10.5

Que ginga é essa?

Vitor dos Santos Canale

Quando se fala do futebol brasileiro, tanto entre nós como no exterior, diversos estereótipos veem à tona: o mais famoso deles é a ginga comum ao jogador do Brasil, o que torna o país o detentor legítimo do futebol-arte. Muitos outros conceitos para abordar essas categorias foram adotados ao longo do desenvolvimento do esporte exemplo – o futebol-poesia de Pasolini, a bossa de Wisnik, a existência de donos da bola, para Chico Buarque –, mas, ao mostrarmos as diferenciações desses termos, rapidamente será perceptível como todos eles mantêm um núcleo comum de significados e intenções, que é o que nos interessa debater.

De forma mais impactante que qualquer escritor anterior, Mário Filho1 tornou o gingado brasileiro um discurso comum, tanto entre quem estuda o futebol, como entre quem simplesmente o debata no seu cotidiano. Em seu livro O negro no futebol brasileiro, o autor mostra as relações dessa ginga com a miscigenação entre negros, índios e brancos; a capoeiragem e o samba – conceituação essa plenamente defendida pelo sociólogo Gilberto Freyre2, que identifica várias proximidades entre seu trabalho e a obra do jornalista carioca.

Diante dessas características singularmente brasileiras, pode-se chegar à constatação de que ter ginga seja algo só possível aqui: um dom ou uma habilidade inerente ao nosso povo.

A habilidade e a destreza acumuladas pela prática da capoeira e pela dança do samba preparam os corpos dos jogadores de futebol, vindos em sua imensa maioria das fileiras do proletariado urbano, para remodelarem o jogo duro e ensaiado dos bretões. O esporte que emana das descrições de Mário Filho, a partir da inserção do negro no futebol, é um jogo insinuante, de dribles, sortilégios e surpresas, onde a chegada ao gol se dá, não pelos meios já instituídos, mas por inovações genuinamente nacionais, um saber brasileiro.

Chico Buarque3, em crônica sobre o futebol, chega à constatação de que o modo de agir dos jogadores sul-americanos os faz parecerem os donos da bola, em oposição aos europeus, donos do campo. A relação desses futebolistas, principalmente brasileiros, com a bola, é de posse, passionalidade e egoísmo: com o domínio dela, eles são capazes de desenvolverem seu jogo cheio de fintas e dribles, que impressiona a todos pela destreza corporal. Enquanto os donos do campo são pródigos em jogar sem a bola, num modo que prima pela troca rápida de passes e pela ocupação de todos os espaços do campo, agindo de forma muito mais coletiva.

Essas diferenças entre os modos de jogo aparecem novamente em Pier Paolo Pasolini, que é brilhantemente pensado por José Miguel Wisnik4. O cineasta italiano vê o futebol enquanto poesia – uma técnica muito utilizada pelos sul-americanos, principalmente os brasileiros – e o futebol-prosa, uma escola mais européia, em que os principais países do continente têm suas peculiaridades: a prosa estetizante italiana, o pragmatismo alemão e inglês. Contudo, ao contrário de muitos outros autores, para Pasolini a prosa e a poesia se mesclam durante a partida.

O que Pasolini considerava o futebol-prosa evidenciava-se pela ênfase defensiva, troca de passes triangulados, contra-ataques fulminantes, cruzamentos e finalizações. O futebol-poesia quebra essa linearidade do jogo, torna-o imprevisível, cria os espaços vazios e brechas do campo, dá autonomia ao drible e motiva o ataque. O autor italiano não exerce juízo de valor sobre as práticas em si, mas sabiamente afirma que, como na literatura, o estilo em que se escreve não serve de pré-requisito para a sua qualidade.

Mais do que prosa, poesia ou uma mistura de ambos, o futebol é, na visão do cineasta, um esporte de múltiplos registros, estilos diferentes e até opostos. Estilo e identidade esses que o futebol brasileiro soube afirmar para o restante do mundo com um impacto avassalador na Copa de 1970, torneio esse que inspirou Pasolini nos seus escritos.

