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Quantas esperas cabem em uma final de Libertadores?

Gustavo Dal'Bó Pelegrini, Leonardo Megeto Montelatto

Danilo com a bola, olha para a direita. Inverte o jogo nos pés de Rony, que domina. Olha, respira e cruza. A bola atravessa a área, encontrando a cabeça de Breno Lopes. Um toque sutil. A bola faz uma parábola, longe do alcance de John, morrendo na bochecha da rede. A espera acabou! Quanto tempo separa o olhar de Danilo e a explosão verde? Entre 10 segundos e 21 anos. Uma espera que parece sofrida demais, mas que quando desentala o grito da garganta, sempre vale a pena. Quer dizer, uma espera não: nove. E vamos a elas.

Foto: Cesar Greco/Palmeiras/Fotos Públicas

Espera 1: Apesar de nascido em 1994, não tenho lembrança alguma das finais de 1999 e 2000. Guardo vários acontecimentos da minha vida pelo futebol e, principalmente, pelo Palmeiras. “Em tal dia que aconteceu isso o Palmeiras venceu ou perdeu tal jogo”. E nesses 21 anos, principalmente até 2014, muitas dessas lembranças são de decepções e campanhas mal sucedidas. Rebaixamentos, eliminações, perda de títulos encaminhados. Lembro muito bem, entretanto, de ver São Paulo, Corinthians e Santos vencendo o principal torneio de nosso continente e talvez, por isso mesmo, nossa obsessão. Tudo isso culminou nessa expectativa e ansiedade pelo retorno ao palco principal do futebol da América do Sul.

Espera 2: O final de 2014 e início de 2015 mostrou ser o ponto de ruptura entre o clube que foi o campeão do século XX mas que ainda não havia adentrado ao século XXI, iniciando uma espera obsessiva. Após um terrível e sofrível Campeonato Brasileiro, uma completa reestruturação em toda a estrutura do futebol recolocou o Palmeiras no papel de protagonista do futebol brasileiro. Consequentemente, a esperança de brigar novamente pela Copa Libertadores tomou conta do palmeirense. Jogadores foram trazidos exclusivamente para isso, como Felipe Melo, mas ainda que títulos importantíssimos fossem conquistados, a Libertadores sempre nos fugia por detalhes. Por ironia do destino, os jogadores símbolos dessa ruptura, Dudu e Fernando Prass, acabaram deixando o clube antes da Glória Eterna.

Espera 3: Em 10 de março, o Palmeiras se despediu de sua torcida no Allianz Parque na vitória por 3×1 frente ao Guaraní (PAR). Essa não seria apenas a última vez em que a equipe atuaria em casa diante de sua torcida, mas também foi a única partida em casa com torcida na Libertadores. Sem um joguinho sequer por conta da pandemia, tornamo-nos órfãos sem futebol, enquanto as emissoras de televisão reprisavam partidas do passado. Num domingo, o palmeirense reviu a vitória por 2×1 frente o Deportivo Cali e as penalidades que garantiram nosso primeiro triunfo na Libertadores. Não sabíamos quando voltaríamos a ver o Palmeiras em ação, muito menos quando conquistaríamos novamente a América. A primeira espera acabaria em julho; a segunda demoraria alguns meses a mais.

Espera 4: Quase uma hora de pesadelos. Assim podemos definir o segundo tempo de Palmeiras 0x2 River Plate, em 12 de janeiro. Um domínio completo e absoluto dos argentinos em todos os aspectos do jogo, com o Palmeiras apenas se defendendo e se livrando da bola, torcendo para o final do jogo. Para completar o mais puro sofrimento do torcedor, o VAR, ferramenta que gera amor e ódio, atuou de maneira precisa em três lances que levariam possivelmente o River ao gol da igualdade. Alívio é a palavra que melhor define o apito final do árbitro que levou o Palmeiras novamente à decisão da Libertadores. O filme de terror no Allianz Parque se encerrava e, por incrível que pareça, com final muito feliz. 

Espera 5: Do apito final da semifinal às 23:30 do dia 12 de Janeiro até o apito inicial da decisão às 17:00 do dia 30, o tempo pareceu ter andado em marcha ré para o palmeirense. Eram como 21 anos de espera em 18 dias. Percorrendo a maratona deste longo calendário brasileiro repleto de jogos e ainda mais maluco pela pandemia, o Verdão entrou em campo cinco vezes nesse meio tempo. Ainda com chances matemáticas de título e buscando pontos para entrar no G4 do Brasileirão, Abel Ferreira optou por escalar equipes quase que completas nos primeiros jogos. De positivo, a atuação de gala com goleada no Derby; de negativo, o empate contra o Grêmio e a derrota frente ao Flamengo, que tirou a equipe da disputa pelo título. Os últimos dois jogos já foram com time reserva, mostrando que o foco estava longe dali.

