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Quando a vida beira a arte: o hollywoodiano tetracampeonato mundial da Itália

Dyego Lima

09 de julho de 2006.

Fabio Grosso estava parado na meia-lua da grande área do Estádio Olímpico de Berlim. A bola, estática na marca do pênalti. Ele, com as mãos na cintura, a encarava. Um pouco além, Barthez, imóvel na linha do gol, era o inimigo que o separava da glória. Grosso parecia tranquilo diante das quase 70 mil pessoas presentes no estádio, todas com as atenções voltadas para o italiano.

Foram percorridos 12 segundos entre o lateral posicionar a bola na marca da cal e efetuar a cobrança. Doze longos segundos, que o fizeram perpassar por toda sua carreira: o início no pequeno Renato Curi, da Città Sant’Angelo; a conversão em lateral-esquerdo, que o credenciou a integrar o elenco da Itália naquele Mundial, e o primeiro sucesso no Perugia; A chegada ao Palermo, a convocação de Marcello Lippi até, finalmente, aterrissar naquele espaço gramado.

Sem olhar uma vez sequer para o adversário à sua frente, Grosso partiu lentamente em direção a bola…

Esse foi o último ato de um roteiro que, no final, apontou a Itália como tetracampeã da Copa do Mundo. A adversária era a França. Já a conquista ocorreu na Alemanha. Há uma relação entre eles futebolisticamente falando, mas, se lembrarmos de toda a questão política que envolveu os três países no passado, tudo fica ainda mais significativo. No entanto, este texto vai além da relação antiga de três nações e de uma cobrança de pênalti numa final de Mundial: o caminho italiano até o título foi um verdadeiro filme de Hollywood.

Dito isto, vamos relembrar como se desenrolou esse script.

O escândalo Pré-Mundial

Depois da eliminação polêmica para a Coréia do Sul nas oitavas de final em 2002, a seleção italiana estava disposta a se vingar, mas perdeu nomes importantes para a Copa de 2006. Maldini e Vieri não iriam para a disputa na Alemanha, e o elenco, tido como velho e sem jovens promessas, chegava como incógnita e sem grande favoritismo. No entanto, antes mesmo de o torneio iniciar, o cenário, que já não era dos melhores, ficou pior. Em maio, véspera do Mundial, veio à tona um dos maiores escândalos da história do futebol italiano: o Calciopoli.

Luciano Moggi (à esquerda), gerente de futebol do Napoli na passagem dos anos 1980 para 1990, e Corrado Ferlaino (à direita), presidente do clube. Foto: Wikipedia.

Naquela temporada, 2005-06, Juventus e Milan disputavam ponto a ponto o título nacional. Foi quando surgiram gravações telefônicas, ainda da época passada, que mostravam Luciano Moggi e Antonio Giraudo, principais diretores da Vecchia Signora, influenciando os chefes da arbitragem nacional. Eles tinham o poder de escolher quem iria apitar os jogos da equipe de Turim e de seus adversários, além de ditar qual comportamento eles deveriam ter durante as partidas. A Juventus acabou campeã naquele ano, mas o título foi pouco comemorado, justamente porque torcedores e jogadores sabiam da iminente punição que viria.

A Juve sofreu as sanções mais pesadas: teve revogado seus títulos das temporadas 2004-05 e 2005-06, foi rebaixada para a Série B de 2006-07, além de começar a disputa com -9 pontos. Após investigações, novos telefonemas incriminaram outros clubes. Assim, Fiorentina, Milan, Lazio, Reggina e Arezzo também foram punidos. Tudo isso conturbou ainda mais o ambiente na seleção. Porém, os torcedores italianos conheciam bem aquele cenário: pouco antes da disputa da Copa de 1982, um escândalo parecido, nomeado de Totonero, estourou no país.

O resultado daquele Mundial? Itália tricampeã do mundo.

Seria o destino aprontando de novo? Eles acreditavam que sim!

A fase de grupos e o surgimento de Materazzi

Marcello Lippi, um dos maiores vencedores do futebol europeu, era o responsável por tentar gerir aquela situação caótica. E, para melhorar o ânimo de seus comandados, usou toda aquela situação como combustível para chegar à final em Berlim. Movidos pelo lema “um por todos e todos por um”, eles iniciaram sua caminhada em solo alemão. Recheado de jogadores renomados, o time-base era formado por: Buffon; Zambrotta, Canavarro, Nesta e Fabio Grosso; Gattuso, Camoranesi, Perrotta e Pirlo; Totti e Luca Toni.

