79.13

Que centenário queremos? As angústias da Portuguesa perto de completar os 100 anos de vida em 2020

José Carlos Marques

Passei o Réveillon de 2007 num sítio do município de Socorro (SP), estância hidromineral situada entre as cidades de Bragança Paulista e Águas de Lindóia, na Serra da Mantiqueira. Já há alguns anos eu havia adquirido o hábito de festejar a passagem de ano vestido com a camisa da Portuguesa ou com a do Benfica, clubes do coração. Pois na manhã daquele 1º de janeiro de 2007 eu portava uma camisa “retrô” da Lusa – toda vermelha, com a gola e os punhos verdes. Perto da hora do almoço, o sítio foi sacudido com a chegada de uma dezena de crianças, batendo latas e repetindo incessantemente o bordão “Bom princípio”.

À semelhança do que ocorre em algumas regiões do país no dia de São Cosme e São Damião, a meninada de Socorro percorria as propriedades locais em busca de pequenos donativos, como doces, guloseimas, moedas e notas de pequeno valor. Assim que entraram no quintal, provoquei-os dizendo que só daria algum dinheiro se me dissessem qual camisa eu estava usando. Ninguém sabia e ninguém quis arriscar palpites. Procurei dar algumas dicas, até que um deles arriscou: “– É a camisa do Internacional!”, – certamente inspirado pelo título mundial do Colorado, conquistado duas semanas antes (e olha que, na vitória de 1 x 0 sobre o Barcelona, o time gaúcho havia jogado com o uniforme número 2, todo branco).

Não é necessário dizer o quanto fiquei decepcionado com minha própria brincadeira: crianças na casa dos 10 anos conseguiam lembrar-se de um clube que nem é do Estado de São Paulo, mas sequer conheciam a existência da Portuguesa. A responsabilidade por isso, entretanto, tem menos a ver com aquelas crianças do que com o próprio clube, que em nove décadas e meia conseguiu angariar a simpatia de grande parte do público, na mesma medida em que sofreu com o desprezo da imprensa.

Cópia de portuguesa-x-caxias-32-1

Camisa retrô da torcida Leões da Portuguesa. Foto: Fábio Soares / futeboldecampo.net.

Nestes dois casos, porém, a responsabilidade também é da Portuguesa – e de todos nós que aprendemos a amá-la, a sofrer e a vibrar com ela. Caberia agora tomarmos mão dos destinos do clube e sermos responsáveis por aquilo que está tão perto de chegar. Sim, porque no dia 31 de dezembro de 2019, quando estivermos comemorando a virada para 2020, teremos dado início também ao ano em que a Associação Portuguesa de Desportos completará seu centenário.

Embora as comemorações desse tipo de efeméride naveguem ao sabor dos ventos (por não ter conquistado nenhum título em 2010, quando o Corinthians completava 100 anos, a diretoria da agremiação alvinegra chegou a afirmar que o ano do centenário era aquele que começava a 1º de agosto, data de fundação do clube), parece-nos razoável que as celebrações dos “100 anos” acompanhem o respectivo ano fiscal, ou seja, que se iniciem a 1º de janeiro e terminem a 31 de dezembro. E, como estamos a pouco menos de quatro anos de festejar um século de existência da “Lusa do Canindé”, mais incômodo é saber qual centenário queremos, ou qual centenário podemos ter.

Se depender daquilo que aconteceu com o clube nos últimos anos (nomeadamente o imbróglio jurídico com o Fluminense em 2013/2014 e a queda fatal para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro), temo que a Lusa não tenha recursos e fôlego para grandes festejos no ano do centenário. Após essa guerra inglória nos tribunais, a Portuguesa sofreu outras duas quedas dentro de campo (para a terceira divisão do Campeonato Brasileiro em 2014 e para a segunda divisão do Campeonato Paulista em 2015), que se somaram às outras quedas recentes desde 2002, quando foi rebaixada pela primeira vez em sua história (neste caso, teve a honra de cair para a “segundona” do Brasileirão com duas companhias de luxo: o Palmeiras e o Botafogo).

Para quem não se lembra, a Lusa escalou irregularmente um jogador na última rodada do Campeonato Brasileiro de 2013. Punida nos tribunais desportivos, ela acabou sendo rebaixada para a segunda divisão, salvando o Fluminense, que havia pontuado menos ao longo do torneio. Ainda não se sabe a mando de quem o clube cometeu tal falcatrua, mas parece claro hoje que tudo foi feito de maneira premeditada e deliberada. Esse imbróglio simboliza emblematicamente o ocaso que a Lusa passou a experimentar a partir do Século XXI, o mesmo ocaso que, no futebol brasileiro e mundial, vem opondo os chamados clubes de massa (que contam com grande apelo midiático) aos de menor expressão, que contam com menos torcedores e menos presença na mídia.

