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Qual o saldo esportivo da Copa do Mundo da Rússia

Guilherme Eler

A 21ª edição da Copa do Mundo teve fim neste domingo (15), com a taça nas mãos da seleção francesa, que venceu a Croácia por 4 a 2, e entrou para a história por desafiar alguns tabus recentes do esporte.

Frrança bi campeã do mundo de futebol. Foto: Aurélien Durand/FFF.

Frrança bi campeã do mundo de futebol. Foto: Aurélien Durand/FFF.

Na Copa da Rússia, os principais favoritos deram adeus antes da hora. Cotados entre os principais nomes, Brasil e Espanha não chegaram nem às semifinais. A Alemanha, então campeã, não passou da primeira fase. A expectativa na longeva sequência de Tite à frente da seleção nacional parou na ótima geração belga.

A desacreditada Croácia, que trocou de técnico no último jogo das eliminatórias para a Copa e não era cotada nem para passar da fase de grupos, superou o 3º lugar de 1998 e protagonizou uma final inédita contra a França. A posse de bola infrutífera e o cadenciamento pouco efetivo do jogo cobraram seu preço. Em seus quatro jogos no torneio, a Espanha passou 69% do tempo com a bola no pé. Perdeu para a Rússia nas oitavas-de-final sob vaias dos torcedores. Foi um fim de Copa europeu: em 2018, países sul-americanos atingiram, no máximo, a fase de quartas-de-final. Não há um campeão mundial do continente desde 2002, ampliando a vantagem europeia em número de conquistas.

Para entender alguns pontos-chave do mundial disputado na Rússia do ponto de vista esportivo, o Nexo conversou com dois editores do Ludopédio, portal acadêmico de futebol:

Sérgio Settani Giglio, professor da Faculdade de Educação Física da Unicamp

Marco Lourenço, mestre em história do esporte pela USP

A Copa da Rússia marca a decadência do ‘reinado da posse de bola’?

SÉRGIO SETTANI GIGLIO Eu acho que o modelo da posse de bola não está exatamente decadente. Como contrapartida a esse modo de jogar, as equipes têm se defendido em massa. É o exemplo da Suécia, que não tem um grande futebol mas avançou na competição defendendo com todos os seus jogadores. Sempre que possível, todos estavam atrás da linha da bola. Isso dificulta a própria infiltração das equipes. Se formos pensar nos jogos do Brasil no início da competição, a seleção teve muita dificuldade em superar equipes que só se defendiam. Então, o que me parece é que em dados momentos, as equipes primaram muito pela posse de bola, sem produzir infiltração, movimentação.

MARCO LOURENÇO No futebol, pra mim, não há fim de nada. O futebol vive grandes ciclos, de diversas espécies. Se a gente pensar em posse de bola que é ineficaz, pensando exclusivamente no ponto de vista de resultados, a gente pode voltar aos anos 1980 e pensar nos times do Telê Santana. São duas gerações [1982 e 1986] que jogavam muito bem, tinham jogadores muito técnicos, mas que não avançaram, não ganharam títulos expressivos. Havia atletas como Falcão, Sócrates e Zico que mereciam ter mais troféus e medalhas em casa. E, na sequência, vem o [Sebastião] Lazaroni que tinha como referência o Dunga, uma antítese disso. Era uma tentativa de estabelecer um jogo eficiente, bonito, e quando isso não funcionava, você tinha um antídoto, que era um estilo mais burocrático, mais pragmático de jogar. A gente vem da geração mais vitoriosa da história do futebol espanhol. O real antídoto para o tiki-taka é um jogo mais vertical, em que a posse de bola não é a regra, não é um objetivo de jogo. A questão não é só a defensividade, e sim, ter ou não a bola. O time belga, por exemplo, tem muita qualidade e faz muitos gols. Mas, contra o Brasil, o Fellaini foi escalado só para ‘dar o bote’ no meio-campo. O domínio da posse de bola é um modelo plástico, que teve de enfrentar uma espécie de antídoto e se destruiu. Daqui a pouco, surge uma nova reconstrução, aliando resultado e performance.

O que representa a trajetória da Croácia no mundial?

