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Profissão zagueira: uma trajetória não só defensiva

Mateus Alexandre Silva, Yves Vieira Menezes

O Brasil possui duas divisões do campeonato nacional de Futebol Feminino, e cada vez mais os times já consagrados no futebol masculino estão criando equipes femininas, seja pelo reconhecimento da modalidade, seja pela obrigatoriedade imposta pela Confederação. Para jogar futebol, é necessário mais que querer jogar. Entender um pouco mais sobre essa realidade, a qual essa modalidade se encontra, entrevistamos a jogadora Bárbara Machado (Paçoca), zagueira de 24 anos do Clube Atlético Mineiro, que não é uma representante fiel da trajetória de todas as jogadoras de futebol, porém, é dona de uma história incrível que a qualifica para estar onde está hoje e representa a sua partícula do todo que o esporte proporciona. Nascida na cidade de Belo Horizonte, Bárbara revelou-se uma amante do futebol desde muito nova. Na companhia de algumas amigas, já disputava o espaço na rua para jogar com os meninos, mesmo não sendo bem-vindas por eles. Desta negativa, perceberam que não precisavam do aval dos garotos para jogar e logo se organizaram. A jogadora relata: “A gente gostava de jogar bola, então a gente ia jogando, só que à medida que os meninos não deixavam a gente brincar com eles, a gente já tinha um número de meninas suficiente para fazer um timinho, então a gente já fazia um time só nosso mesmo, porque a gente não precisava deles para ter um time”. Dessa experiência, o gosto pelo jogar só aumentou e mesmo mudando de bairro, ela seguiu envolvida com o futebol. Aos 13 anos, morando em frente a um campo, relata que essa proximidade proporcionou o que ela chamou, até nessa época, de período “mais firme” do seu envolvimento com o futebol, era só não ter nada para fazer que logo ia jogar. A experiência diária com o futebol a levou a fazer um teste em um clube de futebol amador do bairro em que ela morava. No entanto, não era só passar, faltava o aval da mãe, que de pronto não permitiu. Restou continuar jogando as peladas no campo.

Paçoca matando bola. Foto: Instagram pessoal (@pacoca.95).

Passados alguns meses da negativa materna de ingresso no time que fora aprovada, voltando para o bairro antigo, a proibição chegou às brincadeiras na rua deixando a aspirante a jogadora desapontada com a situação: “Nunca mais eu vou brincar disso, é muito difícil, todo mundo não deixa, que ódio, que raiva. Também não vou fazer nada para minha mãe, ela fica me pirraçando, vou fazer o que eu quero, mas não vou jogar bola”. Essa separação com o futebol era remediada pelos jogos na aula de educação física da escola, assim persistindo até os seus 18 anos. A vivência na escola não só manteve viva a paixão pelo futebol, mas também serviu como atalho para um convite para jogar em um time de futsal. Ainda com as marcas da negativa, do alto da sua maioridade, então ela professa a seguinte frase para a mãe: “Olha, eu tenho 18 anos agora, eu mando em mim, eu vou voltar a jogar bola!”. Antes que sentisse o gosto da liberdade de poder jogar seu futebol sem barreiras, a mãe lhe rebate: “Tá bom, então tem que fazer exame de coração todo ano”. Se dedicando ao futsal, jogando em até três times constantemente, fazendo os exames que a mãe lhe pediu, no meio de todo esse processo, a zagueira conhece Carol, parceira nas quadras por um bom tempo, até que descobre que ela e algumas outras meninas jogavam em um time de futebol feminino amador, o Prointer. Na primeira experiência com o time, foi ao campo assistir um jogo e tirou as primeiras conclusões: “Aí eu fui ver um jogo delas uma vez, fiquei até meio amedrontada, que as meninas eram muito nervosas na época, umas meninas grandonas, dava um ‘medão’”. Algum tempo depois, já fora do futsal, Bárbara pede ajuda para a amiga para entrar no Prointer. Quando chega ao time, as jogadoras que estavam no time principal eram em sua maioria as amigas do tempo do futsal e a adaptação não foi difícil. As experiências anteriores com algumas atletas do time facilitaram o processo de adaptação, que ela descreve assim:

“Chegando, no meu primeiro dia, já assim, a gente sempre que entra em um time, a gente tem que chegar com pé atrás né, calminha, sem fazer gracinha, aí cheguei, já vi de cara uma amiga minha de muito tempo, e já tinha Carol também, que era capitã do time, que também conhecia essa amiga e acabou que eu não cheguei quietinha, eu já cheguei fazendo bagunça, né?! Normal, já cheguei atropelando todo mundo e falando ‘e aí gente, tudo bem? sou eu, tudo bom? tá joia?’”.

