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Quais clubes serão “protagonistas” no futebol brasileiro após a crise atual?

Marcelo Weishaupt Proni

O protagonismo no futebol brasileiro tem sido atribuído aos clubes com maior torcida e maior poder econômico, aqueles que são candidatos a vencer os principais torneios nacionais. Mas, não há consenso sobre quais clubes podem ser considerados “protagonistas”, de fato, atualmente. Jornalistas e comentaristas esportivos que se manifestam sobre o tema defendem diferentes pontos de vista. Para uns, os “protagonistas” continuam sendo os “12 grandes” (quatro de São Paulo, quatro do Rio de Janeiro, dois de Belo Horizonte e dois de Porto Alegre). Para outros, o número dos que merecem essa denominação vem se ampliando. E há aqueles que, ao contrário, apontam a diminuição desse conjunto nos últimos anos.

O combate ao coronavírus e a recessão econômica no País estão abalando todos os clubes da elite nacional, mas alguns estão em situação mais vulnerável do que outros. A crise financeira desses clubes poderá diminuir o número daqueles em condições de desempenhar o papel de protagonista em 2020 e nos próximos anos. Mas, antes de colocar em discussão os prováveis efeitos da interrupção dos torneios e da alteração do calendário, convém apresentar uma breve perspectiva histórica sobre esse assunto.

Taça do Campeonato Brasileiro Série A. Foto: Lucas Figueiredo/CBF.

Muita coisa mudou no futebol brasileiro, nas últimas duas décadas. A própria forma como a mídia esportiva analisa o futebol também se modificou. Até o final dos anos 1990, os formadores de opinião se baseavam em dois critérios para identificar os clubes “protagonistas”: a) tradição no respectivo torneio (haviam conquistado títulos e escrito uma história de rivalidade nos “clássicos”); e b) capacidade de montar times competitivos, que geralmente contavam com ídolos e jogadores talentosos (craques cotados para defender a seleção nacional).

Em 2000, o Clube dos 13 possuía 20 membros, mas só os fundadores (Atlético-MG, Botafogo, Corinthians, Cruzeiro, Flamengo, Fluminense, Grêmio, Internacional, Palmeiras, Santos, São Paulo e Vasco da Gama – exceto o Bahia) eram vistos pela imprensa esportiva como “protagonistas” do Campeonato Brasileiro. Outros clubes que participavam da elite nacional (Atlético Paranaense, Coritiba, Guarani, Goiás, Portuguesa, Sport e Vitória) eram vistos como “coadjuvantes”.

Com o desenvolvimento do “futebol-empresa” aumentaram as receitas com patrocínios e com direitos de transmissão, o que provocou um aumento progressivo na desigualdade financeira entre os clubes da elite nacional. Desde que o Campeonato Brasileiro passou a ser disputado por pontos corridos, em 2003, apenas clubes com alto poder de investimento conquistaram o título de campeão nacional. O mesmo se verificou na Copa do Brasil a partir de 2013, quando os clubes que disputam a Copa Libertadores da América voltaram a ser incluídos no torneio.

Importante enfatizar que a transmissão de jogos pela televisão, além de priorizar os “protagonistas”, deu maior visibilidade para alguns times mais populares. Ao longo das últimas duas décadas, a prioridade na transmissão pela TV aberta para jogos desses times (em especial, o Flamengo e o Corinthians) acabou reforçando a concentração de torcedores (e de fãs) em poucos clubes. Algo similar ocorreu nos canais de TV por assinatura. Até a distribuição do tempo dedicado a cada time nos programas esportivos diários da televisão e do rádio passou a ser pautada no tamanho estimado das torcidas (isto é, do público potencial).

No novo contexto, a estratégia de marketing se tornou determinante para qualificar um clube como “protagonista”, à medida que a imprensa esportiva começou a enaltecer a geração de receitas como essencial para aumentar a chance de disputar títulos em torneios da Conmebol (a Copa Libertadores da América ganhou enorme importância). Os grandes clubes da elite nacional passaram a ter patrocínios que possibilitavam contratar jogadores de seleções estrangeiras (por exemplo, Tévez contratado pelo Corinthians em 2005 e D’Alessandro pelo Internacional em 2008). Em meio à crise econômica que abalou o futebol europeu, na temporada 2008-2009, alguns clubes conseguiram inclusive repatriar ídolos da seleção nacional (casos de Ronaldo no Corinthians, Adriano no Flamengo e Fred no Fluminense). E alguns clubes conseguiram postergar a venda de seus jovens talentos (caso de Neymar no Santos).

Depois da desativação do Clube dos 13, em 2011, a desigualdade financeira entre os clubes de futebol pertencentes à elite nacional se ampliou, aumentando a distância entre “protagonistas” e “coadjuvantes”. Aumentou inclusive a distância orçamentária entre os clubes mais populares (que obtêm maiores receitas com direitos de transmissão e patrocínios) e os demais clubes “grandes” (que recebem menos da TV e não conseguem equiparar as receitas de patrocínios porque têm menor visibilidade na mídia). Tais desigualdades no poder de gasto não só agravaram o desequilíbrio no nível de competitividade dos clubes que disputam a Série A do Campeonato Brasileiro, como colocaram em questão o protagonismo de alguns clubes tradicionais.