Cópia de portuguesa-x-tupi-2-1

Torcedor segura a faixa da Portuguesa. Foto: Fábio Soares / futeboldecampo.net.

O tal futebol moderno, de grandes cifras e patrocínios, parece não dar margem a que times fora do mainstream global possam fazer sucesso. Mas só isso não explica o malogro de clubes tradicionais do interior paulista que sequer aparecem na primeira divisão do campeonato estadual (casos de XV de Jaú, Noroeste, São Bento, Paulista, Bragantino, Marília), e só isso também não explica a falência de Portuguesa, América e Guarani, entre outros, que não conseguem reeditar glórias passadas. É preciso incluir nesta contabilidade os desmandos administrativos que se arrastam há décadas e que não poupam o seu patrimônio físico e simbólico.

Neste ínterim, a Portuguesa parece contrariar o seu próprio discurso fundador, o seu próprio DNA, que tem a ver com a fusão de cinco agremiações diferentes que representavam a colônia portuguesa na cidade, no início do Século XX: Esporte Club Lusitano, Associação Atlética Marquês de Pombal, Luzíadas Futebol Club, Portugal Marinhense e Associação 5 de Outubro. A colônia lusa foi capaz de fundir e aglutinar cinco entidades para criar, a 20 de agosto de 1920, a então Associação Portuguesa de Esportes, que, como não poderia deixar de ser, buscou aglutinar os portugueses que viviam em São Paulo, caso da minha família.

A nova agremiação, sem estrutura para montar uma equipe de futebol, uniu-se ao Mackenzie College e disputou, em 1921 e 1922, os campeonatos paulistas organizados pela APEA (Associação Paulista de Esportes Atléticos). Contudo, a disposição para a criação de alianças e formação de amálgamas se deve ter perdido no tempo, especialmente no final do Século XX, simbolizada ainda pelo falecimento de Oswaldo Teixeira Duarte, presidente mais influente do clube – não à toa, o Estádio do Canindé (antes Estádio Independência) foi rebatizado com o seu nome em 1979.

Meu pai tornou-se sócio da Lusa em 1973, num plano familiar que, obviamente, incluía minha mãe, meu irmão e eu. Por anos acostumei-me a frequentar as piscinas, os vestiários, o ginásio poliesportivo, as alamedas e os quiosques do clube, que no final dos anos de 1970 contava com quase 100 mil sócios (números inimagináveis perto dos menos de três mil que existem hoje). Na década de 1970, acompanhei com meu irmão e meu primo as obras de ampliação das arquibancadas e a instalação dos refletores, de sorte que nossas férias e fins-de-semana eram frequentemente passados ali. Nos últimos anos, as idas ao Canindé dependem quase que exclusivamente dos jogos de futebol.

gabriel_uchida_196_014

Vista de uma das torres de iluminação do Canindé. Foto: Gabriel Uchida / FotoTorcida.

O que se tem visto na Portuguesa nos últimos 30 anos é uma constante sucessão de grupos que se unem para comandar os destinos do clube, mas que se desentendem pouco tempo depois. Daí que a oposição é comumente formada por dissidentes da situação, que, por sua vez, une-se aos antigos opositores para tentar manter-se no poder. Nessa ciranda política espiralada, quem mais padeceu ao longo dos tempos foi o próprio clube, ao lado de seus associados e torcedores.

Aquele que visitar hoje as dependências do clube perceberá que é difícil termos satisfação em andar por lá, haja vista o estado de penúria e de má conservação de uma ponta à outra. O estado das piscinas é deplorável, e as arquibancadas laterais do parque aquático desmoronaram pelo excesso de infiltrações e de abandono. O ginásio poliesportivo padece dos mesmos problemas – o que poderia redimi-lo era o fato de ter sido arrendado para uma igreja evangélica em 2015, desde que o dinheiro recebido pudesse ser investido em obras de remodelação. Já as alamedas e os quiosques escondem-se por meio dos arbustos, da sujeira, do lixo e da falta de manutenção dos banheiros, muitos deles sem água e sem energia elétrica.

Mesmo o Estádio do Canindé parece não ter suportado a ação do tempo, e sua configuração arquitetônica ultrapassada tem permitido que o poder público, por meio de diferentes instâncias, tome decisões cada vez mais estapafúrdias, que pouco colaboram para o bem-estar dos torcedores. As forças de segurança, por mais boa vontade que possam demonstrar, não parecem ter sido felizes na decisão de isolar quase que 25% da capacidade do estádio a fim de separar a torcida da casa e a torcida visitante. Na parte interna do clube, outra área enorme próxima à Marginal Tietê também permanece isolada para garantir a segurança das delegações visitantes (e aqui nota-se como as diferentes administrações do clube, por falta de recursos e por falta de vontade, deixaram de fazer obras necessárias que garantissem melhores condições a todos).

