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Quando é só futebol

Leandro Marçal

Para além dos milhões que movimentam um mercado tão lucrativo quanto sujo, o futebol é presente em nossas vidas brasileiras desde a infância de forma lúdica, gostando ou não – pois acreditem: há quem desgoste desse esporte em sua essência.

Baseamos muitas lembranças tendo como referências anos de Copas do Mundo ou de títulos marcantes para nós: “dei meu primeiro beijo no ano do título tal, entrei na faculdade às vésperas da Copa da África, fiz isso na semana do 7 a 1” são exemplos de falas com as quais já nos deparamos.

Dentro de nosso imaginário sobre a coisa mais importante entre as menos importantes, em tempos de tanta descrença no futuro e em que proposições rasas tendem a juntar mais gente em grupos e páginas de Facebook, um clichê é entoado tão incessantemente que até perdeu sentido e graça, ainda que haja seus fieis seguidores como em uma religião extremista: “não é só futebol”.

Basta pegar algum vídeo ou foto com potencial para comover as pessoas, como crianças ou velhinhos em estádios ou algum demagogo desse meio tomando alguma atitude decente e rara que já se disparam como uma metralhadora: “não é só futebol”.

Curioso perceber que tal chavão, tão batido quanto os gritos de “time de guerreiros” e “raça!” nos momentos em que a técnica é velada em caixão lacrado, não é entoado quando a face podre do humano é exposta em ambientes desse esporte tão justamente cultuado, apesar do clichê.

Quando pedaços de pau e pedras voam em brigas de torcida ou confrontos contra a polícia em estádios colocando em risco a segurança de nossas esperanças em um mundo menos perverso… “não é só futebol”?

Rio de Janeiro - Futebol feminino do Brasil perde semifinal nos pênaltis para Suécia no Maracanã e vai disputar o bronze (Fernando Frazão/Agência Brasil)

“Não é só futebol”. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil.

Nos momentos em que imbecis acreditam que uma partida lhes dá o direito a descumprir leis e regras de convivência em sociedade, tal clichê ainda é válido?

Já que “não é só futebol”, o que são os ingressos caríssimos das arenas elitistas, os escândalos de estádios superfaturados desde a Copa do Mundo, a impunidade reinante na FIFA, CBF, federações, empresários e jogadores mais preocupados em sonegar impostos em transações cujas cifras movimentadas em questão de meses não serão alcançadas pelo trabalhador comum em uma vida inteira, mesmo que multiplicadas por duas ou três encarnações?

Em outros momentos, jogadores usam de seu prestígio e tomam atitudes que deveriam ser menos raras, tais como ajudas aos mais necessitados, declarações relevantes à sociedade além das quatro linhas (sim, eles são capazes disso!) e já surge a máxima: “não é só futebol”! Pobres dos homens e mulheres comuns que não têm o privilégio hipócrita de receber elogios coletivos por boas atitudes.

O futebol – que já abandonou há décadas os princípios que definem o que é um esporte, que melhor se assemelha à vida em suas idiossincrasias e falta de sentido, que nos torna cegos diante das obviedades tapadas pela paixão exacerbada, que engana e manipula quem o leva a sério demais e não enxerga o mundo ao seu redor – deve ser encarado como mais do que alguns caras chutando uma bola, claro. Mas pensar que tudo o que acontece ali deva ser romantizado ou que jogadores com pequenas e raras atitudes são superiores a um trabalhador comum já é coisa de quem não sabe diferenciar a ficção da realidade.

Ele transcende o esporte sim, mas deve se desapegar também dos clichês facebookianos das páginas que “odeiam o futebol moderno” enquanto se utilizam das redes sociais e sua máquina de multiplicar idiotas para espalhar falácias de deixar o fantástico mundo de Bob com inveja.

Muitas vezes, o futebol é “só” isso: futebol. Em outras, nós é que não somos mais do que papagaios de lugares-comuns.

Como citar

MARçAL, Leandro. Quando é só futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 95, n. 33, 2017.