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Quando o Colo Colo adiou o golpe de Pinochet

Maurício Brum

“Que lástima que a Copa comece para nós justo quando o povo está pendente de outras coisas, de cálculos de probabilidades, de enquetes, de marchas e proclamações!”. O lamento é de um torcedor do Colo Colo, logo no início de uma crônica da revista chilena Estadio, que anunciava em manchete: “Começou a voragem da Copa”.

A Copa, claro, era a Libertadores.

O Colo Colo de 1973, em mural pintado em 2013 pelo coletivo “Campeones de Estampa”.

Colo Colo e Unión Española, os times que o Chile mandou para disputar o título continental em 1973, abriram o torneio na noite de 1º de março, em confronto direto. Apenas três dias depois, num domingo, o país celebraria eleições parlamentares para renovar 25 senadores e 150 deputados. Ninguém poderia saber, mas aquelas seriam as últimas eleições livres realizadas no Chile pelos 16 anos seguintes.

O governo de Salvador Allende entrou 1973 vivendo sua crise final. O plano de realizar uma transição pacífica ao socialismo, dentro da legalidade e da democracia, havia sido gradativamente despedaçado pelas sabotagens internas, os boicotes internacionais, os equívocos do próprio governo. O pleito de 4 de março era decisivo para os planos da oposição, que precisava de dois terços do Parlamento para fazer passar um processo de impeachment. Não conseguiu. Apesar da forte crise econômica, os candidatos governistas aumentaram a participação da esquerda no Congresso, chegando a 44% dos assentos. Sem impeachment e nem vontade de dialogar, já não havia alternativa constitucional para interromper o mandato de Allende — e a engrenagem do golpe começou a se mover.

Era cedo demais para prever os próximos passos, embora muitos temessem — ou desejassem — um levante dos militares, como não faltavam exemplos em toda a América Latina. A única certeza naquele início de março veio no campo do Estádio Nacional de Santiago: o Cacique era mesmo o melhor time do Chile, capaz de sonhar com uma boa campanha Copa. Com uma vitória de 5 a 0 sobre os hispanos, abria-se a jornada que transformaria o Colo Colo no primeiro clube chileno a decidir o maior título do continente.

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Colo Colo e Unión Española, os chilenos na Libertadores de 1973.

Quando chegou ao comando do clube, em 1972, o técnico Luis Álamos viera acompanhado da promessa de abrir as portas para o futuro. Enquanto o mundo do futebol começava a olhar para a revolução promovida pelo Ajax de Rinus Michels, que logo passaria à Seleção Holandesa, muitos analistas chilenos viam em Álamos o homem mais capacitado a fazer algo parecido nos gramados sul-americanos.

O Chile não era exatamente o país mais vitorioso do continente, mas a responsabilidade depositada nos ombros do novo treinador colocolino tinha justificativa: na prancheta de Álamos havia sido montada uma das grandes equipes que o país já vira, o “Balé Azul” da Universidad de Chile — um esquadrão que venceu quatro campeonatos nacionais em sete temporadas e também havia derrotado o Santos de Pelé no verão de 1963, em meio ao bicampeonato mundial do Peixe. Aquele time fora a base do selecionado chileno que conquistou o jamais repetido terceiro lugar na Copa do Mundo disputada em casa.

O Colo Colo, contudo, tinha mais potencial que La U. Tratava-se do clube mais popular do país, e provavelmente o mais famoso além das fronteiras nacionais.

O Chile sonhava com relevância e projeção internacional. E aqueles eram anos propícios: assim como existia um enorme interesse sobre o experimento socialista de Salvador Allende, colocando o país no primeiro plano da geopolítica da Guerra Fria, a imprensa esportiva parecia desejar que o sucesso do Colo Colo também tirasse os chilenos da periferia do futebol.

Álamos foi rápido em fazer jus às expectativas. Sob suas ordens, tendo em Carlos Caszely um líder técnico e mental dentro de campo, ainda em 72 o Albo conquistou um novo título chileno. O futebol ousado impressionou: viço, velocidade e bom toque de bola, com diferentes jogadores chegando à cara do gol prontos para trucidar o arqueiro que aparecesse pela frente. Em mais da metade das suas partidas pelo campeonato nacional, o Colo Colo marcou três ou mais gols. Ao todo, foram 90 em 34 jogos — a Unión Española, vice-campeã, anotou apenas 48. Era um futebol ofensivo diferente do que o Chile já vira até então. Em vez de uma, várias referências de qualidade. Algo explicitado em um detalhe: apesar de ter o melhor ataque da competição com sobras, o Cacique não fez o artilheiro do campeonato.