No primeiro compromisso, a Itália teve como adversária a seleção de Gana, que já contava com nomes importantes como Essien, Asamoah Gyan e Muntari. Em partida morna, os gols de Pirlo e Iaquinta, um em cada etapa, foram suficientes para garantir os três pontos e a estreia com o pé direito.

Na sequência, outro duro oponente: os Estados Unidos. Gilardino fez o primeiro dos italianos, mas, poucos minutos depois, o zagueiro Cristian Zaccardo fez um gol contra. O primeiro dos únicos dois gols que a Itália sofreria no torneio. Como se já não fosse o bastante, outro duro baque viria: De Rossi, nome de confiança de Lippi, deu uma cotovelada no rosto de McBride e foi expulso. Como punição, só poderia retornar numa eventual final. Na cabeça de muitos, a Copa para o volante se encerrava ali. Os italianos sofriam uma baixa importantíssima.

Apesar de os norte-americanos terem perdido Pablo Mastroeni e Eddie Pope, ambos por cartão vermelho, o placar não foi mais alterado, e o jogo terminou em 1 a 1.

Para encerrar a fase de grupos e tentar selar a classificação, mais um teste de fogo para a Azzurra. Dessa vez, contra a República Tcheca de Peter Cech, Nedved e Milan Baros. E foi quando mais uma adversidade surgiu. Alessandro Nesta, que vinha fazendo uma ótima Copa e formando uma sólida dupla de zaga com Cannavaro, sofreu uma lesão que o obrigou a sair de campo.

E para não mais voltar naquele Mundial.

Marco Materazzi, durante a Copa do Mundo de 2006, na Alemanha. Foto: Wikipedia.

Enquanto o zagueiro apalpava a parte posterior da coxa direita, os torcedores italianos levavam as mãos à cabeça. Eram dois duros golpes em sequência e, naquele instante, a classificação e a chance de título não poderiam parecer mais distantes.

Porém, para a sorte de Lippi e dos italianos, esse problema veio acompanhado de uma solução. Como substituto, o escolhido foi Marco Materazzi, jogador da Inter de Milão, mas que havia passado boa parte da carreira jogando nas divisões inferiores do país. O camisa 23 estava longe de ser uma unanimidade naquele elenco.

O que ninguém tinha ideia era de que ali se iniciava a saga de um dos personagens que marcariam aquela Copa e que se envolveria num episódio que entraria para a história do futebol.

Para surpresa geral, foi de Materazzi, de cabeça, o gol que abriu o placar contra os tchecos. O sempre importante Filippo Inzaghi, na segunda etapa, fez mais um e garantiu a Azzurra na próxima fase.

A tensão no mata-mata

Nas oitavas de final, o adversário da vez seria a Austrália, que havia eliminado o Uruguai ainda na repescagem por uma vaga na competição, e que, na fase de grupos, fez uma dura partida contra o Brasil.

O duelo era nervoso. Na medida em que o tempo passava, menos as equipes queriam atacar. A Itália que o diga, uma vez que Materazzi acabou sendo expulso – pois é, olha que coisa – no início da segunda etapa. Tudo indicava uma prorrogação, e os italianos já começavam a ver o seu maior trauma se aproximar: a disputa por pênaltis. Eles jamais haviam vencido uma em Copas do Mundo.

Foi quando uma luz no fim do túnel surgiu: já nos acréscimos, Grosso recebeu no lado esquerdo e invadiu a área contra a marcação de Lucas Neil. Em lance controverso, o juiz assinalou pênalti. Coube a Francesco Totti bater e garantir o avanço para a próxima fase.

Nas quartas, era hora de encarar a Ucrânia, que fez sua parte ao avançar em um grupo com Espanha, Tunísia e Arábia Saudita, mas que sofreu para furar a retranca suíça nas oitavas, conquistando a vaga apenas nos pênaltis. Na disputa, os suíços erraram todas as cobranças e, mesmo sendo eliminados, conseguiram a façanha de saírem do Mundial sem sofrer gols.

Aquela foi a partida mais tranquila da Azzurra no torneio. Um 3 a 0 sem maiores preocupações, com um gol de Zambrotta e dois do centroavante Luca Toni, que já vinha sendo cobrado pela falta de gols.

Restava apenas mais um passo antes da tão sonhada final. E, se a vida dos italianos na competição já não vinha sendo um mar de rosas, não seria agora que se tornaria. Dessa vez, uma missão mais que indigesta: bater os donos da casa.

Em campo, seis títulos mundiais, três para cada lado. Um deles decidido entre os dois, com vitória italiana em 1982. A Alemanha queria revanche. Já a Itália desejava vingar a Copa de 1990, quando os alemães venceram jogando na “bota”.

