23.6

Publicidade, futebol e aberrações

Carmelo D. Silva

Lembro de uma piada que um ex-professor, nos idos da graduação em Economia, na UFF, contava. Dizia ele que um torcedor tinha ido ao estádio assistir a uma partida de futebol, mas, sem estar muito familiarizado com certas picuinhas (como patrocínios em camisas), não havia entendido direito. Ao retornar ao lar, perguntado como tinha sido o jogo, ele responde:

– Foi um jogo e tanto. Torci muito pelo time verde, mas deu empate.

– E que times estavam jogando?

– Doril X Lubrax…

Bons tempos, prof. Silvando (era esse mesmo o nome dele. Dava aula com “O Capital” –versão original, autografada – em mãos, traduzindo direto do alemão arcaico).

Falei disso só pra mostrar o quão errante tem sido essa saga publicitária relacionada aos esportes de maneira geral e ao futebol em particular. Ainda me assombra ver coisas como as recentes camisas do Corinthians, ou , voltando um pouco no tempo, aquela camisa da seleção canarinho com o logotipo da coca-cola, em 1987…

Entendo perfeitamente que, no atual cenário, o purismo de antigamente já não cabe mais, que os supervalorizados profissionais-atletas (consequentemente os clubes), não conseguiriam se manter apenas com a renda das bilheterias (cada vez menores, mesmo com ingressos cada vez mais caros…), porém algumas práticas são muito difíceis de se digerir. A que mais salta aos olhos, no futebol brasileiro é o caso (ou case, como gosta o pessoal do marketing, e dá-lhe colonialismo cultural) do banco mineiro BMG. A tal instituição financeiro-filantrópica (ta dando dinheiro até pros velhinhos do INSS! Só chegar lá e pegar!) patrocina coisas tão inconcebíveis como dois clubes se enfrentando. Os dois exibindo “BMG” em suas camisas! Quando presenciei tal desatino pela primeira vez perguntei: Será que só eu vejo que o Rei está nu?!?

Estranhamente, o BMG, em sua página oficial, cita apenas 5 times profissionais e um feminino:

“Futebol: O BMG é patrocinador master dos clubes Coritiba, Atlético Goianiense, América-MG, Ipatinga e Tupi FC. E patrocinador da equipe feminina de futebol do Santos.”

É por isso que ADORO a (academicamente – injustamente – contestada) Wikipédia. Busquei a informação lá e pronto. Completa, mil vezes melhor que a “oficial”:

O Banco BMG patrocina diversas entidades esportivas. O Banco BMG e o Vasco firmaram contrato de patrocínio até o término do Campeonato Estadual do estado do Rio de Janeiro de 2011, no valor de 1,5 milhão de reais. Atualmente são patrocinados pela empresa o Esporte Clube Pelotas, Brasil de Pelotas, Vasco, Flamengo, Atlético-MG, Cruzeiro, América-MG, Bahia, Uberaba, Coritiba, Atlético Goianiense, Itumbiara, Santa Cruz, São Paulo, Sport Recife, Rio Branco Atlético Clube, Botafogo-SP, Santos FC, São Bernardo FC, Campinense Clube e Treze Futebol Clube, além das equipes da Superliga de vôlei masculino BMG-Vivo/Minas, BMG/Montes Claros, BMG/São Bernardo e de vôlei feminino BMG/Mackenzie e BMG/São Bernardo. O Banco é administrado pelo empresário mineiro Ricardo Guimarães.

Percebam o desatino: A entidade filantrópica “dá dinheiro” para coisas tão opostas quanto Brasil e Pelotas (rivais na cidade), Vasco e Flamengo, Galo e Raposa e Coelho em MG…Vou parar, porque acho que já me fiz compreender. Como a CBF permite uma coisa dessas? Aqui um textinho sobre o pretenso “Banco do futebol”… a propósito… você sabe o que significa BMG? Não? Nem eu sabia! Acho que nem os jogadores que vestem a camisa do banco sabem! Felizmente achei no “dicionário de siglas”: Banco de Minas Gerais.

Obviamente, procurei por mais informações, junto à organização que comanda o futebol aqui em Pindorama. Na página oficial da CBF não encontrei nada a respeito o único artigo que fala em publicidade diz textualmente: “Art. 28 – Os clubes deverão usar os uniformes previstos em seus estatutos, observado o disposto na legislação quanto ao uso de publicidade”… Pensei em ir na rua da Alfândega, digo, Barra da Tijuca (esqueci que a CBF agora é emergente também)… mas desisti. E olha que não fui único a estranhar essa ausência regulamentar… esse cara aqui também não achou nada.

Alguns argumentam que “não há regras”, mas isso não é verdade. Se fosse, veríamos o que acontece na Europa, como bancas de jogos de azar (bwin, sportingbet, etc) patrocinando clubes. Isso ainda não acontece por aqui, felizmente. A legislação brasileira baniu, há alguns anos, os comerciantes de bebidas alcoólicas da publicidade esportiva. Por isso não vemos aqui o que acontece em outros países, com times de futebol exibindo marcas de cerveja, por exemplo.

O CONAR diz textualmente:

3. Princípio do consumo com responsabilidade social: a publicidade não deverá induzir, de qualquer forma, ao consumo exagerado ou irresponsável. Assim, diante deste princípio, nos anúncios de bebidas alcoólicas:

j. não se associará o consumo do produto ao desempenho de qualquer atividade profissional.

l. não se utilizará uniforme de esporte olímpico como suporte à divulgação da marca.

Engraçado que as cervejarias cansam de patrocinar as transmissões de eventos esportivos: está assistindo ao jogo e, de repente, entra uma “Skol” ou “Brahma”… de leve na sua tela. O CONAR e o governo não vêem isso, né? Pois é… fazer Lei Seca eles sabem!

Já que falei em CONAR e jogos de azar (rimou!), recentemente uma banca de jogos (Sportingbet) teve a veiculação de sua publicidade proibida pelo órgão. Recorreu aos tribunais brasileiros, mas de nada adiantou (veja notícia).

Voltando aos clubes de futebol e suas camisas: a maior torcida do Brasil comemorou, em 2011, a oportunidade de, pela primeira vez desde 1978, comprar uma camisa oficial de seu clube sem a “mácula” publicitária (ou quase, já que o BMG continua lá, nas mangas, intocável). Isso é raríssimo. O último estandarte a sucumbir foi o Barcelona, da Espanha. O clube catalão diz sobreviver das contribuições dos sócios, mas, desde 2006, talvez pra que os torcedores se acostumem com a idéia de letras poluindo o uniforme, vêm estampando a marca do “Fundo das Nações Unidas para a Infância e Adolescência – UNICEF”. O caso é ainda mais estranho, se considerarmos que, além de não receber nada da ONU, o clube ainda paga 1,5 milhões de Euros anuais para ajudar as criancinhas pobres.

Para finalizar, que já falei demais, uma gracinha que achei nos blogs da vida:

“Oi, quero anunciar na camisa do Corinthians:

“Vendo Opala 87, seminovo, primeiro dono”

Tudo é possível, caro torcedor.

 

Como citar

SILVA, Carmelo D.. Publicidade, futebol e aberrações. Ludopédio, São Paulo, v. 23, n. 6, 2011.