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Procura-se a memória do futebol paulista

Plínio Labriola Negreiros

Ingressei no mestrado em História da PUC-SP no segundo semestre de 1986, em pleno euforia do Plano Cruzado. A estrutura do curso permitia o ingresso apenas com uma prova de conhecimentos e uma entrevista com um professor do Programa de Pós-Graduação, na qual o candidato era sabatinado sobre o que projetava pesquisar. Bem diferente dos dias que correm, não era necessário ter um projeto escrito. Nessa entrevista afirmei ao professor Holien Gonçalves Bezerra que o objeto das minhas pesquisas recairia sobre os intrincados processos de transformação ocorridos dentro da Igreja Católica no decorrer da Ditadura Militar. De forma muito fragmentada, é necessário esclarecer, pretendia compreender os caminhos oficiais católicos desde o Golpe de 1964 até a resistência ao regime autoritário. Revelo que eram poucas as minhas leituras sobre a questão e me guiava muito pelo senso comum. Enfim, era um projeto fadado a não se consubstanciar.

No primeiro semestre de 1987, voltei a me encontrar com o professor Holien. Fui cursar uma disciplina obrigatória que objetivava delimitar o projeto de pesquisa. Nesse instante, não pensava mais nas entranhas institucionais do catolicismo no Brasil. Em uma das aulas desse curso, o professor nos alertou: um trabalho de mestrado exige um mergulho em um determinado tema/assunto e seu respectivo recorte, e isso significava uma longa convivência, cotidiana e quase amorosa. Portanto, a escolha do tema necessitava de muitos cuidados. O tema precisava ser algo que se gostasse e muito. Nessa aula, ao refletir sobre o que gostava, veio à consciência, de imediato, um tema: o Sport Club Corinthians Paulista, dentro de um assunto mais amplo que era o futebol. Seguia fielmente o conselho do Holien. Ainda bem.

Trazia, nesse processo, outra clareza: não era possível tratar de toda a história do Corinthians Paulista. Qual recorte fazer? Como não existiam trabalhos acadêmicos sobre a história desse clube ou de qualquer outro clube, entendia que era lógico e essencial iniciar pelas suas origens, em 1910. Mas, analisar até qual época? Resolvi aproveitar um recorte presente na organização do futebol do Brasil: 1933, a profissionalização. Assim, a partir dessa opção, comecei a organizar um projeto de pesquisa sobre o Corinthians entre 1910 e 1933. É importante lembrar que no processo de escolha do assunto, futebol, contei com uma referência central: a do professor Elias Thomé Saliba. Ao falar do meu novo tema e convidá-lo para ser meu orientador, ele lembrou que tinha feito um projeto de pesquisa sobre o futebol, mas desistido da ideia. Naquele momento, o professor Elias ofereceu a legitimidade que a minha pesquisa necessitava e uma excelente orientação.

Em 1988, comecei outra disciplina: Núcleo de Pesquisa, com a professora Estefânia Knotz Canguçu Fraga, mais tarde, a minha orientadora de doutorado. Existia nesse curso a intenção da pesquisa sobre as fontes disponíveis acerca de cada tema escolhido e a produção de um projeto de pesquisa. Foi no decorrer dessa disciplina que eu, efetivamente, passei a pesquisar as fontes para o meu trabalho. A avaliação do curso era feita pelo projeto de pesquisa, a ser entregue no meio de agosto. Uma rápida digressão: no dia 31 de julho desse ano, fui a Campinas para a final do Campeonato Paulista e vi a vitória corinthiana contra o Guarani, com um gol do quase estreante Viola, na prorrogação. Essa grande alegria providenciou as energias que eu necessitava para enfrentar a tarefa acadêmica: redigir e datilografar as 28 páginas do projeto de pesquisa denominado A fundação do Sport Club Corinthians Paulista como fator da popularização do futebol paulista: 1910-1933. Ressalto: o projeto foi datilografado. Eram outros tempos.

