137.49

Quando a pesquisa em jornalismo encontra o jornalismo esportivo

Pedro Paula de Oliveira Vasconcelos

“Jornalismo esportivo é jornalismo”. Aparentemente tautológica, a frase se repete em manuais e livros teóricos da área diante da necessidade de se relembrar o básico: há princípios técnicos, éticos e político-editoriais que devem ser seguidos em qualquer editoria, por mais próxima que ela esteja do espetáculo ou da crescente espetacularização de suas práticas.

O aviso tem razão de ser. Não raro, o olhar crítico sobre o jornalismo esportivo brasileiro resulta em avaliações pouco reconfortantes, que apontam a mistura deliberada entre notícia e entretenimento, a especulação como método de eternizar debates, a misoginia e o machismo de determinadas coberturas, o resultadismo que limita abordagens mais profundas etc. 

Essa frase revela também uma preocupação de se respaldar a atividade diante do consumidor e, especialmente, do próprio campo profissional. Até pouco tempo, o esporte sofria para se firmar como objeto de discussão em espaços, digamos, mais exclusivistas. Na imprensa, já foi taxado de assunto menor, apesar do enorme interesse popular – ou talvez por isso. Na academia, recebeu (e recebe) olhares atravessados de investigadores sociais que não o consideravam (ou consideram) tão importante assim. Daí a necessidade de afirmar constantemente: produzimos jornalismo ou conhecimento científico tão legítimo como qualquer outro.

Redação da Folha de S. Paulo na década de 1980. Foto: Wikipédia

Se é preciso enfatizar a dimensão jornalística do jornalismo esportivo na esfera profissional, a problemática também pode se expandir para o campo acadêmico, incluindo aqui uma inevitável autocrítica. Felizmente, nas últimas décadas, as pesquisas sobre mídia e esporte, sobretudo futebol, vêm se multiplicando. Basta ver a existência de um grupo específico no maior congresso de Comunicação do Brasil, realizado todos os anos pela Intercom.

Existem inúmeros trabalhos que associam as duas áreas desde matrizes sociológica, antropológica, histórica, linguística e semiótica, por exemplo. Não se trata, naturalmente, de negar a interdisciplinaridade nem do esporte nem da comunicação, mas de fortalecer um caminho complementar: a cobertura esportiva sob o prisma das teorias do jornalismo e de suas contribuições clássicas (noticiabilidade; gêneros e formatos; critérios de relevância; rotinas produtivas, entre outras).

Os referenciais teórico-metodológicos constituem lentes através das quais enxergamos o mundo e os nossos objetos. Para ser mais preciso, são ferramentas que constroem temas e objetos, fazendo do pesquisador um sujeito necessariamente implicado, apesar da crença objetivante do discurso científico. O que passaremos a descobrir quando aprofundarmos o olhar sobre o jornalismo esportivo a partir das tradições epistemológicas do próprio jornalismo?

Talvez seja possível compreender melhor o que se produz dentro e fora das redações, em um movimento crítico-analítico cuja fonte, no atual cenário e infelizmente, depende muito mais da academia do que do mercado. Com sorte, essas reflexões circularão dialeticamente, reforçando tanto a prática quanto a teoria. Certo é que o jornalismo oferece importantes aportes conceituais, sem dúvidas bem-vindos ao debate.


Como citar

VASCONCELOS, Pedro Paula de Oliveira. Quando a pesquisa em jornalismo encontra o jornalismo esportivo. Ludopédio, São Paulo, v. 137, n. 49, 2020.