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Com o troféu, estava superado o teste no cenário doméstico. Mas muitos já haviam trilhado esse caminho: brilho intenso dentro de casa e fracasso no momento em que o passaporte era carimbado. Vencer na Libertadores seria a única maneira de comprovar que o futebol chileno era capaz de evoluir. E vencer na Libertadores não era tarefa fácil para um chileno. Nas Copas dos anos 60 e 70, a cartolagem do país jamais soube dominar o “futebol de corredores” — o jogo político junto à Conmebol. Em meio a arbitragens escusas, violência de times e torcidas, negociatas de bastidores, doping e corrupção, a Copa sempre era vencida pelos mesmos. A Libertadores levou 20 edições para ser erguida por uma equipe além do eixo Argentina-Brasil-Uruguai (com o Olimpia paraguaio, em 79) e 30 para chegar a uma quinta nação (Nacional de Medellín, em 89).

Obrigado a vencer, o Colo Colo atropelou o Nacional do Equador.

 

No lado dos derrotados, que costuma ser descreditado como “choro de perdedor”, não faltam acusações de compras de arbitragem pelos “times do Atlântico”. Todas essas desconfianças apareceriam com força total quando o Colo Colo viesse a ser derrotado na final de 73, marcada por clamorosos erros que determinaram os resultados na ida e na volta. Mas isso seria depois. Nenhuma conspiração explicava a complexa situação em que o time se colocou no caminho até a decisão. Porque o Albo foi visivelmente superior a todos os times que enfrentou, mas ainda assim teve momentos em que penou para fazer o resultado. Depois de atropelar a Unión Española, a equipe esteve irreconhecível nas três rodadas seguintes: no Equador, 1 a 1 diante do El Nacional e derrota por 1 a 0 para o Emelec. De volta para casa, esteve apagado no novo duelo com a Española, agora empatado em 0 a 0. Mas, uma vez obrigados a vencer nas duas rodadas finais, os comandados de Álamos se portaram como se a tarefa fosse das mais fáceis: na revanche em Santiago frente aos equatorianos, o Colo Colo aplicou duas goleadas por 5 a 1, avançando ao triangular semifinal com tal supremacia que era como se jamais tivesse sofrido.

Talvez fosse a primeira vez que uma equipe chilena era tão superior aos adversários do continente que se dava ao luxo de calçar salto alto antes de enfrentá-los. Os albos venciam quando precisavam e sofriam nos jogos considerados fáceis. Em 6 de abril, o campeão chileno bateu o Botafogo no Rio por 2 a 1, no que foi a primeira vitória de uma equipe de seu país dentro do Maracanã, que então já contava 23 anos de vida. Só que, apenas cinco dias depois, aquela mesmíssima equipe viajou a Assunção e levou 5 a 1 do Cerro Porteño, um time que todos consideravam muito menos temível que o Fogo de Jairzinho, Marinho Chagas e do treinador recém-campeão do mundo Zagallo.

Equipe do Colo Colo com Salvador Allende em 1973: presidente chileno percebeu que o time era um raro fator de união nacional.

Entrevistado em 2010 pela El Gráfico chilena, o volante Guillermo Páez — titular em ambos os jogos — deu sua versão para a estranha sequência: faltava profissionalismo, explicou. As coisas pareciam tão fáceis para aquele Colo Colo que, mais de uma vez, a equipe se descuidou: “na noite do triunfo no Maracanã, sabendo que vinha outro confronto duríssimo no Paraguai, em vez de comer e irmos dormir de imediato, ficamos jogando cartas no hotel até às quatro de manhã, e meta-lhe caipirinhas”.

