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Quando a bola precisou parar

Museu do Futebol

Policiais em Seattle usando máscaras feitas pela Cruz Vermelha durante a epidemia de gripe espanhola. Foto: Wikipedia.

O esporte, e principalmente o futebol, é uma das atividades mais beneficiadas com a globalização. Não apenas o maciço intercâmbio entre times e atletas, mas os próprios torcedores podem acompanhar em tempo real seus campeonatos favoritos, transmitidos em multiplataformas mundo todo. Além disso, a agenda esportiva é forte motivadora do turismo.

No Museu do Futebol, por exemplo, observamos como cresce a presença de visitantes estrangeiros, especialmente uruguaios, argentinos, chilenos e colombianos, quando há jogos do Campeonato Libertadores da América, por exemplo, na cidade de São Paulo. Durante a Copa do Mundo de 2014, 40% dos visitantes do Museu vieram de outro país.

Na pandemia do novo coronavírus/COVID-19, acompanhamos dia-a-dia os impactos globais impostos pela necessidade do isolamento social. E, com isso, todas as atividades esportivas foram afetadas, inicialmente com jogos sem torcidas, depois com adiamentos e cancelamentos de competições. E dois dos torneios mais tradicionais de futebol foram adiados: a Copa América e a Eurocopa, ambos ocorreriam em junho de 2020 e foram remarcados para 2021.

Mas o futebol, esse esporte que já atravessou mais de um século, já passou por isso outras vezes. E sempre continuou depois. Separamos aqui alguns casos em que a bola parou de rolar, mas retomou com força depois.

Na Europa

Será a primeira vez que a Eurocopa muda de data. Para se ter ideia do quanto é incomum qualquer tipo de alteração nesse torneio, sua a última crise foi durante a Guerra da Bósnia em 1992. A Iugoslávia, após ter sido suspensa pela Organização das Nações Unidas, viu sua seleção ser desclassificada do torneio pela UEFA. A seleção da Dinamarca ocupou a vaga e acabou campeã daquele ano.

As crises mais sérias vividas pelo futebol europeu, no entanto, foram mesmo durante as duas Grandes Guerras, que cancelaram os Jogos Olímpicos de 1916, 1940 e 1944, além das Copas do Mundo de 1942 e 1946. Aliás, curioso ver como o futebol inglês agiu de maneira distinta em cada um dos conflitos.

Na Primeira Guerra Mundial (1914–1918), muitos jogadores foram para o front, por isso o Campeonato Inglês ficou paralisado entre 1915 e 1919. Com o grande contingente de homens nos campos de batalha, as mulheres foram para as fábricas, substituindo a mão de obra masculina e, também, para os gramados. O futebol feminino floresceu na Inglaterra, com direito a torneio próprio, a Challenge Cup, e o time sensação Dick Kerr Ladies F.C. Ao final da Guerra, no entanto, a Football Association (FA) boicotou os times femininos vetando jogos masculinos nos estádios que recebessem jogos de mulheres. Como praticamente todos os principais campos tinham vínculos com times masculinos e estes participavam das competições da FA, nenhum clube quis apoiar o futebol feminino, que praticamente desapareceu até a década de 1970.

Já na Segunda Guerra (1939–1945), o torneio inglês também foi alterado: os clubes foram reorganizados em 10 torneios regionais, nos quais alguns jogadores chegaram a atuar por duas equipes. Tudo fazendo parte do esforço de guerra e pela manutenção da moral dos ingleses. Após o fim da guerra, os resultados foram anulados e o Campeonato Inglês, retomado.

Na América do Sul

O Globo, Rio de Janeiro, 25 maio 1964, p. 23. Foto: Reprodução.

A primeira interrupção feita pela Conmebol foi durante o Torneio Pré-Olímpico de 1964, no Peru. Mas, diferente do contexto europeu de guerras entre nações, o motivo desta foi totalmente interno.

A Argentina ganhava da Seleção Peruana por 1 a 0. No finalzinho, o Peru marcou um gol, anulado pelo árbitro. Torcedores invadiram o gramado do Estádio Nacional, e a polícia reagiu com bombas de gás lacrimogênio. O pânico se espalhou pelas abarrotadas arquibancadas e, na confusão, 328 pessoas morreram. O tumulto espalhou-se por Lima, levando o governo a impor lei marcial. Uruguai e Equador desistiram da disputa, enquanto Brasil e Peru disputaram a última vaga para os Jogos Olímpicos, no Maracanã, duas semanas depois.