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O tema da pesquisa de Plínio Negreiros foi o Corinthians e o futebol paulista. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

O trabalho de pesquisa não foi fácil e eu sabia que não seria. Mas, também, não achei que surgiriam tantos entraves. Tinha como referência um artigo, publicado na Folha de S. Paulo, em 1978, do professor Antonio Pedro Tota, com o sugestivo título: Procura-se a memória nacional. Com muito bom humor, esse historiador narrava o seu périplo para acessar os arquivos do DIP e do seu mais importante dirigente, Lourival Fontes. Narrou, de fato, o insucesso dessa empreitada. Assim, desde a fase inicial da pesquisa, deparei com dificuldades. Encontrei-as, ironicamente, em espaços que, teoricamente, deveriam propiciar o maior corpo documental para a pesquisa: o Corinthians e a Federação Paulista de Futebol. Nestas instituições não encontrei uma documentação significativa e verifiquei um certo descaso com o resgate do passado e com a preservação documental. Percebia uma incompreensão do que eu tentava fazer. No Corinthians, o acesso a tudo foi dificultado. Mesmo diante desses entraves, encontrei pessoas dispostas a ajudar, caso do assessor de imprensa do clube, o jornalista João Bosco Tureta. Ele me apresentou alguns caminhos dentro da instituição, o que me permitiu conseguir acesso as primeiras Atas de Assembleia do clube, sobre os anos de 1913 e 1917. Essas atas estavam meio perdidas e quando foram localizadas, precisavam da permissão do presidente Vicente Mateus para que eu pudesse ter acesso. Recordo o dia em que o João Bosco afirmou que aquele instante não era o mais indicado para pedir alguma coisa ao presidente, porque ele estava com o nariz vermelho. Isso significava que qualquer coisa que fosse pedida a ele, seria negada. Confiei no meu interlocutor. Isso adiou em algumas semanas o acesso às cobiçadas atas, mesmo porque surgiu outra dificuldade, pois eu não tinha permissão para reproduzir as atas. Outra pessoa também foi muito importante: o historiador do clube Antoninho de Almeida. Todas as vezes que fui ao clube, rendiam boas conversas.

Na Federação Paulista de Futebol, tudo foi mais difícil. Inclusive por uma infeliz coincidência. Na semana da minha ida à federação, a revista Placar fez uma matéria sobre fraudes na Loteria Esportiva, que tinham relação com a entidade do futebol de São Paulo. Minha visita, dessa forma, não trouxe ganhos importantes. Fui recebido com muita desconfiança. Não imaginaram um historiador, mas a presença de um jornalista investigativo. Deparei-me com uma biblioteca desfalcada de obras importantes. Não existiam documentos muito velhos. Informaram-me que nos anos 1960, o presidente Mendonça Falcão mandou os “papéis velhos” para alguma entidade médico-hospitalar, que os venderia como sucata. Da federação, felizmente, houve algo muito prazeroso: conheci Paulo Borges, jogador do Corinthians entre 1968 e 1973, autor de um dos gols na vitória contra o Santos em março de 1968, na partida que quebrou o tabu contra a equipe praiana. Ele era o responsável pela biblioteca.

Vale ressaltar, ainda, que a tarefa de pesquisar o Corinthians e o futebol tornou-se mais complicada em virtude de serem assuntos tidos como menores, que não mereceriam maiores preocupações históricas e/ou acadêmicas. Na época da pesquisa, mesmo entre os historiadores que defendiam a necessidade de uma disciplina histórica voltada para novos temas e abordagens, notei muita indiferença e resistência. Mas por que o futebol? Esta indagação, ainda que implícita, renovava-se constantemente. Futebol era um assunto menor. E se fosse tratado, era para tachá-lo com alienador.

Outro entrave que se apresentou foi praticamente a inexistência de informações acerca do histórico do Corinthians Paulista entre a data da sua fundação, 1º. de setembro de 1910, e o momento da sua entrada na Liga Paulista de Futebol, em março de 1913.

Dadas essas dificuldades, o trabalho se direcionou para fontes bastante dispersas e diversificadas. As fontes principais foram os periódicos da época trabalhada. Consultei O Estado de S. Paulo, Comércio de São Paulo, Correio Paulistano, Vida Moderna, O Pirralho, A Vida Esportiva e A Cigarra Esportiva. Com esse trabalho, percebi que o recorte cronológico precisava ser modificado. Entendi que a experiência corinthiana de entrada no futebol oficial representava um evento importante para a trajetória do clube, mas também do futebol de São Paulo e do Brasil. Dessa forma, em junho de 1992, defendi a dissertação Resistência e Rendição – A Gênese do Sport Club Corinthians Paulista e o futebol oficial em São Paulo – 1910-1916, disponível neste portal.  Encontrei, após um difícil percurso, algumas memórias e histórias do Corinthians e do futebol.