Outra vez, porém, o time fez os resultados quando precisou: em Santiago, devolveu o massacre sofrido diante do Cerro, aplicando 4 a 0. A passagem à final seria assegurada pela combinação de resultados nas duas últimas rodadas, com uma vitória do Botafogo sobre os paraguaios no outro jogo e um empate de 3 a 3 no confronto direto com os brasileiros em Santiago. Jamais uma equipe chilena havia chegado tão longe. “Já cumpriu”, estampou a Estadio em letras garrafais, garantindo que a história estava escrita “com Copa ou sem Copa”. Mas em muitas mesas de bar por todo o Chile começou a se discutir sobre o sonhado duelo das “novas escolas” que poderia vir a valer o título mundial, colocando aquele Colo Colo diante do tricampeão europeu Ajax.

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No dia 6 de abril de 1973, o Colo Colo bateu o Botafogo por 2 a 1, na primeira vitória de um time chileno no Maracanã.

Salvador Allende, um torcedor de La U, logo percebeu a importância que o sucesso do Colo Colo tinha para criar uma causa unitária num país dividido em todo o resto. O primeiro ano de Allende, 1971, havia sido marcado pela aceleração da reforma agrária, a nacionalização da mineração e dos bancos, a estatização de fábricas e diversas medidas sociais. Em pouco tempo, no entanto, os bons resultados socioeconômicos deram lugar a uma crescente crise.

Em 1973 o Chile passava por um forte desabastecimento de combustíveis e alimentos, uma exasperação na violência política nos dois extremos e uma inflação descontrolada. Cada vitória do Colo Colo passou a ser um suspiro de alívio no Palácio de La Moneda.

O presidente procurou receber a equipe nos salões presidenciais sempre que um resultado importante fosse registrado. Quando não podia, não falhava em enviar um telegrama de felicitações. Como registrou a revista Ercilla após o final da campanha: “quando atua [o Colo Colo], esquecem-se as tensões sociais. Estimula-se a solidariedade”, escrevia Enrique Ramírez, acrescentando que os jogadores “uniram o país por alguns dias”. Francisco Valdés, um dos goleadores da equipe, diria anos mais tarde ao jornalista Luis O’Nell: aquele time “passou à história como a equipe que atrasou o golpe de Estado e convocava multidões em plena greve do transporte. As pessoas repetiam que, enquanto o Colo Colo ganhasse, Allende estaria seguro”.

Valdés: “As pessoas repetiam que, enquanto o Colo Colo ganhasse, Allende estaria seguro”

Se é um exagero dizer que a Libertadores adiou o golpe de Pinochet, é certo que o Colo Colo era um raro fator de unidade. Após a vitória contra o Botafogo, por exemplo, o clube recebeu telegramas de felicitações das procedências mais variadas: tanto de Allende quanto do clube Naval, mantido pela Marinha, tanto das Juventudes Comunistas quanto dos militares lotados na base que o Chile mantinha na Antártica. Os dois lados sabiam que a equipe podia ser usada politicamente. Após os jogos no Brasil e no Paraguai, o governo pretendia receber o plantel em La Moneda. Francisco Fluxá, presidente da Federação Chilena e opositor de Allende, tratou de evitar: marcou um jogo do selecionado nacional contra o Haiti, no Caribe, para a semana da recepção. Base da seleção, o Colo Colo ficou reduzido a cinco jogadores e o encontro foi cancelado. Nem mesmo o treinador estaria presente: na metade de 1973, um idolatrado Luis Álamos passou a acumular as funções de técnico do Cacique e da Seleção Chilena.

 

Botafogo 1 x 2 Colo Colo, em pleno Maracanã

Os jogadores também conviviam costumeiramente com a polarização política da época. Carlos Caszely era um notório militante de esquerda, presente em diversos atos do governo. Já o brasileiro Elson Beyruth, revelado pelo Flamengo e fazendo carreira em Santiago desde 1965, encerrou sua passagem no Colo Colo em parte graças a uma mensagem politizada: Elson ameaçou deixar o clube se não recebesse um carro, prêmio prometido pelos dirigentes do clube pelo título nacional de 72. Sem dinheiro e com o automóvel ficando cada vez mais caro pela hiperinflação, o time não pôde cumprir o combinado. Alguns torcedores iniciaram uma vaquinha para comprar o veículo, até que um leitor escreveu para a Estadio: “É lógico que um operário, cujo salário ascende a um ou dois mínimos, dê seu aporte para financiar um soldo de 40 mil escudos de um jogador de futebol? É lógico que um modesto grupo de sócios respaldados pela imprensa organize uma coleta nacional para dar um auto a um jogador estrangeiro que ganha quarenta vezes mais que eles?”. A campanha foi descontinuada, Elson jamais ganhou o carro e deixou o clube durante o triangular semifinal da Libertadores.