As epidemias virais do século XXI

O Estado de S.Paulo, São Paulo, 4 maio 2003, p. 4. Foto: Reprodução.

A FIFA viveu o pesadelo da gripe em 2003, quando a epidemia de SARS atingiu a China, que estava pronta para receber a 4ª edição da Copa do Mundo feminina. Faltando menos de cinco meses para a competição, a FIFA optou trocar a sede e levar, pela segunda vez consecutiva, o Mundial das mulheres para os Estados Unidos. Mas tomou o devido cuidado de confirmar a China como sede da edição de 2007

Em 2009, o México foi atingido pela epidemia do H1N1 (que entrou para a história como “gripe suína”) e o campeonato nacional ocorreu com portões fechado. Mas, havia clubes mexicanos disputando a Copa Libertadores da América. O Chivas Guadalajara e o San Luís estavam classificados para as oitavas de final. Depois de muitas idas e vindas, a Conmebol propôs jogo único na casa do São Paulo F.C.e do Nacional do Uruguai, os respectivos adversários, visto que esses times não poderia viajar até o México. Os mexicanos preferiram abandonar a competição a se submeterem a essa condição. A reação da Conmebol, contudo, foi surpreendente: classificou os dois times para as oitavas de final da Libertadores de 2010.

Em 2014, a epidemia do vírus Ebola provocou o cancelamento de amistosos e jogos eliminatórios da Copa das Nações Africanas, especialmente em Guiné e Serra Leoa, países com alto índice de infectados.

No Brasil

Ainda não sabemos o quanto o novo coronavírus vai afetar o calendário esportivo nacional. Na nossa história futebolística, a pior crise foi decorrente da gripe espanhola de 1918. A doença matou 50 milhões de pessoas ao redor do mundo, 35 mil só no Rio de Janeiro, cuja população total à época era de pouco mais de 900 mil.

A Liga Metropolitana de Sports Athléticos suspendeu o campeonato carioca por 56 dias, retomando-o no começo de dezembro. O Fluminense foi o vencedor, mas não houve comemoração nas Laranjeiras. Uma das vítimas fatais da gripe espanhola foi o inglês Archibal French, atacante tricolor e campeão post-mortem. Com o título nas mãos o time sequer foi ao último jogo. Além do luto por Archibald, metade do time estava doente.

Entre novembro e dezembro de 1918, o Clube Club Athletico Paulistano ficou fechado por conta da epidemia da Gripe Espanhola. Antonio Prado Júnior ofereceu ajuda às autoridades e montou, no Salão de Festas, um hospital temporário para atender os enfermos. Detalhe para o afresco no alto das paredes. Ele trazia cenas com temática esportiva (Pelo Basca, Rugby, Futebol e Tênis). Foto: Acervo Centro Pró-Memória/Club Athletico Paulistano.

No país, a gripe espanhola provocou o adiamento da primeira edição do campeonato gaúcho e a paralização do campeonato pernambucano.

E se você que mora em São Paulo tem se surpreendido com as atuais medidas de contenção da COVID-19, saiba que já tivemos cancelamentos mais abruptos….

O Campeonato Paulista de 1918 foi interrompido faltando menos de uma hora para o início dos jogos, em 20 de outubro. Agentes sanitários invadiram os campos de futebol por toda cidade para impedir os jogos e esvaziar os estádios, uma maneira de impedir as aglomerações que facilitavam o contágio. A bronca da Associação Paulista de Sports Athleticos (APEA) ficou por conta do momento escolhido para a interrupção das competições esportivas, isto é, depois que os torcedores compraram ingressos e entraram nos estádios e dos jogadores já estarem em campo…

Assim como a gripe surgiu de repente, ela também desapareceu. Em dezembro o número de infectados e de mortes caiu o suficiente para a APEA retomar o campeonato, com alguns cuidados: os jogos foram disputados em dois tempos de 35 minutos (o normal eram 40) e só os times que tinham chance de título voltaram a campo. O C.A. Paulistano garantiu o título em 19/01 com uma goleada de 7X0 sobre a A.A. das Palmeiras. No elenco campeão estavam Sérgio Pereira, Carlito Aranha e Benedicto Ferreira que sobreviveram à gripe.

