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Quando Didi driblou a “ordem das coisas”

José Costa Júnior

1. Um esporte para “cavalheiros”

O futebol, conforme o conhecemos hoje, foi criado na segunda metade do século XIX por e para ingleses. Mas não para todos os ingleses. Nesse início, tratava-se de um esporte para “cavalheiros”, isto é, jovens bem-nascidos com tempo livre e recursos para praticar o novo esporte. Recuperando elementos de várias modalidades, criou-se um esporte relativamente fácil de ser praticado para os seus primeiros praticantes, porém pouco acessível para a maioria das pessoas daquela Inglaterra. O esporte pretensamente exigia, além da estrutura citada acima, um certo “traço de caráter” que só uma elite letrada e plenamente educada possuiria. Ápice da civilização, aquele grupo estava apto à prática do esporte devido ao lugar que ocupava na escala dos seres humanos, acima dos outros povos e no topo da própria sociedade inglesa. O respeito à disciplina e a à ordem, sem deixar que o jogo impactasse suas emoções, seria o exemplo da necessidade de manter o jogo entre essa aristocracia.

É no contexto das últimas décadas do século XIX que o “esporte bretão” foi praticado nas grandes instituições educacionais da elite inglesa, entre elas as prestigiosas universidades de Oxford e Cambridge, e por estudantes e ex-estudantes do secular Eton College (que seria por vezes campeão da Copa da Inglaterra). Ali, os jovens das famílias tradicionais britânicas jogavam futebol, pouco abertos aos desejos de ampliação do esporte para as massas. Os primeiros grupos de trabalhadores das classes mais baixas e estrangeiros que se interessavam pelo esporte não eram bem recebidos pelos grupos da elite, uma vez que seria um grande retrocesso que “homens comuns” jogassem um esporte próprio de “cavalheiros” e “homens diferenciados”. A “ordem das coisas” deveria sempre ser respeitada e as pessoas deveriam se manter sempre “em seus lugares”.

Cena retratada na série The English Game. Foto: Divulgação/Netflix.

Na sociedade britânica dos momentos posteriores à Revolução Industrial, algumas ideias eram centrais e sustentavam essa visão de mundo. Uma dessas ideias é conhecida como “darwinismo social”, e trata-se de uma má apropriação da hipótese apresentada pelo naturalista britânico Charles Darwin sobre o desenvolvimento natural das formas de vida. Um dos principais defensores do darwinismo social é Herbert Spencer, um teórico que defende em 1851 que “a sociedade está constantemente excretando seus membros insalubres, imbecis, lentos, vacilantes e sem fé”. Tal concepção é disseminada como “sobrevivência do mais apto” e naturaliza as desigualdades entre os seres humanos, evidenciando a necessidade de manutenção daquilo que é “superior” e eliminação daquilo que é “inferior”, em nome do “progresso”. Noções de “competitividade”, “produtividade” e “supremacia” são determinantes aqui, para manutenção da “ordem das coisas”. É importante ressaltar que todos esses elementos com aspas são estranhos à hipótese darwiniana, pautada em circunstâncias de mudança e contexto.  

Uma outra concepção comum nessa sociedade envolve ideias racialistas, isto é, explicações das diferenças e desigualdades humanas pautadas em critérios de raça. Sob influência do francês Arthur Gobineau (1816-1882) e seu Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas (1855), as sociedades britânicas e europeias compartilhavam a ideia de sua superioridade em relação aos outros povos do mundo. Tal característica é fundamentada pela capacidade do “homem europeu” para controlar seus próprios instintos, produzindo cultura e civilização, e ser capaz de dominar e assim contribuir para a civilização de outros povos. Nesse sentido, a mistura das raças, a miscigenação, seria problemática uma vez que “subverte” os seres humanos, contribuindo para a “degeneração” das raças humanas. Também é importante ressaltar que essa concepção não encontra apoio nas pesquisas da biologia contemporânea, que aponta justamente para a inexistência de raças humanas do ponto de vista da biologia.

Nesse contexto, a sociedade na qual o futebol se desenvolve e se organiza está envolvida por crenças de superioridade e racialismo, que sustentarão tentativas de restrições à prática do esporte por parte da maioria das pessoas – principalmente trabalhadores, pobres e estrangeiros. No entanto, essa tentativa de manter o “esporte bretão” em separado do mundo, disponível apenas para uma pequena aristocracia local em seus campos e escolas, seria frustrada, como bem sabemos hoje, nós, homens e mulheres comuns espalhados pelo mundo afora, que jogamos, torcemos e nos envolvemos com futebol. No entanto, atitudes de superioridade e racialismo ainda se mantiveram no esporte, sempre na tentativa se manter “tudo como está”.