Se o caso de Elson virou anedota, a militância de Caszely teve consequências pesadas: a imunidade que sua condição de ídolo nacional parecia garantir durante a ditadura não se estendia a seus familiares. Como retaliação pela inclinação política do jogador, a mãe de Caszely seria presa e torturada durante o regime de Augusto Pinochet.

Colo Colo na final da Libertadores. “Já cumpriu”, estampou a Estadio.

Desde 1964, quando o Independiente se tornou o primeiro clube argentino a erguer a Libertadores, as equipes daquele país só não haviam conquistado a taça duas vezes — em 1966 e 1971, anos em que foram finalistas mas caíram para a dupla de gigantes uruguaios. Ao longo daqueles anos, Racing e Estudiantes se somaram ao rodízio argentino que em 1973 voltava a ter no próprio Independiente o defensor do título. O Rojo lutava pelo bicampeonato, a meio caminho de um inédito e jamais repetido tetra. Começava a construir ali a mística que o transformaria no maior vencedor da Libertadores: sete Copas em sete finais. Nenhuma dessas decisões seria mais custosa do que aquela diante do Colo Colo. Ao longo de três jogos inteiros, a equipe argentina nunca foi superior. Duas vezes, só escapou da derrota por erros de arbitragem. No fim das contas, seriam três empates, um na casa de cada time e outro em Montevidéu. A final só se resolveu com um gol de Giachello para os argentinos, no segundo tempo da prorrogação do terceiro jogo.

O primeiro encontro se deu em Avellaneda. Mais tarde, os jogadores chilenos contariam que a cada lateral ou escanteio em que ficavam mais próximos da torcida argentina escutavam gritos de “muertos de hambre” e “comunistas”. A pressão e a violência, que faziam os times brasileiros desprezarem a Libertadores e os campeões europeus frequentemente se negarem a disputar o título mundial na América do Sul, não intimidaram os colocolinos. De fato, a equipe visitante saiu na frente: aos 25 minutos do segundo tempo, Sergio Messen lançou Leonardo Véliz em velocidade pela esquerda. Livre, Véliz avançou e cruzou na área em busca de Caszely, mas a bola não chegou até lá: no meio do caminho, o lendário zagueiro Francisco Sá, que depois viraria recordista em títulos da Libertadores (seis: quatro pelo Rojo, duas pelo Boca), tentou cortar de carrinho e marcou contra.

A vantagem, contudo, começou a se desfazer em seguida. Três minutos mais tarde, Ahumada saiu expulso, deixando os chilenos com dez. Mais dois minutos e veio o primeiro erro decisivo da arbitragem: após uma bola espirrada pela zaga do Colo Colo, o argentino Mario Mendoza subiu junto ao goleiro Adolfo Nef, na pequena área, empurrando-o quando tentava cabecear em gol. Com a falta, a bola entrou — e o uruguaio Milton Lorenzo validou o gol. Na frustração pelo que considerava um roubo, Guillermo Páez interrompeu a comemoração de Mendoza com um violento pontapé na entrada da área. E percebeu que a arbitragem, mal-intencionada ou não, era mesmo fraca: de costas, o árbitro não viu nem puniu a agressão.

Independiente x Colo Colo, a final da Libertadores de 1973.

Na volta, em Santiago, Luis Álamos pediu à equipe uma postura mais cautelosa do que o normal. O Colo Colo, que havia marcado 22 gols em cinco jogos como mandante, desta vez buscaria defender em primeiro lugar. Era mais importante não levar do que fazer, repetia o técnico: “se empatarmos, há o terceiro jogo”. Ainda assim, os chilenos estiveram muito próximos da vitória. Num dos lances mais espetaculares das três finais, Caszely fez fila na zaga do Independiente e bateu no canto direito do arqueiro Santoro, que com um leve toque foi capaz de desviar a trajetória da bola para a trave. A jogada capital, porém, aconteceu aos oito minutos da segunda etapa: após cruzamento de Véliz que raspou na cabeça de Sá, a bola sobrou para Caszely finalizar para o fundo das redes. O brasileiro Romualdo Arppi Filho anulou o gol por impedimento. O replay, no entanto, deixa claro que o goleador chileno estava em posição legal no momento em que o cruzamento ocorre — só havia se adiantado quando Sá desviou a bola, algo que não alterava a legitimidade da jogada, dado que Pancho Sá era, evidentemente, jogador adversário.

