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Qual racismo?

Marco Lourenço

#FechocomTinga. Sim, o país abraçou a causa. Mesmo os jornais mais tradicionais, com público leitor notadamente conservador, expuseram em letras grandes: jogador brasileiro sofre racismo no Peru!

A repercussão foi grande e a reação foi espetacularizada. Atletas do Real Garcilaso se desculparam pela torcida, e até o presidente Ollanta Humala lamentou profundamente o ocorrido. Aqui, a campanha #somosiguais ou #FechocomTinga teve adesão da mídia esportiva, jogadores – inclusive do maior rival, Atlético-MG, em gesto nobre no clássico deste domingo –  e da própria presidente Dilma Rousseff.

Curiosamente, o ex-jogador Deco, embora tenha dito que qualquer ato de racismo é intolerável, afirmou que o episódio com Tinga não se trata de um gesto de racismo dos torcedores. Segundo ele, os peruanos apenas queriam desconcentrar o cruzeirense.

Tinga, volante do Cruzeiro, que foi alvo de racismo em jogo da Libertadores da América. Foto: Washington Alves – VIPCOMM.

Apesar de parecer que Deco talvez não tenha tanta clareza do que significa a palavra racismo, uma outra onda surge, contestando uma certa ausência de legitimidade dos peruanos em atacar os brasileiros. A afirmação era de que um povo com a história e a cara que tem o povo peruano não pode fazer isso com o brasileiro. Escapa aos nosso olhos, portanto, uma boa porção de prepotência do ufanismo brasileiro em relação aos vizinhos sulamericanos, e a recorrente falta de identificação com a unidade latino-americana.

É preciso, no entanto, lembrar que o preconceito – o racismo, particularmente – é um assunto tratado de forma dissimulada e relativa nas competições futebolísticas do continente. Sabemos que nas eliminiatórias do ano passado, os jornais peruanos – considerados os “barra bravas da seleção nacional” pelo jornal equatoriano El Telegrafo – não economizaram ofensas racistas aos rivais do Equador (Leia aqui). Em 2011, o brasileiro Diego Maurício (ex-Flamengo), atuando pela seleção no sulamericano sub-20 em partida contra Bolívia, sofreu xingamentos semelhantes aos de Tinga (Leia aqui). O árbitro da partida, o venezuelano Jorge Argote, não fez qualquer registro na súmula da partida entre Cruzeiro e Real Garcilaso, apesar de ser negro.

Há uma incoerência, uma contradição permanente que só persiste pelos aspectos políticos que o racismo assume no país. Veja abaixo, alguns comentários de internautas sobre o artigo publicado pelo jornal Libero – um dos “barras bravas” da imprensa peruana – a respeito do caso Tinga.

Foto: Reprodução Líbero

O comentário de Carlos revela o ressentimento guardado em relação à morte do jovem Kevin Espada atingido pelo rojão disparado pela torcida corintiana em Oruro. Clama-se, também, “sejam mais unidos”, tal como uma palavra de ordem que curiosamente aparece em outros comentários. Já Dalvo alerta, por exemplo, os peruanos que forem ao Brasil, pois os torcedores brasileiros os ofenderiam, e debochariam dos “indios tontos”.

É possível imaginar que um povo que viveu um longo século de repressão política, perseguição ideológica e longas décadas de guerra civil entre guerrilha e exército tenha uma série de traumas e inimigos eleitos para, enfim, constituir uma espécie de unidade peruana.

Não por acaso, o presidente é membro do Partido Nacionalista Peruano, que assume apenas o terceiro mandato democrático no país após duas décadas de influência do clã Fujimori.

É preciso resgatar, contudo, o impacto que a herança das guerras e disputas territoriais oriundas ainda do período de independência dos países andinos (1819-1830), delineadas em 1941 e reiteradas em 1981 e 1995 contra os equatorianos.

O Brasil, por sua vez, alheio a um alinhamento latino-americano, tomou frente, por exemplo, da diplomacia entre Peru e Equador, mediou o Protocolo do Rio (1942), acordo perene que beneficiou, de certa forma, mais a figura patriarcal e o estado de Getúlio Vargas, no contexto de Segunda Guerra.

O Equador tornou-se um rival de uma longa história, e os brasileiros, sem exagero, protagonistas do subcontinente. É inevitável notar a presença do preconceito racial e diversas formas de discriminação mesmo em nações que foram e são historicamente oprimidas, colonizadas, escravizadas e desumanizadas. Ela agride nossos olhos e ouvidos.

No Peru, no entanto, o racismo tem se manifestado seletivamente. Equador e Brasil são alvos de uma forma de afirmação lamentável da nação peruana, que carece de consolidar sua identidade, ainda que prescinda erroneamente de destratar os vizinhos.

Em todo caso, talvez seja sempre assim, em todo lugar nessa América Latina. Controverso. Afinal de contas, se o jogador é vítima e nos sensibilizamos, porque o menino abandonado preso pelo pescoço é o vilão e tantos o condena?