scarpelli, pertencente ao Figueirense, o primeiro estádio de futebol que frequentei com alguma regularidade, levados, meu irmão e eu, por meu pai. Lá estão camisetas da seleção brasileira de jogadores que, antes de chegarem à ela, passaram pelas categorias de base do clube, como Filipe Luís, Roberto Firmino e André Santos; os uniformes de ídolos nacionais que, veteranos, jogaram pelo clube, como Sérgio Manoel, Cléber, Evair e Edmundo; as fotos dos presidentes ao longo da história, como o amigo de meu pai, Odorico Durieux; as imagens de tantos momentos marcantes, como as dos clássicos contra o Avaí Futebol Clube, do gol do primeiro acesso à Série A do Campeonato Brasileiro, de times que fizeram história. Em duas das fotos está o goleiro Vanderlei Silva, pai de Fábio, amigo do ginásio, em outra está Giovani Seemann, centroavante do elenco profissional na segunda metade dos anos 1980, meu amigo de escola primária, desde sempre torcedor do Figueira. Os fios da rememoração vão aos poucos se atando.

Exposição de Colecionadores de Camisas do Figueirense no memorial do clube. Foto: Figueirense/Twitter.

No Memorial e na memória encontra lugar Sérgio Gil.

O Gil é bom jogador, mas não na ponta-esquerda”, me disse um colega de faculdade, jogador do Figueirense, que havia sido preterido pelo jovem que subira havia pouco das categorias de base do clube. Improvisado como atacante pela esquerda, Sérgio Gil desbancava um titular muito mais experiente que a partir de então iria ao banco e de lá a não mais ser relacionado para os jogos. Estávamos em 1987 e outro colega, ex-jogador do time de juniores, vaticinou: “está difícil a situação dele, ainda mais com o Gil marcado gol pra caramba”.

Rápido e técnico, Sérgio Santos Gil havia se profissionalizado antes de completar 17 anos, quando já era um ótimo ponta-de-lança, posição de seu ídolo Zico. Logo chamou a atenção de outros clubes e de empresários, chegando à seleção brasileira sub-20 para a disputa da Copa do Mundo da categoria, na Arábia Saudita, em 1989. O catarinense vestia a camisa 10 em um elenco que contava com Marcelinho, do Flamengo, que somaria mais tarde a seu nome a designação de Carioca, ao transferir-se para o Corinthians, e Assis, do Grêmio, mais conhecido hoje como irmão e empresário de Ronaldinho Gaúcho, além do atacante Bismarck, do Vasco, escolhido como melhor jogador do torneio. Antes do terceiro lugar no Mundial, a equipe fora campeã sul-americana, na Argentina, no ano anterior, título conquistado também com a participação do catarinense.

Sérgio Gil veio de nobre linhagem, era irmão mais novo do médio-volante Almir, também cria da base do Figueirense, campeão brasileiro pelo Coritiba em 1985, com passagem de destaque também pelo São Paulo, e de Tonho, meio-campista vencedor das Copas Libertadores da América e Intercontinental, em 1983, pelo Grêmio, e medalha de prata pela seleção brasileira nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984. Três de seus sobrinhos atuam no futebol: Fernando é treinador, Felipe na condição de dirigente, Kleber Lucio como árbitro-auxiliar há sete anos no quadro na FIFA.

No segundo semestre de 1988 e no primeiro do ano seguinte, Gil atuou pelo Corinthians. Ele já estava sob a guarda de Juan Figer, o mítico empresário do Uruguai, dono do passe de centenas de jogadores, e que ostenta o registro número 1 como agente FIFA. Para meu desgosto, não se firmou de imediato no Timão e, querendo ser titular, partiu para o Internacional de Porto Alegre, clube que desembolsara um milhão de dólares para contar com ele. Pouco mais de dois anos depois daquele mal-estar declarado pelo jogador preterido no Figueirense, às vésperas de completar 19 anos, Gil morreu em um acidente automobilístico na Régis Bittencourt, a Rodovia da Morte, ao deslocar-se de São Paulo para Florianópolis.

Henrique Alves, Sérgio Gil e Alberto Dualib, em 1988. Foto: Reprodução.

Seleção brasileira, jogar na Itália (como se especulava que aconteceria), Copa de 1994, casamento, nada disso aconteceu na história curta do garoto que pintava como craque. Jamais saberemos o que seria dele nos anos seguintes, já que quem morre aos 18 anos segue sendo na memória de todos, para sempre, um menino de tal idade. Nome de rua e de edifício na cidade de Florianópolis, Sérgio Gil perfila na interminável lista de talentos desperdiçados pelo futebol brasileiro, pelo Brasil.

O esporte é potência que deve passar ao ato, encarnação da busca pelo sucesso. Recordar um possível que não se concretizou é atualizar sua memória. Que o belo Memorial do Figueirense continue sediando o trabalho de conservação, estudo e divulgação da vitoriosa história do clube. Que ele também possa fazer recordar fracassos e insuficiências, assim como potências que não chegaram ao ato. Como experiência histórica do presente, o futebol oferece essa chance.

Ilha de Santa Catarina, Montevidéu, novembro de 2019.