2. O football encontra a mestiçagem

Acompanhando o ritmo da globalização no final do século XIX e começo do século XX, o futebol acompanhou os passos britânicos pelo mundo, chegando em muitos países durante esse período. No Brasil, o esporte chegou aos grandes centros praticado por grupos próximos da sua Inglaterra local: jovens ingleses e seus parceiros, estudantes e profissionais ligados às empresas que aqui atuavam. É o caso do engenheiro Charles Miller, que em 1894 trouxe os primeiros equipamentos mais sofisticados para a prática futebolística, juntamente com um livro de regras e um desejo de promover o esporte no país. Em pouco tempo, os jovens de “boa família” de São Paulo e do Rio de Janeiro passaram a praticar e organizar o “esporte bretão” em seus clubes e escolas. Algumas concepções de superioridade e distinção mantiveram-se: o football era um esporte para cavalheiros e “homens diferenciados”, impróprios para gente comum; logo, deveria ser mantido entre os membros das boas sociedades da época.

No entanto, o esporte encontra aqui uma sociedade única, fruto da junção de nativos, escravizados e colonizadores, num experimento poucas vezes observado na história humana. O fim da escravização era recente, com tensões e desarmonias próprias de sociedades com extrema desigualdade e pouca atribuição de cidadania. A aristocracia, com suas práticas e costumes, buscava replicar a “civilização” europeia, em detrimento do restante da população brasileira de então. Um exemplo é a tentativa de branqueamento do povo brasileiro, pautada nas concepções racialistas de Gobineau, propostas nas políticas públicas da época. A miscigenação era, assim, um desafio para essa aristocracia e o futebol deveria se manter distante das camadas mais baixas dessa gente. Porém, com a disseminação do esporte, manter essa barreira seria cada vez mais difícil, uma vez que, a própria facilidade da prática do futebol contribuiria para a sua massificação. Cada vez mais pessoas jogavam futebol no Brasil no começo do século XX, uma sociedade estruturalmente desigual e pouco afeita à aproximação entre as classes, revelando talentos e possibilidades poucas vezes observadas.

O histórico time do Vasco campeão carioca em 1923 com negros, pobres e trabalhadores braçais. Foto: Reprodução.

Nesse contexto, clubes e associações esportivas organizavam-se, aproximando o jogo da maioria das pessoas. Dificuldades ligadas à profissionalização dos jogadores surgiram, assim como na Inglaterra, onde o esporte era praticado por “amadores”, que viam o pagamento como uma “degeneração” do esporte. Esses jovens ricos podiam manter a forma física e técnica em treinamentos, situação impossível para os trabalhadores. A solução para o impasse envolvia o pagamento desses jogadores, para que fosse possível uma dedicação maior ao esporte. A situação, naturalmente, depunha contra as origens aristocráticas, e “receber para jogar” passou a ser uma tensão. Porém, mesmo em meio a tais conflitos, pobres e pretos passaram a participar cada vez mais do esporte, contratados pelos grandes clubes, mais ainda assim limitados em seu acesso às sociedades nas quais se inseriam. Exemplo disso é a recomendação do então presidente Epitácio Pessoa, que em 1921 recomendou que o Brasil não levasse jogadores pretos à Argentina, para o Campeonato Sul-Americano. Segundo ele, era preciso lançar no exterior uma “outra imagem” nossa, composta “pelo melhor de nossa sociedade”.

Grandes jogadores de futebol que não se enquadrariam no que o então presidente identificou como “melhor de nossa sociedade” fizeram sucesso nas décadas iniciais do século XX, como Arthur Friedenreich, Leônidas da Silva e Domingos da Guia. O Brasil passou a obter cada vez mais sucesso nas competições, com a participação cada vez maior de mestiços e pretos, criando possibilidades e oferecendo inovações na prática do esporte. No entanto, nos dois primeiros campeonatos mundiais de futebol, realizados em 1930 e 1934, dificuldades de organização e de técnica não possibilitaram bons resultados. Um relativo sucesso veio na Copa do Mundo de 1938, realizada na França, com grande participação de Leônidas da Silva, artilheiro da competição e conhecido como “Diamante Negro”. Mesmo assim, tensões e concepções racistas ainda vigoravam nas sociedades do tempo, tanto no Brasil, quanto fora.