O gol fez falta: após o erro da arbitragem, o placar seguiria inalterado no Estádio Nacional. O empate por 0 a 0 forçou uma terceira partida em Montevidéu. Os argentinos saíram na frente com o mesmo Mendoza que fizera o gol irregular em Avellaneda, desta vez sem qualquer questionamento: um chutaço no ângulo. Carlos Caszely novamente chamou a responsabilidade e respondeu 15 minutos mais tarde com um gol ainda mais bonito: um leve toque por cobertura aniquilando Santoro e botando 1 a 1 no marcador do Centenário. A imprensa uruguaia escreveria que a cota de futebol do jogo foi proporcionada pelos chilenos. O Independiente entrou com garra e guerra, e seria exatamente assim que terminaria vencendo: já no segundo tempo da prorrogação, quando as pernas faltavam para o Colo Colo, uma série de rebatidas dentro da área que os chilenos não conseguiram afastar terminou em chute certeiro de Giachello, que manteve a taça na Argentina. O Cacique voltaria a decidir o título em 1991, quando finalmente venceu, mas para muitos torcedores não há dúvidas de que a equipe de 73 foi a melhor da história do futebol chileno.

Documentário “Sabor a victoria”, sobre o time de 1973

A campanha que culminou com o vice-campeonato coincidiu com o último otimismo da esquerda no Chile: estendeu-se de março a junho, entre as eleições nas quais os partidos pró-Allende aumentaram sua participação no Congresso e a primeira tentativa (fracassada) de golpe de Estado, ocorrida 23 dias depois do 6 de junho em que o Colo Colo levou 2 a 1 no Uruguai.

Convidado para o jantar em homenagem ao time, desta vez Salvador Allende não pôde aparecer. Enviou uma mensagem na qual se desculpava: “Colo Colo é Chile. Mas hoje o Chile não é o Colo Colo. O país não está unido”.

Não demoraria para a verdadeira ação militar coordenada ser levada a cabo, custando ao presidente sua vida e ao país sua democracia: Pinochet tomou o poder em 11 de setembro.

Poucos dias depois do golpe, ocorreria o duelo entre a Seleção Chilena (basicamente uma mistura do Colo Colo com Elías Figueroa, então no Internacional) e a União Soviética, pela repescagem da Copa do Mundo do ano seguinte. O jogo na Europa aconteceu. A volta, não: os russos se negaram a atuar no Estádio Nacional, transformado em prisão pela ditadura e usado como espaço de torturas e execuções sumárias. A FIFA fez pouco caso do protesto, dando a vaga para o Chile por WO.

Pinochet também percebeu que o futebol poderia servir-lhe politicamente. Em maio de 1973, Salvador Allende havia recebido o elenco do Colo Colo após o empate em Avellaneda — um time capitaneado por Fracisco Valdés, que tinha em Caszely seu craque e era treinado por Luis Álamos. Todos eles estavam de volta a um encontro nos salões presidenciais em outubro, agora representando a Seleção. Valdés, Caszely e Álamos ouviram de Pinochet sobre a importância de seus resultados em campo, já não tanto para unir os chilenos, mas para melhorar a imagem do regime no exterior. No dia do jogo de volta contra a União Soviética, a partida que não houve, a ditadura contratou o Santos de Pelé (sem Pelé) para um amistoso com o objetivo de festejar a vaga na Copa do Mundo. Os militares estavam prontos para explorar o ufanismo gerado por uma eventual vitória contra o adversário famoso. Sempre forte em casa, desta vez o Chile levou 5 a 0 ao natural.


Publicado originalmente no Puntero Izquierdo, que é uma revista digital de publicação de histórias de futebol.