SÉRGIO SETTANI GIGLIO A Croácia sempre teve um futebol difícil de ser vencido. A própria Iugoslávia tinha um futebol muito bem jogado e um investimento no esporte. Mesmo com a independência dos países, isso não perde força. Parece que a Copa do Mundo permite, por outro lado, a presença de seleções não tradicionais no rol de destaques. A Copa é um torneio muito particular; são até sete jogos em 30 dias. Você pode até passar com três empates, ou ser eliminado sem tomar gols [no tempo regulamentar]. Após uma única boa exibição em três jogos na primeira fase, contra a Argentina, a Croácia avançou com dificuldades. Tanto é que passou por três prorrogações, duas disputas por pênaltis. É uma seleção que vai perdurar para as próximas Copas. Se ela vai chegar de novo, depende de vários fatores. Se o futebol tivesse lógica, ou se os amistosos antes da Copa valessem alguma coisa… o Brasil ganhou da mesma Croácia por 2 a 0. O Brasil já está fora, eles foram para a final.

MARCO LOURENÇO É a constatação de que o futebol permite essas coisas. Vou dar um exemplo nosso: Copa de 1994. Não tem um projeto ali. Tem o desastre do Lazaroni [técnico em 1990], tem o Parreira que foi massacrado o tempo todo. Era um elenco muito desequilibrado. Na última convocação, entrou uma molecada. Depois, todos viraram protagonistas dos clubes que passaram; tinha Ronaldo, Viola, Leonardo. Aquele time era absolutamente improvável. Foi tudo muito sofrido. Futebol não é algo justo. Não é um esporte cujas métricas do jogo se traduzem em desempenho e resultado. Em um torneio de tiro curto, é a maior possibilidade que se tem de alçar voos mais altos. Em competições curtas, o imponderável decide. É claro que se tem esse discurso hegemônico de “projeto”, “trabalho”, “processo”. Tudo isso tem a ver com a modernização que o futebol tem atravessado, mas o futebol continua sendo futebol. Isso não é novo na história das Copas. O que a Croácia traz de mais interessante é que, como Iugoslávia, talvez a parte mais talentosa estivesse lá, ainda que tenha ido mal nas últimas três Copas, por outros fatores.

Apesar do fanatismo sul-americano, a hegemonia em Copas, hoje, tende a se tornar europeia?

SÉRGIO SETTANI GIGLIO O Brasil tem uma marca histórica muito importante, que é ser o único país campeão de uma Copa do Mundo jogada na Europa. A seleção de 1958 é a primeira e a única: 60 anos e ninguém mais igualou isso. Isso representa um certo valor do que acaba sendo a competição lá. Os europeus têm um favoritismo por conta disso e gera um peso pros demais, essa configuração. Em relação ao futebol sul-americano, o jogo também está nos detalhes. A Colômbia, por exemplo, teve a chance de eliminar a Inglaterra nas oitavas-de-final. Empatou no último lance do jogo, perdeu na disputa de pênaltis. Poderia ter avançado. O jogo da Argentina com a França, ainda que ela tenha tido uma fase de grupos ruim, foi extremamente aberto, talvez um dos melhores da Copa. Se o Cavani estivesse contra a França, talvez o Uruguai tivesse melhor sorte. Teve a falha do goleiro [Muslera] também. Quando se chega nessa fase, é uma partida que define. Se formos pensar em Brasil e Bélgica, talvez, se jogássemos dez vezes contra perderíamos apenas uma. Mas, naquele dia, foi essa uma que ele perdeu. São fatores muito específicos, mais do que falar que está enfraquecido. O futebol responde a uma nova ordem, em que boa parte dos jogadores sul-americanos que compõem as seleções atuam no exterior. Não tem mais aquela surpresa, ‘Que moleque é aquele que vai entrar?’, por exemplo. Serve de um alerta. Se, até pouco tempo havia equilíbrio nos ciclos, agora eles [os europeus] já deram uma disparada. O placar está em 12 a nove [em número de títulos mundiais].