Outro autor que acrescenta um viés pertinente a essa discussão é o gaúcho João Saldanha: as crônicas do jornalista partem em muitos momentos da disputa central entre o futebol-força e o futebol-arte e muitos dos elementos que perpassam suas discussões só serão entendidos nessa contradição.

Saldanha5 acredita na qualidade técnica e até mesmo na habilidade de qualquer nação para o futebol, sendo um bem acessível a todos por meio dos treinos. Contudo, a criatividade, o artístico e o “futebol-arte” são os elementos de desequilíbrio únicos e exclusivos do brasileiro. Assim, conforme argumenta o antropólogo Luiz Henrique de Toledo, o estilo no Brasil é visto como um dom, a exuberância e a capacidade de fazer o belo e o definidor em alguns segundos, já a técnica é mostrada como um conjunto de atividades em que o jogador deve aprender o “instrumental físico” para a prática do esporte, as regras do futebol e a preparação e preservação do corpo para o jogo.

A ginga e o futebol-arte, que são vistos como consenso de qualidade, criatividade e, principalmente, identidade brasileira entre esses diversos autores das mais diferentes áreas, não pode ser visto apenas de maneira apologética, mas sim inseridos em um projeto muito maior: moldar o que é o Brasil do século XX.

Num país cindido por regionalismos – durante a segunda metade do século XIX e o início do XX –, a necessidade de forjar um caráter nacional e seus respectivos símbolos era fator primordial para a formação de uma nação. Assim, a figura do mulato e a miscigenação, formando um povo orgulhoso de si mesmo, vem ocupar um espaço de formação de identidade. Como discurso vencedor sobre o valor desse povo, a ginga dos capoeiras, dos sambistas e dos jogadores de futebol salta como qualidade inequívoca e uma afirmação do que é ser brasileiro.

Esse processo de compreender o Brasil, afirmar identidades e promover grandes análises da realidade nacional e do legado histórico que toma corpo na década de 1930 vem tanto de escritores populares, como Mário Filho e José Lins do Rego6, quanto de acadêmicos renomados do porte de Caio Prado Júnior7, Sérgio Buarque de Hollanda8 e o já citado Gilberto Freyre.

O país que posteriormente seria caracterizado de modo magistral por Nelson Rodrigues como sofredor do complexo de “vira-latas” achava em características ligadas ao lúdico um modo de afirmar-se no cenário mundial, tentar criar-se como nação e entender a si próprio.

“A malandragem como arte da sobrevivência, o jogo de cintura como estilo nacional, a capacidade de jogar com força e ‘arte’, sem, contudo, excluir o coração e a cabeça… Foi, portanto, só com o futebol que conseguimos no Brasil somar nação e sociedade.” (Roberto da Matta – Sem referência)
Bibliografia

[1] FILHO, Mario. O negro no futebol brasileiro. Editora Mauad. Rio de Janeiro. 2004.
[2] FREYRE, Gilberto. Casa Grande & Senzala. José Olympio Editora. São Paulo. 1933.
[3] COELHO, Eduardo (org.). Donos da bola. Editora Língua Geral. Rio de Janeiro. 2006.
[4] WISNIK, José Miguel. Veneno remédio – O futebol e o Brasil. Companhia das Letras. São Paulo. 2008.
[5] SALDANHA, João. Histórias do futebol. Editora Revan. Rio de Janeiro. 1994.
[6] HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de. “O descobrimento do futebol”: modernismo, regionalismo e paixão esportiva em José Lins do Rego. Editora da Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro. 2004.
[7] JUNIOR, Caio Prado. Formação do Brasil contemporâneo. Editora Brasiliense. São Paulo. 1965.
[8] HOLLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Companhia das Letras. São Paulo. 2005.
 
* Vitor Canale é graduado em História pela Unicamp, membro-pesquisador do GEF (Grupo de Estudos e Pesquisas de Futebol – Unicamp) e membro do Gief (Grupo Interdisciplinar de Estudos Sobre Futebol).
Esse texto foi originalmente publicado no site Universidade do Futebol e cedido pelo autor para publicação nesse espaço.

Como citar

CANALE, Vitor dos Santos. Que ginga é essa?. Ludopédio, São Paulo, v. 10, n. 5, 2010.