Aliás, durante a crise o C.A. Paulistano e o Palestra Itália transformaram suas sedes em hospitais, atendendo as vítimas da gripe, além de, após a crise, terem doado todos os móveis e utensílios à Superintendência dos Hospitais Provisórios. Tradição paulista… em 2020 o Estádio do Pacaembu abrigará 200 leitos para tratamento dos casos menos graves da COVID-19, e outros estádios estão oferecendo suas instalações para ajudar a conter o possível colapso do sistema de saúde do país.

Ficha do Movimento Hospitalar assinada pelo Diretor do hospital instalado no Salão de Festas do Club Athletico Paulistano, Dr. Schmidt Sarmento. Especialista em moléstias da Garganta na Santa Casa de São Paulo. Foto: Acervo Centro Pró-Memória/Club Athletico Paulistano.

Sabemos que o momento é excepcional e diante de tantas privações, ficar sem nosso futebol diário — seja na TV, na arquibancada ou na rua — é difícil. Mas temos de ficar juntos e em casa até essa crise passar. O futebol, já vimos aqui, superou outras crises e, logo logo, voltará com força total. E tão melhor será se pudermos, nós todos, sairmos mais solidários e altruístas após essa fase!

O que fazer enquanto estiver em casa

Preparamos uma lista de textos, séries e documentários sobre a história do futebol nos contextos que mencionamos no artigo.

Futebol europeu

Primeira Guerra Mundial

Artigo: PEREIRA, Ricardo Costa. O futebol no tempo da Grande Guerra (1914-1918). Revista de História da FLUP, Porto, n. 2, v. 8, 2018, p. 174-196. Acesso em: 23 mar. 2020

Analisa o futebol brasileiro durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), especialmente o impacto que a participação dos jogadores nos serviços militares trouxe aos clubes da época. Se, por um lado, a guerra colocou entraves à evolução deste desporto, por outro, o futebol soube adaptar-se e ajudar as vítimas do conflito através dos jogos de solidariedade.

Guerra dos Bálcãs

Série: The Real Football Factories International — Balcãs. Narração: Danny Dyer. [S. l.]: Bravo: CNN, 2007. 1 vídeo (45 min). Publicado pelo canal Vinicius Basan. Acesso em: 23 mar. 2020.

A série com 14 episódios traça um panorama do Hooliganismo na Europa. No episódio dedicado à Servia e Croácia, repúblicas da antiga Iugoslávia, revelam como a guerra atravessou o futebol local.

Artigo: NARCIZO, Makchwell Coimbra. Dos campos de futebol para os campos de batalha: uma análise da Guerra dos Bálcãs. FuLiA, Belo Horizonte, n. 2, v. 2, mai./ago. 2017, p. 112–126. Acesso em: 20 mar. 2020.

O trabalho aborda a influência do futebol no início e no desenrolar dos conflitos da Guerra dos Balcãs, conhecida na história recente da Europa por sua violência e crueldade.

Futebol brasileiro

Documentário: Como foi o primeiro título da Seleção Brasileira, em 1919. Produção: Jornal O Globo. Rio de Janeiro: Jornal O Globo, 29 maio. 2019. 1 vídeo (33 min). Publicado pelo canal O Globo. Acesso em: 23 mar. 2020.

Conheça mais sobre como era o país no início do século XX, qual a ideia que os brasileiros tinham sobre sua seleção nacional e por que esse campeonato, adiado em 1 ano devido à epidemia de Gripe Espanhola,

Documentário: Almanaque dos esportes: os anos sem Copa e a Copa no Brasil 1950. Produção: Almanaque dos Esportes. [S. l.]: Almanaque dos Esportes, 2014. 1 vídeo (52 min). Publicado pelo canal André Vieira. Acesso em: 23 mar. 2020.

O documentário traça um panorama do futebol brasileiro e sulamericano do final dos anos 1930 até a Copa de 1950 no Brasil. Interessante para compreender o impacto da 2ª Guerra Mundial na volta do Mundial para a América do Sul e o surgimento da rivalidade Brasil x Argentina.


Autoria

Este texto é de autoria da equipe do Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), do Museu do Futebol. Agradecimento ao Club Athletico Paulistano pelas imagens.

Como citar

FUTEBOL, Museu do. Quando a bola precisou parar. Ludopédio, São Paulo, v. 129, n. 37, 2020.