MARCO LOURENÇO São condições diferentes de formação de elencos, de grupos de jogadores, que culminam em um tipo de jogo e em um resultado diferente. O que eu penso é que há um desnível financeiro violento, aí não só entre os ‘futebóis’, mas entre as nações. As condições de sustentar uma liga, de organizar um grupo de jogadores, são dramaticamente diferentes. Para você formar um jogador na Alemanha, há um rito muito diferente do que é para um menino no Uruguai. Isso, com o acúmulo dos anos, traz consequências. Não acho que estamos no fim de uma era sul-americana e início de uma hegemonia total europeia, até porque os europeus dependem muito da “periferia”. Essa periferia inclui nós, da América do Sul, inclui a África, o Oriente Médio.

Qual a avaliação de Tite em seu primeiro grande teste à frente da seleção brasileira?

SÉRGIO SETTANI GIGLIO O grande ponto da crítica em relação ao trabalho dele é que ele não conseguiu apresentar o mesmo futebol das Eliminatórias. Quando ele assume a seleção que está lá em maus momentos e consegue não só uma série de vitórias, mas uma sequência de partidas bem jogadas. Ainda que o Brasil tenha vencido, não foram vitórias tranquilas, com o controle do jogo o todo tempo. Faltou um pouco de ousadia em bancar algumas substituições ou fazer testes em algum momento. Os resultados não o deixaram confortável para arriscar. Isso pesa na conta dele, nas avaliações que ele e a comissão técnica fizeram. O que me chamou a atenção na primeira partida é que ele estava muito ansioso pela estreia na Copa do Mundo. Era algo que ele esperava muito e parece que ele não lidou muito bem com essa ansiedade.

MARCO LOURENÇO O Tite vai ser mantido por várias razões: seja porque não tem plano B, ou porque é melhor apostar em algo “garantido”. À frente da seleção, Tite transmite algumas imagens para quem assiste, para o brasileiro, que são palatáveis. Comprometimento. Responsabilidade. Intensidade. Respeito. Amor à pátria. Ele é um cara que tem essa feição pastoral. A cobrança, porém, vai ser maior. A postura de alguns jornalistas vai começar a mudar. Aquela história de que “o hexa já é realidade”, tudo isso morreu.

Quem surpreendeu?

SÉRGIO SETTANI GIGLIO Mbappé foi o grande destaque individual, e teve importância coletiva para o jogo da França. O Japão também foi uma surpresa, ninguém o apontava como uma seleção que classificasse dentro do torneio. Se tivesse um pouco mais de experiência de controlar o jogo, teriam vencido tranquilamente a Bélgica. De Dinamarca e Irã, apesar de grandes dificuldades de atacar, pode-se destacar o sistema defensivo. Tanto é que, apesar do menor número de jogos, apresentam algumas das melhores defesas da Copa, em número de gols sofridos.

MARCO LOURENÇO Entre os destaques técnicos eu colocaria facilmente o Modric, que desfilou na Copa. O Mbappé não foi tudo que é, mas, nas oportunidades que teve, foi monstruoso.

E quem decepcionou?

SÉRGIO SETTANI GIGLIO Eu fico com as seleções africanas. Acho que elas sempre têm potencial para ir mais longe do que elas vão. Nenhuma conseguiu classificar, sendo que duas, Nigéria e Senegal, estavam em uma posição muito confortável para avançar – precisavam apenas de um empate. O que apresentaram acaba sendo mais do mesmo, sendo bastante previsíveis. Não tem mais aquela surpresa de Camarões, de 1990, ou do próprio Senegal, em 2002.

MARCO LOURENÇO Colocaria o Fernandinho. É cruel, porque ele jogou pouco mais de 90 minutos da Copa. Mas não foi pela bola, e sim pela falta de maturidade emocional. A frustração maior foi não ter visto o Salah jogar. Entrou lesionado, em um time muito fraco. Merecia mais, é um cara brilhante. Dentro e fora de campo é um personagem e tanto. No fim das contas, achei que a Copa, tecnicamente, foi muito abaixo da que a gente teve aqui [no Brasil, em 2014]. Você pode pegar cinco ou seis golaços da última Copa e todos eles são melhores do que o mais bonito que tivemos na Rússia.


nexo_jornal_logo-600x152-minEste texto é uma republicação de artigo publicado no site Nexo Jornal.