Sendo bem recebida pela equipe, ela conta que algumas semanas antes, também chegou Sidney, seu atual técnico, e que nas poucas semanas já havia implantado um trabalho diferenciado no time. Assim, ela começou a experimentar o que era o mundo do futebol feminino, vivendo além do limite que os times de futsal proporcionavam. Tomar nota do número de meninas envolvidas no esporte fez surgir questionamentos sobre a dimensão do jogo, sobre a falta de conhecimento que ela descobriu ter em relação à modalidade e como era possível muita gente não conhecer um movimento que envolvia tantas meninas. Junto com desenvoltura social, Bárbara experienciou o peso do jogo nos campos. A transição da quadra para o campo foi considerada um processo pesado, novas dimensões espaciais, exigência de preparo físico apurado, tempo maior de jogo, tudo superado com aproximadamente um ano. Esse processo de adaptação foi suavizado pelas experiências nos campeonatos, cada um que passava a paixão crescia. A zagueira lembra este período como não só um momento de adaptação, mas também como outro processo de transição paralelo: “A gente foi em um campeonato, outro, e outro, e aí foi aquele negócio gostoso, e aí chegou o momento que só disputar não estava suficiente para mim”. Ao sentir que poderia dar mais do que o suor dentro de campo, ela quis fazer parte também da comissão da equipe. Antenada no que circula nas redes, a jogadora entendeu que mais pessoas poderiam ver e conhecer o que acontecia no Prointer, “se o negócio não é visto, como a gente faz para ser visto? Aí, como rede social ‘bomba’, então vamos fazer a rede social. E aí a gente começou a ser vista, foi uma visibilidade muito boa, que nos ajudou”. Dessa visibilidade, muitos frutos foram colhidos. O time que às vezes disputava competições para ganhar material esportivo na premiação passou a receber contato de apoiadores, ou de “supostos apoiadores”, em sua maioria era gente que estava disposta a contribuir com o projeto que tomaram conhecimento. As redes sociais colocaram o Prointer em outro patamar e acabaram inspirando outros times amadores a se aventurarem nesse espaço.

Paçoca ao lado do Galo, mascote do Atlético Mineiro. Foto: Instagram pessoal (@pacoca.95).

O aparecimento de apoiadores nem sempre foi suficiente para garantir o Prointer em todas as competições que gostariam de participar. Ao tentarem participar do Campeonato Mineiro, a falta de recursos financeiros acabou impedindo que disputassem a competição, gerando uma enorme frustração no grupo. Nesse período de frustração, o Atlético Mineiro apareceu e ofereceu uma parceria com a equipe. A jogadora conta que

“foi tudo muito, muito bonito, muito grande. O pessoal abraçou de verdade todo mundo, levou todas as meninas, levou as meninas que estavam lesionadas também, que iam fazer cirurgia ainda, levou todo mundo. Tá fazendo a cirurgia das meninas, é claro que assim, o Professor avaliou as meninas que iam né, então ele pegou as meninas frequentes no time, todo processo, assim, ele pegou todo mundo mesmo e levou umas 4 de outros times, que ele já conhecia, e que ele achou que iriam agregar também”.

Nesse novo estágio, Paçoca se tornou uma jogadora profissional, teve que abandonar o emprego para se dedicar ao que ela chama de “realização”. Mesmo conhecendo a sua luta e entrega ao futebol, ela dá créditos não só ao seu empenho, mas também ao fato de ter encontrado as pessoas certas na hora certa. Ela admite que tudo que está acontecendo é um passo que estava além do que ela imaginava quando começou a jogar bola na infância. As experiências no futebol profissional trouxeram novos desafios e uma nova adaptação está acontecendo. A demanda física é intensa, porém, ela se diz recompensada com o aprendizado que tem acumulado dentro de campo. Se antes a falta de dinheiro para inscrição em campeonato era uma barreira, agora, um dos principais desafios é defender as cores de um clube centenário em um campeonato nacional, onde alguns clubes que participam estão há mais tempo nessa rotina. Já calejada com os desafios superados até aqui, e complementados com o apoio incondicional da mãe, que de alguns anos para cá passou a ser uma incentivadora e o porto seguro da jogadora, a faz entender que esse momento de adaptação é fundamental e que a melhora é perceptível a cada dia. O compromisso com o futebol profissional trouxe outras responsabilidades de tempo e de atitude para a zagueira. A dedicação com os treinos compete com a possibilidade de acompanhar o Prointer e alimentar as redes sociais que ela ainda administra, os cuidados com a dieta e com a recuperação física devem ser seguidos à risca, o que lhe tolhe algumas vontades comuns em muitos jovens como ela. Cumprir o papel somente de jogadora, também está sendo um aprendizado para ela, pois, quando jogadora do Prointer, ela tinha autonomia para encaminhar candidatas ao time, assim como um dia foi encaminhada pela amiga Carol. Hoje jogando no Atlético, a situação é um pouco diferente,

