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Qual a camisa mais pesada do futebol brasileiro?

Guilherme Trucco

Dois senhores de idade austera, cabelos grisalhos, bigode escovinha. Velhos amigos. Usam tênis de futsal, daquele mais barato, que tem pra comprar no hipermercado. A esposa que comprou, senão estavam mesmo é de chinelo de dedo.

Essa conversa que não aconteceu em um boteco próximo de você:

Mestre Pastinha e a camisa do Ypiranga

Mestre Pastinha. Foto: Fundação Cultural Palmares.

– Rapaz. Esquece títulos importantes… Não é disso que eu tô falando. E nem me venha com jogadores midiáticos recebendo salários milionários! Jogar pra frente, futebol moderno, não, não, longe disso.

– Só pode ser o time mais tradicional então? O mais antigo?

– Não.

– O de maior torcida, claro, futebol é paixão! Certo?

– É paixão sim, mas ainda não é isso.

– Já sei! A torcida mais apaixonada, mais empolgante, que grita o tempo todo, louca… é isso?

– Boa tentativa, mas não.

– Qual é então, fala logo porra.

– A camisa mais pesada do futebol brasileiro é a do E.C. Ypiranga, da Bahia.

– Ué, e por que? Desenvolve essa parada aí.

– Eu explico, eu explico. A começar pelo nome. Quando o time foi fundado, primeiro deram o nome de 7 de Setembro. Era lá pelos idos de 1904, em meio a discussão de Liga de Negros e Liga de Brancos, os fundadores queriam um time profundamente brasileiro, em que qualquer um pudesse jogar, pudesse ser jogador. Por isso o nome com a data da independência do Brasil. Mas, olha só, tempos depois, o time foi rebatizado, mudaram o nome para Ypiranga mesmo. O que é muito mais brasileiro. Ypiranga é palavra indígena. Ao mesmo tempo que é o nome do rio em que ocorreu o grito de independência, gosto mesmo é do significado da palavra em tupi-guarani… “Y” quer dizer rio, e “piranga” quer dizer vermelho, rio vermelho, de águas barrentas, mas também de sangue. E sabe que a palavra tupi-guarani para coração é Pya. Ypyaranga é o rio de coração forte, sangue vermelho, é a alma do brasileiro.

– Bonita história, mas não me convence. Tem vários times que lutaram contra o racismo no futebol… O Bangu de Francisco Carregal, o Vasco campeão carioca de 1923 chamados Camisas Negras, primeiros campeões com um time com negros… Além disso, também tem vários times no Brasil que se chamam Ypiranga.

Esporte Clube Ypiranga. Foto: Reprodução/Facebook.

O velho dá uma tragada profunda no seu cigarro de palha.

– É verdade, é verdade. Mas não é só a questão do nome não. Por ser um time feito para o povo, o Ypiranga rapidamente caiu no gosto do torcedor baiano, da massa. Também chegou a ser o maior campeão baiano, em sua época… Por causa disso, até hoje, é conhecido como “o mais querido”… Mas, como eu disse, não é sobre o tamanho da torcida ou a quantidade de títulos que eu quero falar. Na realidade, basta eu falar só de 2 torcedores.

– Só dois? Quem?

Pastinha e a Capoeira Angola

Mestre Pastinha (a esquerda, de calça branca) observa roda de capoeira de seus alunos. Foto: Fundação Cultural Palmares.

– O primeiro é Mestre Pastinha. Fundador da Capoeira Angola no Brasil. Foi ele quem disseminou a capoeira como arte, como manifestação cultural e até religiosa, do Brasil. Antes dele, na época, a capoeira era vista como coisa de ladrão, malandro vagabundo. Sabe da onde vem a palavra ginga? O bom capoeirista, principalmente capoeira angola, quando está jogando na roda, no ritmo do atabaque, do pandeiro e dos berimbaus, na entoada das ladainhas, se conecta com o adversário, nesse momento se diz que ele está com mandinga, que a roda está cheia de mandinga… Quase uma espécie de transe, uma experiência espiritual, transcendental, encantada. Pois a mandinga, foi que foi, que acabou encurtando e virando só ginga. Quer um time mais importante, do que aquele em que um torcedor foi o inventor da ginga? Mestre Pastinha trouxe a ginga para dentro da cultura brasileira, como arte. Ele torcia tanto pro Ypiranga, mas tanto, que as roupas da sua escola de capoeira angola eram preto e amarelo, em homenagem à camisa e as cores do Ypiranga.

– Porra. Interessante mesmo essa parada. Mas quem é o outro torcedor?

Biografia esportiva de Popó. Foto: Arquivo pessoal

– Calma. Desce mais outra gelada aí, que hoje eu tô gastando saliva… Ahhh. Antes de falar do outro torcedor, deixa eu gastar duas palavrinhas com o principal jogador que já vestiu o manto sagrado do Ypiranga. Ainda bem que, em bom português, “duas palavras” quer dizer duzentas… Pois bem, pois bem, o maior jogador foi o Apolinário Santana, o grande Popó! Dizem que jogou mais que o Pelé, só que, como estava fora do eixo Rio-São Paulo, não ganhou tanta fama e notoriedade nacional. Mas eu não quero ficar falando aqui de quantos gols ou títulos ele ganhou, isso são tonterias como eu já disse. O Popó comia futebol no café da manhã, essa que é a verdade. Ele era o tutano nevrálgico pulsante do futebol brasileiro. Ele tinha elã! Em época de profissionalismo versus amadorismo, ele passou por praticamente todos os times que existiam na Bahia e região. Jogava nas onze. Sem compromisso. Jogava em todas as posições mesmo. Ele via onde o time tava jogando pior, e ia lá praquela posição. Só ia jogar no ataque quando percebia que o time tinha uma boa base, aí sim, desandava de marcar gol. Porra, quando não tinha como jogar por nenhum dos dois times, ele jogava até de juiz! Só pra poder estar no campo, próximo da bola, dentro do futebol.

– De juiz?

– É… É só ver as súmulas da época rapaz, cada hora ele aparecia num time diferente, numa posição diferente, e até apitando o jogo. E sempre deixava o golzinho dele. Pra mim, o Popó é a definição do futebol brasileiro. É isso. Talento e paixão, muita paixão, aliás, paixão muito maior do que o talento ou a razão dos esquemas táticos. É ginga misturada com magia, troço espiritual mesmo, encantado. Essa bagunça de times, posições, de fé e cultura…

O velho que falava começa a lacrimejar, e parou pra dar mais uma bicada na cerveja.

O amigo deu uns tapinhas nas cotas, e acompanhou o gole.

– Ficou bonita essa sua teoria aí em… Mas vem cá, e o outro torcedor? Você falou que eram dois…

Homenagem do Ypiranga à canonização de Irmã Dulce. Foto: Reprodução/Mídias sociais do clube.

– Sim… só que não é torcedor não… é torcedorA… é a Irmã Dulce.

– Irmã Dulce? Você tem uma irmã que se chama Dulce? Caralho, esses anos todos… nunca me contou…

– Não, seu burro, é A Irmã Dulce.

– Aquela? Milagreira? Que faz cego enxergar? Que foi canonizada pelo Papa Francisco?

– Essa mesma. Pois ela ia no estádio ver o Popó jogar, torcer, gritar… Ela mesma disse, várias vezes.

– Caraca…

– E digo mais, já consigo ver a cena, a menininha Dulce comemorando na arquibancada um gol do Popó, louca, rouca, abraçada com Mestre Pastinha, e rezando pro juiz apitar logo a porra do fim do jogo! Acaba! Acaba seu Juiz!