Note-se que a Portuguesa de Desportos deixou de frequentar a elite nacional após o rebaixamento traumático no Campeonato Brasileiro de 2013, que resultou em perda de receitas e aumento das dívidas, causando novos rebaixamentos. Por outro lado, o Athletico Paranaense foi o único que deixou de ser coadjuvante e assumiu novo status após elevar suas receitas e conquistar a Copa Sul-Americana em 2018 e a Copa do Brasil em 2019.

No início de 2020, os clubes considerados “protagonistas” no Campeonato Brasileiro e na Copa do Brasil por muitos comunicadores influentes eram aqueles que disputariam a Copa Libertadores da América. Eram oito: Flamengo, Santos, Palmeiras, Grêmio, Athletico Paranaense, São Paulo, Internacional e Corinthians (eliminado na fase preliminar). Além destes, havia um grupo de cinco clubes “grandes” que apareciam em segundo plano: Atlético-MG, Vasco da Gama, Botafogo, Fluminense e Bahia. O Atlético-MG anunciou em março um projeto para voltar a ser protagonista no Campeonato Brasileiro deste ano, depois de ter sido desclassificado na Copa do Brasil, mas é improvável que os demais disputem o título. Por outro lado, o rebaixamento do Cruzeiro em 2019 fez o clube ser excluído momentaneamente do grupo de elite.

Quadro 1. Projeção da receita bruta e valor de mercado do elenco de clubes de futebol – 2020.

Clubes da elite nacional

(Série A do Campeonato Brasileiro)

Faturamento anual previsto

(R$ milhões)

Valor de mercado do elenco

(Euros milhões)

01.  Flamengo-RJ

726

144,3

02.  Palmeiras-SP

600

94,9

03.  São Paulo-SP

517

86,8

04.  Corinthians-SP

427

80,8

05.  Internacional-RS

397

54,1

06.  Grêmio-RS

341

110,6

07.  Vasco da Gama-RJ

324

31,7

08.  Atlético-MG

309

44,5

09.  Santos-SP

249

68,0

10.  Botafogo-RJ

229

20,2

11.  Fluminense-RJ

212

33,7

12.  Athletico-PR

209

26,7

13.  Red Bull Bragantino-SP

200

18,8

14.  Bahia-BA

179

28,0

15.  Fortaleza-CE

109

17,1

16.  Coritiba-PR

102

17,4

17.  Ceará-CE

100

19,6

18.  Goiás-GO

80

20,8

19.  Sport-PE

78

14,6

20.  Atlético-GO

40

7,8

O Quadro 1 apresenta a projeção da receita bruta anual para 2020 divulgada previamente pelos 20 clubes qualificados para disputar a Série A do Campeonato Brasileiro (em alguns casos, muito otimista, mesmo antes da crise econômica) e o valor de mercado do elenco desses clubes (estimativa feita em janeiro pela Transfermarket). Em geral, os clubes com maior capacidade de faturamento são aqueles com os elencos mais valiosos. Por exemplo, o Flamengo projetou uma receita para este ano mais de três vezes maior do que as projeções do Fluminense e do Botafogo; e o valor de mercado estimado do elenco rubro-negro é mais de quatro vezes maior do que o do tricolor e mais de sete vezes maior do que o do alvinegro. Já o Palmeiras projetou uma receita seis vezes maior do que a do Coritiba e do Ceará; e o valor de mercado estimado para o elenco alviverde era mais de cinco vezes maior do que a do elenco desses coadjuvantes.

Vários analistas consideram que o Flamengo e o Palmeiras estão num patamar acima de seus concorrentes diretos. Sem dúvida, o Palmeiras deu um salto após a assinatura do contrato de patrocínio com a Crefisa, em 2015. Mas, o que mais chama a atenção é a valorização da marca Flamengo, que superou o Corinthians em 2015 como o clube mais valioso do país. Em 2020, a estratégia de marketing do Flamengo se tornou mais ousada: está negociando com a Amazon um contrato de patrocínio máster e pretende se consolidar como uma marca internacional. Em adição, frise-se, Flamengo e Palmeiras, por serem os dois clubes com maior “geração de caixa” (isto é, aqueles cujas receitas operacionais excedem o necessário para cobrir os gastos com a folha salarial e outras despesas correntes), podem endurecer a negociação com a Rede Globo pela cessão dos direitos de transmissão.

Jogadores do Flamengo erguem taça do Campeonato Brasileiro 2019. Foto: Marcos de Paula/ALLSPORTS.

Ao mesmo tempo, alguns clubes “grandes” deixaram de ser tratados como “protagonistas”, em boa medida, porque não estão conseguindo equacionar suas dívidas, nem atrair investidores de peso. No caso do Botafogo, que tinha a maior dívida total entre os clubes brasileiros em 2019 (estimada em R$ 760 milhões), a solução pretendida é a migração para o modelo de “clube-empresa” (criação de uma sociedade anônima). O clube aguarda a aprovação da nova legislação que vai regulamentar o funcionamento dessas empresas, mas não há garantia de que recuperará seu protagonismo.