Nessa Copa, a Itália, que venceu o Brasil na semifinal, tornou-se bicampeã mundial (também havia ganhado em 1934). Nesse mesmo país, leis raciais seriam promulgadas no ano seguinte pelo ditador Benito Mussolini. No espírito do tempo, um jornal italiano da época descreveu a vitória sobre os brasileiros como o “triunfo da inteligência itálica contra a força bruta dos negros”. Já outro jornal, defendeu que o título representava “algo mais que vitória esportiva conquistada à custa de músculos e de inteligência em um torneio muito cansativo e insidioso. Para além da vitória atlética, resplandece a vitória da raça”, conforme nos aponta Hilário Franco Júnior, em A dança dos deuses. A desconfiança acerca da capacidade de uns e superioridade de outros mantinha-se e ainda iria nos assombrar muito.

3. Um fantasma

Devido à Segunda Guerra Mundial, um conflito pautado em algum nível por tensões raciais e ideais de superioridade, as Copas de 1942 e 1946 não foram realizadas. Enquanto isso, no Brasil das décadas de 1930 e 1940 o futebol deixava definitivamente de ser um esporte da aristocracia e se tornava cada vez mais popular, com gestos e movimentos cada vez mais diferentes e espontâneos, próximos da capoeira e do samba. Nesse contexto de um mundo pós-guerra e num país que cada vez mais amava e jogava o futebol, a Copa do Mundo de 1950 seria realizada no Brasil. O estádio do Maracanã foi construído para receber a grande festa e comemorar o provável primeiro título mundial do futebol brasileiro. No entanto, essa esperança revelou-se uma das histórias mais tristes da nossa memória esportiva.

Após grandes apresentações, o time formado por talentosos jogadores chegou à final contra o Uruguai precisando apenas de um empate. Fez o primeiro gol, mas acabou sofrendo dois e perdendo o título no Rio de Janeiro. A expectativa inicial transformou-se numa grande frustração naquele 16 de julho de 1950, que entrou na memória brasileira em definitivo, conforme descrito por Paulo Perdigão no livro Anatomia de uma derrota. Perdido o jogo, uma explicação que retomava concepções antigas apareceu: o Brasil perdeu o jogo e a Copa pois o brasileiro é um tipo inferior, devido principalmente à nossa mestiçagem; mesmo sendo um grande craque, Zizinho não seria capaz de superar o grande Obdúlio Varela, “homem de fibra e de raça”, líder do meio campo uruguaio. Barbosa, Juvenal e Bigode, todos pretos, “frágeis e pouco confiáveis”, participaram dos lances que originaram os gols uruguaios e foram vistos por muitos como os responsáveis pela derrota.

Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1950. Foto: Wikipedia.

Na Copa do Mundo de 1954, realizada na Suíça, após vencer e empatar os dois primeiros jogos, a seleção brasileira foi eliminada pela Hungria, conhecida como “Os mágicos Magiares”, um dos maiores times da história do futebol mundial. O time do país então comunista contava com o mítico ataque formado por Czibor, Kocsis, Hidegkuti e Puskás, todos treinados pelo também legendário técnico Gusztáv Sebes. Após a partida, uma briga generalizada tomou conta do gramado, que fez com que o jogo passasse a ser conhecido como “A Batalha de Berna”. Mais uma vez, o “brasileiro frágil e pouco civilizado” perdia para o “grande homem europeu” e caia na brutalidade. Para muitos, a Copa do Mundo, uma competição de homens fortes e civilizados, jamais poderia ser do Brasil.

O escritor brasileiro Nélson Rodrigues identificou esse traço antropológico, sociológico e psicológico como “complexo de vira-latas”, uma sensação de inferioridade frente a outros povos que se manifestava na seleção brasileira de futebol nos campeonatos mundiais de futebol de maneira decisiva, uma vez que encontrávamos ali a superioridade. Numa crônica de 31 de maio de 1958, antes da Copa do Mundo que seria realizada na Suécia, Rodrigues aponta:

“Por ‘complexo de vira-latas’ entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos ‘os maiores’ é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Porque, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo. Na já citada vergonha de 1950, éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a vantagem do empate. Pois bem: – e perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: – porque Obdúlio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos.”