“é muito difícil, porque, igual, por exemplo, antes no Prointer, eu tinha facilidade de falar: olha, se você quer jogar, vem filha, vamos embora. Vem cá, fala seu nome e vai lá no treino. Só que agora eu não faço parte mais nada, eu sou só atleta, tem muita gente também que está tendo essa dificuldade de entender isso, acha que a gente tem poder de influenciar e, tipo assim, ‘é só falar com a minha amiga que entra lá’”.

Paçoca no treino do Atlético Mineiro. Foto: Instagram pessoal (@pacoca.95).

Outra novidade é a visibilidade que o futebol profissional trouxe, ela relata que ser reconhecida e chamada pelo nome/apelido por pessoas que ela não sabe quem são, é algo diferente de tudo o que ela já viveu que às vezes se sente envergonhada quando é abordada por torcedores. Essa visibilidade tem trazido situações que ela se diz marcada de maneira diferente. Das situações que ficaram marcadas na primeira experiência dela como atleta profissional jogando no Mineirão, duas foram citadas por ela:

“Assim, a gente vê umas meninas, como o dia que a gente chegou lá no Mineirão, a gente desceu do ônibus, aí veio um tanto, uma ‘renca’ de meninas. Elas estavam, tipo assim, numa faixa e eles não estavam deixando elas passarem, aí liberaram. Veio uma ‘renca’ de meninas correndo atrás da gente, e uma menina tropeçou, caiu, as meninas meio que passaram por cima dela, deixou ela para trás e elas vieram correndo e gritando, ‘Olha o time do galo’, e eu pensei: meu Deus do céu, o que tá acontecendo?”.

No outro depoimento, a gratidão ficou estampada:

“Eu acho isso muito lindo, porque uma amiga minha falou assim: Paçoca, eu tava lá na arquibancada e eu vi mais de uma menina falando ‘oh pai, eu quero meu cabelo igual daquela menina que entrou’. Isso foi na hora que eu entrei. Eu acho isso muito bonito, porque, tipo assim, por um lado quem sou eu para ser referência para alguém? A gente, todo mundo erra, mas, eu acho legal e a gente poder estar compartilhando isso, compartilhar o sonho que está sendo realizado, que muitas pessoas lutaram por ele, estão vendo hoje a realização na gente e vê que a gente é a porta para as meninas que estão vindo agora, sabe?! Eu acho muito bonitinho, porque fica mais fácil. Na época que eu era pequena, não ficava andando assim [seguindo time de futebol]. Se eu ficasse andando assim, eu era “Maria homem”, entendeu? E não tinhas essas coisas assim: ‘Nossa, ela joga bola! Só ficava sendo zoada na minha época. Hoje em dia não, você vê uma menininha assim e pensa: ‘Ah, ela deve jogar bola, bota ela em uma escolinha. As portas estão muito mais abertas né?! E eu acho isso legal, porque todo mundo tem participação nisso né?! Por mais que as meninas não vejam isso, todo mundo tem participação. Começou assim, você foi a primeira no time masculino lá do seu bairro e isso vai incentivando as pessoas assim: ‘Ah, tem menina também, então vamos enxergar”.

Paçoca em jogo do Atlético Mineiro. Foto: Instagram pessoal (@pacoca.95).

Ali ela conseguiu se reconhecer como motivadora e, além disso, uma privilegiada por estar participando da evolução que a modalidade está passando. Toda essa repercussão gerada por ser jogadora de um clube de expressão é condicionada pelas exigências para estar nesse time. Segundo a jogadora, o clube de fato se preparou para receber uma equipe feminina, ao montar um departamento que as enxergassem como mulheres jogadoras, suas condições e suas demandas biológicas que são diferentes das dos homens. Essa compreensão por parte da equipe é o processo que mais encanta a atleta na organização de uma equipe profissional. Para o futuro, caso siga no meio do futebol, ela projeta atuar nessa área. O que é compreensível para alguém que nunca se contentou só em jogar futebol!