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Procura-se Ivone desesperadamente

Luciane de Castro

Sou grata ao Ludopédio por aturar minha falta de constância neste espaço. A ausência se deve ao trabalho que tem envolvido muita pesquisa acerca das mulheres no futebol no período da esdrúxula proibição. Isto posto, vamos ao que de fato interessa.

O período da proibição do futebol para mulheres que compreendeu os anos de 1941 até 1979 – com regulamentação em 1983 – esconde resistência, competência e genialidade. Resistência no sentido de desobedecer categoricamente uma lei sem pé nem cabeça, articulada pelo patriarcado na tentativa de manter as mulheres em postos de subserviência e falhando miseravelmente. Competência no sentido de exato da palavra, já que os espaços ocupados eram predominantemente masculinos e não conferiam nenhuma excepcionalidade para que fossem ocupados. E, finalmente, genialidade, porque em tudo o que tocou no mundo esportivo e mais especificamente o futebol, a mulher deu ares mais criativos e interessantes.

Para dar conta de todas as informações escondidas em periódicos impressos entre 1950 e 1989, uma série seria ideal, mas me atenho aqui a um recorte específico e muito importante da mulher no mundo esportivo brasileiro com foco em Ivone dos Santos.

Ivone Santos. Foto: Reprodução/José Medeiros/O Cruzeiro, 1948.

Ivone dos Santos iniciou sua jornada esportiva como atleta em 1940, conforme registro n’O Cruzeiro de 1948. Suas especialidades eram lançamento de peso, dardo e 100 metros rasos. Pelo Botafogo, angariou diversas medalhas no atletismo, vôlei, basquete e foi eleita Miss Botafogo no mesmo ano de 1948, competindo ao título de Miss Campeonato daquele ano. Isso seria suficiente para destacar Ivone, mas há outros feitos que me chamaram a atenção enquanto pesquisava.

Em março de 1950, Ivone ocupou pequeno, mas importante espaço, no Diário da Noite (RJ) para falar sobre o basquete. Ainda ocuparia a edição de 19 de julho do mesmo ano antes de se tornar colunista dos esportes amadores para o mesmo impresso. Além do basquete feminino, Ivone escrevia sobre outros esportes praticados pelos homens. Em várias de suas notas, Ivone utilizava a palavra “atletas militantes”, no ensejo, creio, de reforçar a necessidade da luta pelos esportes amadores. Durante o ano de 1950, Ivone trouxe notas importantes sobre o basquete feminino, levando ao conhecimento de um público altamente consumidor de futebol, os acontecimentos que permeavam o cotidiano dos esportes amadores.

Ivone Santos – Cobertura dos Jogos Pan-Americanos de 1953 na Argentina. Foto: Reprodução/Diário da Noite.

Ivone ocupou espaço na TV Tupi como comentarista de basquete, foi tele-atriz na Rádio Mayrink Veiga entre 1951 e 1952. Onde havia comunicação, Ivone estava presente. Ainda produzia o programa noturno “Um campeão por semana”, da TV Tupi.

Criticou com vigor e argumentos sólidos, a inércia do Presidente Getúlio Vargas para que o Brasil levasse seus atletas aos Jogos Pan-Americanos da Argentina, surtindo efeito positivo no sentido da participação, mas sublinhando que a demora na decisão prejudicou a preparação dos atletas para a competição. Ivone se posicionava. Ivone peitava. Ivone ocupava brilhantemente o espaço que conquistou na imprensa esportiva que, desde sempre, era comandada por homens.

Nota sobre a Revista Desportiva Folha Seca por Anamaria, no Diário da Noite. Foto: Reprodução.

A partir de 1956, Ivone ocupou outro espaço no mesmo Diário da Noite sob a alcunha de Anamaria. Nesta coluna, Ivone lançou notas de todas as ordens: de bastidores de jogadores e dirigentes, a campanha de arrecadação de doação para uma portuguesa que lhe pediu ajuda. O nome da coluna, denotava a disposição de Ivone para fazer valer as palavras femininas: “Estou em todas”. Gênia!

Não bastasse todos os predicados atléticos, artísticos e jornalísticos, Ivone deu o golpe de misericórdia no encantamento dessa que vos escreve. Em comemoração aos 8 anos do Maracanã, Ivone lança a “Fôlha Seca – Revista Desportiva” para ser distribuída aos domingos de jogos. UMA REVISTA DE FUTEBOL FEITA POR UMA MULHER PARA RODAR NO MARACANÃ! Sim, em capslock, porque é de uma genialidade assombrosa! De uma ousadia absurda! Um tapa na cara da sociedade, meus caros e minhas caras!

Capas da Revista Folha Seca. Foto: Reprodução.

No dia 17 de julho de 1959, Ivone participou de homenagem a Maria Esther Bueno, oferecida por J.K. no Palácio das Laranjeiras em razão do título conquistado em Wimbledon. Na edição do dia 4 de agosto, Ivone publica uma reportagem com a jovem tenista Maria Helena Amorim. Edições adiante, publicou material valioso sobre a “moça dos 7 esportes”, Gilda Rodrigues Vieira, do Fluminense e sua pródiga aposentadoria da vida esportiva.

Também entrevistou Maria Lenk em 1957 e comumente utilizava seu espaço para amplificar a voz das atletas brasileiras. Ivone era uma apaixonada por esporte e sabia perfeitamente como se davam os caminhos para as atletas.