Também por inação de sua diretoria e por imposições das forças públicas, o Canindé costuma ter apenas três portões para acesso às arquibancadas (um para os visitantes, na Marginal Tietê, e dois próximos à Barraca do Caldo Verde, dentro do clube). Além dessas entradas, há apenas uma rampa para as numeradas cobertas e um elevador para acesso a camarotes e setores da imprensa. Outros cinco ou seis portões e seus respectivos sanitários permanecem fechados, dificultando o acesso, a mobilidade e a saída dos torcedores. Se somarmos a isso os cerca de três mil assentos que foram suprimidos do estádio por determinação da polícia temos hoje um estádio que se torna inviável para públicos superiores a 15 mil pessoas (como pude testemunhar na partida decisiva contra o Vila Nova, pelo Campeonato Brasileiro da Série C, em outubro de 2015).

Numa cidade como São Paulo, seria difícil para a Portuguesa rivalizar em tamanho de torcida com o Corinthians, o São Paulo, o Palmeiras e até o Santos. Isso só aconteceria com uma longa trajetória de títulos, mas eles são escassos em nossa história. Seria igualmente difícil para a Portuguesa passar a contar com a simpatia da imprensa, devido à forte identificação com o antigo colonizador do Brasil. A despeito de tudo isto, a Lusa conseguiu angariar a simpatia dos adversários, a ponto de já ter sido considerada o segundo clube dos paulistas e de ser tratada carinhosamente por eles como “Lusinha”. E quando ela começa a mostrar alguns resultados esportivos, até os meios de comunicação começam a lhe ser simpáticos.

Mas nada disso agrada o verdadeiro torcedor luso, que não quer que seu time seja tratado com diminutivos, nem que seu time seja o “outro” dos adversários. No fundo, o sonho do torcedor luso era que a Portuguesa fosse odiada pelos seus oponentes, na mesma medida em fosse temida e respeitada por sua força, como ocorre vez ou outra. O prazer do torcedor luso é que seu time seja comparado ao Barcelona e que se recrie a “Barcelusa”, como na campanha histórica da Série B de 2011. O torcedor luso, no fundo, é que deveria ser chamado de “fiel”, pois não é fácil conviver com décadas de desprezo e descaso e, mesmo assim, continuar a amar e prestigiar seu time incondicionalmente.

gabriel_uchida_120_007

Torcida da Lusa. Foto: Gabriel Uchida / FotoTorcida.

O que pode servir de alento por ora é o esforço que sem sendo empreendido pela diretoria atual, buscando reconstruir o clube a partir das cinzas – ou do que resta delas. A cada ano ouvimos alguém dizer que a Portuguesa chegou ao fundo do poço, mas os anos seguintes têm mostrado que esse poço não tem fim. De todo modo, a Lusa também tem conseguido reavivar continuamente o mito de fênix e reerguer-se seguidas vezes, entre quedas e acessos múltiplos desde 2002. O problema é que há muito que fazer: ultimamente, as histórias que mais se ouvem sobre a Portuguesa envolvem o atraso de salários de funcionários, a penhora das rendas dos jogos devido a dívidas trabalhistas, a penhora do patrimônio para quitar essas mesmas dívidas, a venda do terreno que o clube ocupa e que pertence ao poder municipal, o fim anunciado do clube etc.

É difícil a qualquer entidade resistir a anos de erros administrativos – erros que em diversas oportunidades se traduziram em improbidade de gestão, malfeitorias, locupletamento, má vontade, descaso. E todos nós, sócios e torcedores, somos igualmente responsáveis por este estado de coisas – seja pela concordância, seja pelo silenciamento. A Portuguesa dá mostras de que esse histórico malévolo tem sido impiedoso com o clube. Mas também tem dado mostras, como se viu no segundo semestre de 2015, que é possível sair da UTI. É possível sair do estado terminal em que nos encontramos e buscar a inspiração que norteou nossos fundadores em 1920, os mesmos que conseguiram unir forças e esforços num mesmo objetivo.

Meus mais singelos desejos neste início de 2016 são na verdade muito simples: que na noite de 31 de janeiro de 2019 ou na manhã de 1º de janeiro de 2020, quando eu estiver vestindo a camisa da Portuguesa, todos aqueles que me encontrarem saibam reconhecer estas cores, este emblema, esta história. E que possamos comemorar nosso centenário vislumbrando um futuro promissor para os 100 anos seguintes.

Como citar

MARQUES, José Carlos. Que centenário queremos? As angústias da Portuguesa perto de completar os 100 anos de vida em 2020. Ludopédio, São Paulo, v. 79, n. 13, 2016.