O escritor faz referência a uma partida da seleção brasileira contra a seleção da Inglaterra no prestigioso estádio de Wembley, quando o Brasil perdeu por 4 a 2 e foi ridicularizado pela imprensa local. Segundo a análise de Rodrigues, o time brasileiro seria inferior ao time inglês tanto em termos esportivos, quanto em termos morais. E continua:

“Eu vos digo: – o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender lá na Suécia. Uma vez que ele se convença disso, ponham-no para correr em campo e ele precisará de dez para segurar, como o chinês da anedota. Insisto: – para o escrete, ser ou não ser vira-latas, eis a questão.”

4. O drible do “Príncipe Etíope”

O brasileiro Waldir Pereira, conhecido mundialmente como Didi, jogou a Copa do Mundo de 1954 e também vivenciou o desastre de 1950 como espectador. Homem preto, de família pobre do interior do estado do Rio de Janeiro, jogou em grandes clubes do país e do exterior, e chegou para a Copa da Suécia como um dos líderes do time, aos 30 anos de idade. O time era formado por bons jogadores, mas sobre o qual recaíam desconfianças esportivas, psicológicas e raciais. Nossos jogadores, pobres e mestiços em sua maioria, seriam capazes de jogar de igual contra os europeus? Entre elas, o jovem Pelé de 17 anos e o curioso Mané Garrincha, com as pernas tortas, que pouco lembrava um atleta profissional. Treinados por Vicente Feola, o time brasileiro tinha um bom retrospecto nos jogos anteriores e tinha boas expectativas, ao contrário da receosa e cética imprensa brasileira.

Os primeiros jogos seriam grandes desafios: Áustria, Inglaterra e União Soviética. Contra os austríacos, vitória brasileira por 3 a 0, seguida por um empate por 0 a 0, contra os ingleses. No terceiro jogo, contra os fortes e racionais soviéticos, liderados pelo defensor Igor Netto, uma vitória por 2 a 0. Nesse jogo, Didi sugeriu ao técnico Feola que colocasse Pelé e Garrincha, que curiosamente estavam no banco de reservas. Já na fase eliminatória, vitória pelo placar mínimo contra Gales e uma grande exibição brasileira (5 a 2) contra o forte time da França, de lendas do esporte como Kopa, Fontaine e Piantoni, Classificados para a final, tendo enfrentado e vencido grandes seleções europeias, o Brasil chegava à final contra a anfitriã Suécia, formada por jogadores loiros e altos, que jogariam na presença do seu rei Gustavo Adolfo VI.

Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1958. Em pé: Vicente Feola (técnico), Djalma Santos, Zito, Bellini, Nilton Santos, Orlando, Gylmar. Agachados: Garrincha, Didi, Pelé, Vava, Zagallo. Foto: Wikipedia.

Logo no começo do jogo, o Brasil tomou um gol e, mais uma vez, o fantasma da inferioridade apareceria. Novamente, para muitos, chegamos perto, mas aquele sucesso não seria para brasileiros. Após esse primeiro gol sueco, um fato que chamou a atenção da crônica esportiva aconteceu: Didi atravessou o campo e pegou a bola no fundo do gol defendido por Gilmar; tranquilamente retomou ao meio do campo, orientando civilizadamente o time brasileiro, com calma e atenção. Como um professor, falou, e gesticulou, e reiniciou o jogo; logo na sequência, fez um longo lançamento para Mané Garrincha, que quase faz o gol. Momentos depois, o Brasil faria o gol de empate e ampliaria o placar para 5 a 2, conquistando seu primeiro título mundial com grande atuação de Didi.

Após o jogo, o Rei Gustavo Adolfo VI entregou a taça para o Brasil e apertou a mão de Didi, chamando-o de “Mr Football”. O gesto é simples, mas cabe reflexão sobre o que significa: um rei de uma tradicional monarquia europeia apertando a mão de um homem preto e pobre do distante Brasil, reconhecendo suas capacidades e inteligência. Situação parecida foi quando a imprensa europeia chama Didi de “Napoleão Negro”, dado o modo como comandou o time brasileiro, com tática e astúcia. Também não deixa de ser curioso o nome de um europeu conhecido por suas ações de liderança e potência apelidar um jogador de futebol do Brasil, que provavelmente teve seus ancestrais escravizados.