Como apontavam os prognósticos, a partida foi equilibrada, tanto que o placar permaneceu zerado no tempo normal. Na prorrogação, a superioridade da equipe de Marcello Lippi foi refletida em gols. Primeiro com Grosso, após linda jogada de Pirlo. Depois, uma aula de contra-ataque que escancarou as habilidades individuais: roubada de bola de Canavarro; passe de Totti; drible e assistência de Gilardino; finalização fenomenal de Del Piero.

E assim, superando todas as desconfianças, a Itália chegava à final da Copa do Mundo.

O apogeu do Bad Boy, o adeus melancólico e a glória máxima

Se a Itália era “intrusa” naquela final, a França confirmava o favoritismo. E crescendo ao longo da competição, tendo eliminado Espanha, Brasil e Portugal durante a campanha. Com uma geração espetacular, contava com o retorno do ídolo Zinedine Zidane, que deixou a aposentadoria para disputar o Mundial. Essa final seria, de fato, a última partida de sua brilhante carreira.

Os italianos queriam vingança após as eliminações na Copa de 1998 e na Eurocopa de 2000. Já para os franceses, a chance da consagração. Ingredientes para um grande jogo não faltavam.

Levar um gol é ruim. Logo no início da partida, pior. Se é numa final, então….

Aos cinco minutos de jogo, o francês Malouda recebeu passe dentro da área e foi derrubado.

Por quem? Ele mesmo: Marco Materazzi. Pênalti para a França.

Na cobrança, um show. Zidane deu uma leve cavadinha na bola. Ela subiu mansinha, tocou de leve o travessão e, em seguida, o fundo do gol. 1 a 0.

Poucos minutos depois, a resposta italiana. Após escanteio cobrado por Pirlo, um zagueiro subiu mais que todos na área e mandou para o fundo do gol.

Seu nome? Marco Materazzi.

Era a redenção do italiano, que deixava o jogo em igualdade novamente. E ela seguiria até o fim do tempo regulamentar. Era na prorrogação que o maior plot twist do nosso enredo estava guardado. E envolvia os dois personagens da partida até aqui.

Foi um tempo extra “morno”, com as equipes se expondo pouco. Na melhor chance, mais uma vez Zidane apareceu: uma cabeçada forte que parou numa emblemática defesa do goleiro Buffon.

Foi quando uma cena chocante aconteceu.

Após ser provocado por Materazzi, Zidane perdeu a índole do homem frio que demonstrava ser: se virou e acertou uma cabeçada no peito do rival. O árbitro argentino Horácio Elizondo não viu o lance, mas, ao ser avisado pelo seu auxiliar, não titubeou e mostrou o cartão vermelho a Zidane.

O ídolo francês ia de herói a vilão. Principal nome da equipe na competição, deixava os companheiros sozinhos em um momento para lá de crucial. No último jogo de sua carreira, um adeus melancólico. Já Materazzi atingiu seu ápice de importância no grupo italiano. O Bad Boy tomou o caminho contrário e foi de vilão a herói, com direito a tirar da partida o principal jogador rival. Passou de figurante a personagem principal dessa história.

O empate persistiu e não havia outra saída. A Copa do Mundo de 2006 seria decidida nas cobranças de pênaltis. Mais uma vez, a Itália teria de enfrentar o seu pior pesadelo.

Pirlo abriu a disputa para os italianos e marcou. Wiltord converteu para os franceses. Materazzi, debaixo de sonora vaia, também fez. Trezeguet, responsável por anotar a cobrança que eliminou a Itália da Eurocopa de 2000, perdeu. De Rossi, voltando de suspensão – olha só, quem apostaria que ele voltaria a jogar nesse Mundial? – fez 3 a 1 Itália. Abidal, Del Piero e Sagnol marcaram as cobranças seguintes.

4 a 3 no placar.

Caiu nos pés de Fabio Grosso a responsabilidade de converter a última cobrança italiana. A que garantiria o título. Outro importante nome nessa trajetória, era justo que tudo acabasse com ele.

E assim foi: o lateral partiu em direção a bola lentamente e, com classe, disparou um chute no ângulo superior esquerdo do goleiro Barthez.

Berlim agora era palco para festa. A Itália, superando todas as desconfianças, sagrava-se tetracampeã mundial. Assim como em 1982, passando por cima das polêmicas. Assim como o Brasil, 24 anos após a conquista do tricampeonato. Pela primeira vez na história, vencendo uma disputa de pênaltis em Copas do Mundo.

Esse sim é um belo roteiro de Hollywood.

Como citar

LIMA, Dyego. Quando a vida beira a arte: o hollywoodiano tetracampeonato mundial da Itália. Ludopédio, São Paulo, v. 131, n. 5, 2020.