Espera 6: O acordar do dia 30 de janeiro foi uma das sensações mais agoniantes imagináveis. As finais não se resumem à ansiedade da vitória, sendo a angústia da possibilidade da derrota tão presente quanto. Da mesma forma que a vitória em uma final é a maior das vitórias, a derrota em uma final também é a maior das derrotas, e sua simples hipótese causa calafrios. Só de pensar no jogo durante o dia o estômago se revirava, enquanto as pernas pareciam ter toneladas de chumbo presas a si. O dia passa em câmera lenta, e cada movimento dos ponteiros do relógio parece um passo em direção ao carrasco, numa sensação de que o horário da partida nunca chegará. E de certa forma, torcemos para que nunca chegue. Porém, para o bem ou para o mal, o tempo nunca pára, e tudo seria decidido naquele momento, às 17h, no Maracanã.

Espera 7: Tensão clara e absoluta no ar. Medo de errar, atacar defendendo e torcida por uma grande jogada dos protagonistas dos dois lados parecia ser o roteiro da grande final. Muitas faltas e o forte calor do verão carioca arrastaram ainda mais o primeiro tempo. O jogo no segundo tempo parecia uma grande espera pela prorrogação de ambos os lados, até chegarmos no ápice da partida. Devido às pausas para atendimentos e substituições, o árbitro apontou oito minutos de acréscimo. Passados quatro minutos, o primeiro grande momento. Tentando ser mais esperto, Cuca retarda uma cobrança de lateral, sendo derrubado por Marcos Rocha e causando confusão entre os jogadores dos dois times. O árbitro expulsa o treinador que, num ato emocional e irresponsável, mistura-se à torcida (!!!) peixeira no Maracanã. E logo na saída de bola, aos 54 minutos, o segundo grande momento. Corte de Gomez, lançamento de Danilo, domínio e cruzamento de Rony e cabeceio de Breno Lopes libertaram o grito que esperava na garganta palestrina. Como nos trouxe a Puma em um dos lançamentos de seu uniforme: “Nem celebrar o palmeirense celebra. Ele desabafa. Desabafa com o universo e a junção de acasos que quase nunca conspiram a favor. Desabafa com o microfone, com o relógio. Desabafa até consigo mesmo, por que onde já se viu tanto amor?”. E nesse grande desabafo foi só aguardar os dois minutos finais para fazer a festa novamente.

Foto: Cesar Greco/Palmeiras/Fotos Públicas

Espera 8: O gol destrói a espera da torcida que ansiava pelo reencontro com o clube amado. Se a Conmebol, em ato de total irresponsabilidade, convidou milhares de torcedores de ambas as equipes para a partida, era esperado que não haveria pandemia no mundo que impedisse a aglomeração causada pelo gol. Não existe sentimento individual no futebol, e tanto a euforia como a desolação são sentidas apenas coletivamente. Extasiada, a torcida palmeirense, que não encontrava o time desde março, tomou o Maracanã e as ruas de São Paulo, como num abraço de quem não aguentava mais olhar de longe as conquistas de alguém tão amado.

Espera 9: Mas o abraço da torcida em seu clube não foi a única separação causada pela pandemia que o gol de Breno Lopes findou. A maior das separações, a entre as famílias, também chegou ao fim para muitos. Era impossível assistir a essa partida com uma companhia diferente que a do meu pai. Muitas coisas passaram desde que a Covid nos distanciou. Seu aniversário, o dia dos pais, o meu aniversário, o Natal, o Ano Novo. E assim como o Palmeiras e sua torcida, eu e meu pai nos víamos de longe, sem o toque, sem o abraço. Mas nem essa espera suportou o gol. Se meu pai apresentou a mim a paixão pelo Palmeiras, eu sei que sou eu quem mais a alimenta hoje em dia. A paixão precisava ser compartilhada, no mais afetuoso dos abraços, daqueles que entendem que muitas esperas acabaram naquele segundo. E após 10 meses, que mais pareciam 21 anos, juntos gritamos “É CAMPEÃO”!


Como citar

PELEGRINI, Gustavo Dal'Bó; MONTELATTO, Leonardo Megeto. Quantas esperas cabem em uma final de Libertadores?. Ludopédio, São Paulo, v. 140, n. 21, 2021.