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Primeiras impressões do Palmeiras de Mano e nossa contínua “Dudupendência”

Gustavo Dal'Bó Pelegrini

Um mês se passou desde o primeiro jogo de Mano Menezes no comando do Palmeiras. Com sete jogos no período, podemos começar a ter um panorama do que está sendo e do que será sua passagem pelo Palestra. Temos hoje uma mistura de sentimentos que vão da esperança à angústia, tanto ao olhar nosso presente, quanto ao prever nosso futuro. Entender quais são os caminhos que estamos trilhando é o primeiro passo pra deixar a angústia de lado, e então superar os desafios que parecem ser velhos conhecidos.

Mano estreia contra o Goiás, numa vitória de virada fora de casa por 2×1. Fazia mais de um ano que não virávamos um jogo, então pode-se dizer que foi um começo com o pé direito. Desde então, vitórias contra Fluminense, Cruzeiro e CSA em casa e Fortaleza fora, somados aos empates contra Inter fora e Atlético MG em casa, fazem com que a equipe se mantenha invicta após sua chegada. Os adversários da parte de baixo da tabela já davam conta de que o começo de trabalho seria de resultados positivos, e as boas vitórias contra Fluminense (3×0) e CSA (6×2) ajudaram a manter o otimismo.

As boas notícias não pararam por aí. Jogadores importantes voltaram ou mantiveram a boa fase que já vinham. Vitor Hugo ganhou a posição e está muito bem desde que voltou da Europa. Luiz Adriano é participativo e mostra faro de gol, parecendo resolver o problema do centroavante que assombra nossa equipe desde a saída de Gabriel Jesus, em 2016. Lucas Lima, tão contestado desde sua chegada, está voltando a jogar bem e tem tido boas participações saindo do banco de reservas, apesar de não ter feito um bom jogo contra o Atlético MG em sua única partida como titular. Bruno Henrique voltou a se destacar, chegando mais na área adversária e marcando gols. E Dudu, por fim, continua sendo a grande referência de nosso sistema ofensivo. Este último merece uma análise maior, porque é também parte de um de nossos grandes problemas.

A dependência que nosso ataque tem do camisa 7 chega a assustar em alguns momentos, e não é apenas na frieza dos números de gols e assistências que temos essa noção. Dudu é o jogador mais incisivo de nossa equipe, que conduz a bola à frente na maioria das jogadas, principalmente nos contra-ataques, e é a nossa única arma no “um contra um”. Nossos outros jogadores de meio/ataque são de outra característica, mais cadenciada, que buscam tocar a bola e manter sua posse ao invés de serem mais agudos, como Zé Rafael, Scarpa, Lucas Lima e Veiga. Willian, mesmo jogando pela ponta, é mais um finalizador, e suas participações na construção da jogada se dão pra manter a bola com a equipe, e não necessariamente criar o jogo. Hyoran, que poderia fazer função parecida, tem poucas chances e não vive boa fase, enquanto os velocistas Carlos Eduardo e Felipe Pires, contratados ainda este ano, não mostraram a que vieram – o segundo já estando emprestado longe daqui. A falta de Dudu faz com que nossa equipe seja lenta e totalmente previsível, exagerando nos cruzamentos e com pouquíssima criação de chances de gol. Quem viu a partida contra o Fortaleza sabe bem do que estou falando.

Dudu tenta jogada individual na partida entre Palmeiras e Internacional, realizada no estádio Beira Rio, Porto Alegre-RS, pelo Campeonato Brasileiro de 2019. Foto: Itamar Aguiar/ALLSPORTS.

Podemos ver uma falha na montagem do elenco, que apesar de ter muitas boas opções para o setor ofensivo, não tem alguém que faça algo parecido com o que Dudu faz. E é aí que vemos nosso camisa 7 quase sempre sobrecarregado. Pra começar, ele quase nunca é poupado, mesmo quando acontece o rodízio com toda equipe. Sua jogada individual não tem tido grande efeito contra defesas bem montadas, muito porque acaba batendo contra um marcador já em sua frente, sem espaço, e ainda havendo adversários na cobertura caso tenha sucesso no primeiro enfrentamento. A vantagem da jogada individual só vai existir com uma movimentação rápida de bola, criando espaço pelo lado de campo, onde um jogador habilidoso pode vencer a marcação. Sem tal movimentação, a chance de sucesso é sempre mínima. Se o Palmeiras de Mano gosta mais de ter a bola, como vem sendo dito por toda mídia esportiva, nossa maior arma ofensiva ainda é o contra-ataque, quando aproveitamos os espaços com a velocidade de Dudu e a chegada de Willian, Luiz Adriano e Bruno Henrique.

Nos tempos de Felipão, era comum que os adversários dessem a bola ao Palmeiras para que sofrêssemos com a criação da jogada, e esse artifício ainda pode ser usado com sucesso pelos nossos rivais. Com a defesa postada, nossa dificuldade para criar é muito grande. No futebol, como em todo esporte coletivo, existe uma lógica na criação que consiste em abrir a bola pelas laterais, fazer com que adversários se aproximem dessa região e, então, mudá-la rapidamente para o lado oposto, aproveitando o desequilíbrio criado no número de jogadores daquele lado. Guardiola, inclusive, já falou sobre essa lógica, onde a finalização de uma jogada quase sempre acontece do lado oposto de onde ela foi iniciada. Pra que essa mudança de lado ocorra, é necessário que existam jogadores de frente para o jogo, na faixa central de campo, fazendo essa bola girar, caso principalmente dos volantes. Infelizmente, falhamos ao ocupar esse setor do campo, e invariavelmente a jogada que começa de um lado acaba sendo finalizada do mesmo lado. Bruno Henrique costuma se aproximar buscando uma tabela, enquanto Felipe Melo se mantém atrás, longe da jogada, para uma possível cobertura em caso de perda de bola. Sem essa aproximação pelo meio buscando “desafogar” a jogada, a inversão não acontece. Essa virada de bola acaba ocorrendo apenas nos zagueiros, longe do gol, ou nos lançamentos de Felipe Melo, o que é muito pouco. Tal falha entra como uma herança de Felipão e, mesmo com grande esforço, demorará muito para ser corrigida por causa da sequência de jogos.

De negativo, nossa dificuldade em criar contra times bem postados e a dependência exagerada das individualidades, como com nosso antigo treinador. De positivo, a boa fase de alguns atletas-chave, uma maior preocupação com o “ter a bola” e o fim do lateral jogado direto na área (amém!). A verdade é que o Palmeiras de Mano não é tão diferente assim do Palmeiras de Felipão, e nem pode ser cobrado para tal. Mudanças maiores de estilo e forma de jogo só podem ser cobradas quando existe tempo pra treinar, coisa que o calendário brasileiro só vai oferecer novamente ao fim desta temporada. A escolha de Mano tem que ser entendida pela diretoria como a escolha de um trabalho de longa duração e que não deve ser interrompido no meio.

É alarmante observar que não encerramos um ano com o mesmo treinador que o iniciou desde 2013. Esperamos que em 2020 seja uma história diferente, mesmo discordando da escolha da diretoria no treinador atual. Para agora, podemos esperar uma classificação tranquila pra Libertadores e, com um pouco de sorte e vacilos flamenguistas, a disputa pelo título. O campeonato é longo e tudo é possível. Até lá, ver algo muito diferente do que vimos este mês – e, por que não, este ano – parece fora da realidade.