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Prontos para jogar

Marco Sirangelo

No dia 26 de outubro, teve início a 18ª edição do Mundial Sub-17. Oficializada pela FIFA em 1985, a competição é realizada sempre a cada dois anos e, pela primeira vez, acontece no Brasil. Com exceção do caso Reinier, quando o Flamengo se recusou a liberar o atleta para a competição devido, principalmente, à sua relevância no elenco profissional, pouco se fala sobre o torneio.

Originalmente escolhido como país sede, o Peru retirou sua candidatura em fevereiro de 2019 por não conseguir se adequar aos requisitos de organização exigidos, restando à FIFA recorrer emergencialmente ao Brasil – uma boa solução graças às recentes experiências do país como sede de torneios como a Copa América de 2019, as Olimpíadas de 2016 e a Copa do Mundo de 2014.

A escolha das cidades-sede do torneio é bastante curiosa. Apenas Goiânia, Gama e Cariacica receberão todos os 52 jogos, divididos em somente quatro estádios, sendo o principal deles o Bezerrão. O estádio do Gama (DF), com capacidade para 20.000 espectadores, será palco da final, das semifinais e de outros 15 jogos. Renovado em 2014 (com destaque às arquibancadas à lá Mondrian) e com capacidade para 21 mil pessoas, o Estádio Kléber Andrade, em Cariacica (ES), receberá 16 jogos, enquanto o Estádio Olímpico de Goiânia, cuja capacidade é de 13.500 torcedores receberá 10 jogos. Fecha a lista recebendo 8 jogos o Estádio da Serrinha, utilizado pelo Goiás em jogos menores, mas com planos de expansão futura e atualmente com capacidade para 9.900 pessoas.

O Estádio Walmir Campelo Bezerra, conhecido por Bezerrão, será palco da final da Copa do Mundo FIFA Sub-17 de 2019. Foto: Wikipedia.

Por mais que a escolha pelo Brasil tenha sido feita em cima da hora, chama atenção a baixa capacidade dos estádios selecionados. Mesmo que não seja um torneio de primeira linha, a última edição do Mundial Sub-17 se provou um sucesso comercial. Realizada na Índia, a competição bateu recordes de público, levando mais de 60 mil pessoas em ocasiões como os jogos do Brasil contra Alemanha e Inglaterra, além da final entre ingleses e espanhóis. Jogos como Iraque e México, Japão e Nova Caledônia, todos da anfitriã Índia e da campeã Inglaterra tiveram públicos próximos a 50 mil espectadores.

O tigre era o mascote da edição anterior da Copa do Mundo da FIFA Sub-17, cuja sede foi a Índia. Foto: Wikipedia.

Longe de centros e estádios um pouco mais tradicionais, a competição parece estar no Brasil apenas de maneira protocolar, sem que procure ser notada. Prova disso é que os ingressos somente começaram a ser vendidos no dia 21 de outubro, cinco dias antes da rodada de abertura. Parece pouco provável, portanto, que a FIFA repita o sucesso de público da última edição, e também perde-se uma boa possibilidade de realizar um evento mais interessante e apelativo ao público brasileiro. Resta saber, também, se os gramados aguentarão a maratona de jogos e seguirão em boas condições até o final do torneio, em 17 de novembro.

Não há dúvidas, no entanto, quanto à presença maciça de olheiros e agentes durante os jogos. Clichê número 1 quando o assunto é competições de base, é fato que esse tipo de torneio conta com jogadores que irão despontar nos anos seguintes. São os casos de craques históricos como Ronaldinho, Buffon e Totti, por exemplo. Mais recentemente, Neymar, Kroos, Sterling e Golovin foram estrelas de seus times sub-17.

As duas últimas edições foram proveitosas para os atletas que se destacaram, e é interessante notar uma modificação no cenário de transferências tradicionais. A distância financeira entre os grandes clubes europeus para os menores, seja de dentro da Europa ou de outros continentes, segue aumentando, mas mesmos os menos endinheirados conseguem estruturar complexas redes de observação e captação de talentos. Desta forma, clubes menores como Lille, Dínamo de Zagreb e os geridos pela Red Bull na Áustria e na Alemanha, apostam em uma boa estratégia para atraírem jovens promessas – darem tempo de jogo, algo que os grandes clubes pouco conseguem oferecer aos seus prodígios.

Estrelas do último Mundial Sub-17 e presentes em listas de futuros craques, os ingleses Phil Foden e Rhian Brewster e o alemão Jann-Fiete Arp, todos com 19 anos atualmente, encontram dificuldade para jogarem frequentemente por seus clubes, os poderosos Manchester City, Liverpool e Bayern de Munique, respectivamente. Caminhos diferentes foram feitos por alguns dos destaques do Mundial Sub-17 de 2015, como Dayot Upamecano, Victor Osimhen, Amadou Haidara, Nikola Moro e Johannes Eggestein, que jogam constantemente por clubes menores, mas já são especulados para grandes transferências.

Phil Foden, que ganhou a Bola de Ouro do último Mundial Sub-17, é jogador do Manchester City. Foto: Wikipedia.

Segundo maior vencedor do torneio, atrás da pentacampeã Nigéria, o Brasil será comandado por Guilherme Dalla Déa e busca o tetra jogando em casa. É interessante notar que o atual elenco sub-17 é formado apenas por atletas que ainda atuam no país, raridade quando o assunto é a seleção brasileira. O time possui quatro jogadores do Palmeiras, três do Flamengo, dois de Corinthians, São Paulo, Grêmio e Santos e um de Athlético, Internacional, Coritiba, Fluminense, Atlético-MG e Vasco.

De todos os atletas, apenas o vascaíno Talles Magno e o desconvocado Reinier conseguem mais espaço nos profissionais, e não por acaso atuam com bastante destaque. Vale ressaltar que os dois jogadores aproveitaram algumas oportunidades que surgiram por conta de necessidades dos elencos de seus clubes, mas rapidamente se tornaram ótimas opções, gerando empatia por parte dos torcedores e frequentemente citados pela imprensa.

É fato que um atleta de 17 anos está longe de atingir seu máximo potencial e é justificável a cautela que muitos clubes adotam ao lançarem suas revelações. Porém, também é necessário iniciar o processo de profissionalização de jovens talentos no Brasil antes que os clubes europeus os identifiquem, como é cada vez mais comum. E a concorrência está aumentando, uma vez que não somente há o apelo que uma grande camisa europeia causa no jovem brasileiro, como também a promessa de mais tempo de jogo dada pelos clubes menores.