Com os chiliques travestidos de português rebuscado surgido nos mais diversos impressos em razão das atividades das mulheres do futebol de Araguari, Ivone utilizou seu espaço para promover debates e defender a prática do esporte das multidões pelas mulheres.

Introdução da matéria com Maria Lenk. Foto: Reprodução/Diário da Noite.

Entrevistou profissionais da área da Educação Física, médicos – inclusive Mario Trigo – e chegou a ser procurada por uma jovem de nome Evaci, para que ouvisse seu sentimento sobre a proibição do futebol para mulheres e seu desejo de jogar futebol. Reproduzo aqui, a entrevista publicada por Ivone.

Uma agradável surpresa nos estava reservada para a manhã de hoje, na redação. Aguardava nossa chegada uma vistosa moça, muito feminina, e de uma simpatia irradiante. Evaci dos Santos Fonseca era seu nome. Motivo por que nos procurava: queria jogar futebol. A morena Evaci é escriturária, joga bola nos fundos do quintal mas gostaria que chegasse o dia em pudesse, de fato, entrar em um campo e mostrar que o futebol pode muito bem ser praticado com sucesso pela mulher.

“— Tenho acompanhado e apoio inteiramente a luta encelada pelo DIÁRIO DA NOITE em prol dos direitos da mulher no campo esportivo. A mulher pratica todos os esportes, por que motivo pretendem eliminar o futebol de suas pretensões?” – Entusiasmada, empolgando os que a ouviam, prosseguiu Evaci:

“— Até então estava quieta, dentro dos meus argumentos, mas desde o dia em que li nas páginas deste jornal uma brilhante defesa do professor Aureliano Pinto, onde eram rebatidos, com fortes conhecimentos, as opiniões contrárias à prática do futebol pelo sexo feminino, resolvi colaborar com os que pretendem atingir o mesmo objetivo: a mulher no futebol”.

“— Você tem conhecimento de que estão os reacionários apelando inclusive para o sentido religioso a fim de que não possam as mulheres conquistas esse direito? – Perguntamos à jovem.

“— O caráter religioso que procuram empregar como impedimento não tem o mínimo fundamento. Seria preferível que essas pessoas invertessem seu ponto de vista. Que incentivassem a mulher para a prática do esporte, inclusive o futebol, invés de irem assisti-las e aplaudi-las em “streap-teases” e outras modalidades de espetáculos que realmente atentam contra a moral cristã de nosso povo. Isto sim deveria ser feito e nunca citar o futebol feminino como atentado ao sentimento cristão do brasileiro.”

Escriturária em uma companhia de transportes aéreos, a jovem Evaci olhava a todo momento seu pequeno relógio de pulso, preocupada com a hora. Queria porém, antes de se despedir, fazer um severo protesto àqueles que dizem não ser a mulher que pleiteia um lugar nos futuros quadros de futebol, suficientemente feminina.

“— É a maior bobagem que se pode argumentar. Sem nexo, sem fundamento. A moça que pratica esporte, pode, no máximo, deixar nos momentos das disputas, deixar de pensar em suas vaidades pessoais. Acabado porém este momento, ela voltará a ser tão feminina quanto se apresentava. E diga-se ainda, que há mulheres que nem no ardor dos jogos perdem a sua vaidade. Quantas vezes vemos jogadoras, durante uma partida de volibol, basquete, tênis e outros mais, pedirem um pente, um espelho, uma fita para se embelezarem. Protesto em meu próprio nome e nos das que não podem dizer pessoalmente a essas pessoas o quanto estão sendo injustas para com o sexo feminino.”.

A jovem Evaci em entrevista com Ivone. Foto: Reprodução/Diário da Noite.

Adentro a década de 1960 acreditando que Ivone já auferiu todos os pontos como militante absoluta da mulher nos esportes, quando me deparo com material publicado no Jornal dos Sports sobre a nova onda da talentosa e aguerrida figura feminina dos diários impressos: a pesca! Sim! Ivone foi representante do Pampo Clube em competição realizada pelo Jornal dos Sports, incentivada por Mario Filho. 

Em 1961, há registro de sua função como diretora de publicidade da F.M.B. – Federação Metropolitana de Basquete. Participou, em 1962, de campeonato de volei de praia organizado pelo Jornal dos Sports em parceria com Cervejas Caracu em um time misto.

Ivone para Revista dos Esportes. Foto: Reprodução.

Buscando mais informações sobre Ivone através da década de 1970, não encontrei referências satisfatórias e que confirmassem que se tratava da mesma pessoa.

De qualquer maneira, “descobrir” Ivone e poder acompanhar sua trajetória nos esportes tanto como atleta quanto jornalista, tem feito os dias de quarentenada mais felizes.

Reverenciar e visibilizar mulheres importantes e bravas lutadoras pelo direito da mulher ao esporte – em qualquer área – especialmente em períodos em que várias foram as tentativas de tolhimento à ocupação destes espaços, é revigorante e inspirador.

Ivone dos Santos
Ivone Santos
Anamaria
Yvonne Santos

Gosto de pensar que tantas grafias representem sua vontade de se multiplicar e de multiplicar os espaços a que sempre tivemos direito. E nada melhor do que uma mulher forte e inteligente pra impôr a presença.

 

Ativa. Atuante. Incansável! 
Procura-se Ivone desesperadamente, pois a ela devemos muito!

 

Como citar

CASTRO, Luciane de. Procura-se Ivone desesperadamente. Ludopédio, São Paulo, v. 133, n. 16, 2020.