Uma novidade é a presença do Red Bull Bragantino, recém-promovido à elite nacional, que mesmo sem espaço garantido na televisão e sem torcida numerosa, candidatou-se a desempenhar um papel relevante com um orçamento anual estimado em R$ 200 milhões (o clube seguiu contratando e o valor de mercado do seu elenco tinha aumentado para 26,4 milhões de euros em março). O Bahia vem consolidando um lugar de destaque entre os clubes do grupo intermediário, tendo apresentado uma previsão de receita mais de duas vezes maior do que a do Sport (e o elenco do clube baiano tinha um valor de mercado duas vezes maior do que o elenco pernambucano). Por sua vez, o Fortaleza abriu negociação com um grupo econômico russo para uma parceria com cogestão. Está claro que a permanência na elite nacional requer um esforço grande de ampliação de receitas. Evidentemente, clubes com orçamento relativamente baixo (como o Atlético-GO) são os que apresentam maior risco de rebaixamento.

Registre-se, ainda, que o inesperado rebaixamento do Cruzeiro em 2019 provocou redução drástica das receitas previstas para este ano (R$ 80 milhões, contra R$ 350 milhões projetados para 2019) e a saída dos principais astros acarretou uma diminuição do valor de mercado do seu elenco (de 48,2 milhões de Euros para 17,5 milhões de Euros). O colapso das receitas do clube agravou o problema do endividamento: ao final de 2017, a dívida total do clube era de R$ 383 milhões, passou para R$ 520 milhões no ano seguinte e saltou para mais de R$ 800 milhões em janeiro de 2020. Provavelmente, o Cruzeiro terá dificuldade para retornar ao grupo dos “protagonistas”, quando retornar à Série A do Campeonato Brasileiro.

Ainda é cedo para estimar o impacto da atual conjuntura sobre os clubes da elite nacional. A paralisação dos torneios de futebol profissional, além de encurtar o calendário, acarreta a perda de receitas de bilheteria, patrocínio e televisão. Ao mesmo tempo, os impactos inevitáveis da recessão econômica (que não se sabe quanto tempo durará) sobre as principais fontes de receitas dos clubes podem causar uma crise financeira crônica, que forçará a maioria a negociar seus principais jogadores. As medidas que estão sendo tomadas, individualmente, para redução temporária da folha de pagamentos dos clubes, certamente serão insuficientes para compensar a queda nas receitas operacionais.

A FIFA anunciou, no final de março, que criará um fundo emergencial para socorrer as 211 federações filiadas, que talvez ajude a atenuar o problema causado pela interrupção do fluxo de caixa na maioria dos países, mas não nos principais centros futebolísticos. Por sua vez, a Conmebol tem se limitado a adiantar 60% dos pagamentos relativos a direitos de participação para os clubes que disputam a fase de grupos da Copa Libertadores e a Copa Sul-Americana. Assim, seria necessária uma intervenção significativa da CBF, que obteve um superávit de R$ 190 milhões em 2019 (e tem um ativo total avaliado em R$ 1,248 bilhão). Mas, a entidade anunciou a criação de um fundo de apenas R$ 19 milhões para socorrer os times que disputam as divisões inferiores do Campeonato Brasileiro (Séries C e D) e o Campeonato Brasileiro Feminino (Séries A1 e A2), assim como as federações estaduais. A CBF tem sofrido pressão para ajudar financeiramente também os clubes da Série B, mas alega não poder ser avalista na negociação para redução do pagamento de parte dos salários de jogadores da elite nacional.

Portanto, se nada for feito para evitar a crise orçamentária, é provável que poucos clubes possam ser protagonistas neste e nos próximos anos, no futebol brasileiro, e que os grandes clubes capazes de executar uma gestão financeira eficiente ampliem sua vantagem em relação aos demais clubes da elite nacional. Resta saber se os grandes clubes mais prejudicados pela queda de receitas (e mais ameaçados de perder protagonismo) conseguirão se associar para agir de modo articulado e competente com o propósito de enfrentar juntos os enormes desafios e reequilibrar a correlação de forças.

Poucos analistas acreditam que a crise atual seja uma oportunidade para introduzir mecanismos de regulação da concorrência e métodos mais justos de repartição do dinheiro gerado pelos torneios, seja na Europa, na América do Sul ou em outro continente. Se houvesse, no Brasil, (i) uma distribuição mais equilibrada do dinheiro pago pelos direitos de transmissão dos torneios nacionais e continentais, (ii) uma distribuição mais equânime do tempo de exposição dos times na televisão, e (iii) um teto salarial para a formação dos elencos, é provável que mais clubes da elite nacional se fortalecessem e que o número de clubes “protagonistas” se ampliasse. Contudo, não há iniciativas nesse sentido, nem da parte da CBF, nem da Rede Globo, nem dos clubes que hoje monopolizam o mercado do futebol brasileiro.