Após o Mundial de 1958, Nélson Rodrigues iria retomar a questão que lhe trazia preocupações, agora com o título e com a grande atuação e civilidade de Didi, a quem Rodrigues chamava de “Príncipe Etíope”. Em suas palavras, numa crônica de 5 de julho de 1958, uma semana após a conquista brasileira, ele nos diz:

“A partir deste Mundial, o brasileiro começa a ter uma nova imagem de Didi. Repito: passa a ver Didi como um homem de bem. Pois nós sabemos que nenhum escrete levanta um campeonato do mundo sem extraordinárias qualidades morais. De nada adiantará o futebol se o homem não presta. O belo, o comovente, o sensacional no triunfo de ontem está no seguinte: – foi, antes de tudo, o triunfo do homem. […] Quando o rei Gustavo da Suécia veio apertar-lhe a mão, eu imaginei ao ouvir no rádio a descrição da cena: – dois reis! Pois Didi, como sempre tenho dito aqui, lembra um rei ou príncipe etíope de rancho.”

5. Folhas-secas

A primeira vez que ouvi sobre Didi foi no início dos anos 1990, quando meu pai descreveu um tipo de chute na bola identificado como “folha seca”, muito bem executado por Didi. Nomeado pelos cronistas da época, a bola subia e descia repentinamente, assim como as folhas secas que caem de maneira pouco previsível no outono. O segundo gol do Brasil na semifinal da Copa de 1958, contra a França, mostra bem esse efeito. Não tivemos oportunidade de refletir juntos sobre o que Didi significava para ele e para mim – meu pai morreu em 1996 –, mas acredito que ele compartilharia muito do que foi abordado aqui. Homem preto, nascido em 1940, viveu e tragédia de 1950 e a vitória em 1958 e deve ter se identificado muito com todos aqueles jovens pretos e mestiços que foram campeões, contrariando a “ordem das coisas”.

Didi com a camisa da seleção brasileira.

Na biografia de Didi, escrita pelo jornalista Péris Ribeiro, ele conta como começou a chutar dessa maneira. Após sofrer uma contusão no tornozelo e sofrer com dores no pé, não conseguia mais chutar normalmente. De maneira alternativa, começou a bater na bola com o outro lado do pé, criando o efeito diferenciado que fazia com que a bola caísse de forma repentina, surpreendendo os goleiros. Para Didi, um ex-mecânico automotivo, buscar soluções alternativas poderia ser comum. Para Didi, um brasileiro, preto, pobre e jogador de futebol, soluções alternativas (ou “gambiarras”) podem muitas vezes ter sido necessárias para a própria sobrevivência. Didi também tinha uma perna menor do que a outra, devido a uma falta violenta que sofreu no início da carreira. Essa situação fazia com que ele tivesse que pensar rápido em dribles e passes, para evitar que se desequilibrasse ou que a bola fosse tomada.

Depois da Copa do Mundo, Didi jogou em outros países (inclusive no Real Madrid em 1959, com Puskas e Di Stéfano), e tornou-se um técnico de sucesso. Rodou o mundo, implantando uma metodologia de jogo pautada na organização e na inteligência tática e técnica. Aqui também podemos refletir sobre os preconceitos que rondavam (e ainda rondam) o futebol, uma vez que um dos maiores jogadores da história do esporte não retratava aquilo que a aristocracia que inventou o esporte esperava. Contrariando essa visão, Didi mostrou-se um grande pensador do futebol, capaz de ações e criações que em muito superavam os adversários, além de evidenciar a necessidade de reconhecimento constante da igualdade entre os seres humanos. E foi assim que Didi driblou a “ordem das coisas”.

Referências

ELIAS, Norbert. DUNNING, Eric. A busca da excitação. Lisboa: Difel, 1992. (1985)

FILHO, Mário. O negro no futebol brasileiro. Rio de Janeiro: Mauad Editora, 2003. (1946)

FRANCO JÚNIOR, Hilário. Dança dos deuses: futebol, cultura e sociedade. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

PERDIGÃO, Paulo. Anatomia de uma derrota. Porto Alegre: L&PM Editores, 1986.

RIBEIRO, Péris. Didi: O gênio da folha seca. São Paulo: Gryphus Editora, 2014.

RODRIGUES, Nelson. A pátria de chuteiras. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2014.

RODRIGUES, Nelson. À sombra das chuteiras imortais. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

WISNIK, José Miguel. Veneno remédio: o futebol e o Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.