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As questões atitudinais em uma competição de futsal: relato de uma intervenção

Maurício Mendes Belmonte, Bruno Martins Ferreira, Osmar Moreira de Souza Júnior, Ana Cláudia Bianconi, Glauco Nunes Souto Ramos

É fato que as competições esportivas costumam gerar tensões entre os participantes que não raramente tendem a se traduzir em episódios de violência. Partindo dessa compreensão e do histórico de violência em edições anteriores do torneio, os organizadores da 67ª edição da competição – que aqui chamaremos simplesmente de Copa de Futsal – organizada anualmente no município de São Carlos por uma conceituada instituição de âmbito nacional, convidou o ProFut[1] para realizar uma mediação junto aos jogadores e comissões técnicas das equipes participantes, no sentido de promover uma sensibilização para a possível superação da problemática apontada já na edição do torneio que estava prestes a se iniciar.

Segundo a instituição organizadora este evento possui a intencionalidade de promover, a partir do torneio de futsal, mais um espaço-tempo de convivência e lazer entre seus associados (o evento é destinado exclusivamente ao público masculino) por intermédio da fruição esportiva do futsal. Também são destacadas contribuições para a melhoria da qualidade de vida dos participantes; fortalecimento das entidades esportivas do município; integração social através de práticas desportivas.

Paradoxalmente a esses objetivos, o coordenador do evento relata crescentes episódios de desrespeito e de agressões que os jogadores empreendiam tanto aos árbitros quanto aos demais participantes de outras equipes. “Está difícil… Todo ano sai discussão, empurra-empurra, xingamento. Não é raro a gente ter que parar o jogo e pedir para o pessoal esfriar os ânimos… Chegamos a cogitar a não realização da Copa”, relatou o coordenador da Copa.

A eminente possibilidade de não realização do evento culminou com o convite para a nossa intervenção. A partir do convite, nos engajamos no desenvolvimento de uma intervenção junto aos jogadores e aos membros das comissões técnicas das 13 equipes inscritas na Copa de Futsal-2016 que participaram do “Congresso Técnico”, no sentido de fomentar um espaço formativo marcado por diálogos e reflexões que auxiliassem a entidade a deliberar possíveis encaminhamentos na/para a organização do evento. Inclusive, que despertasse este senso de (co)responsabilidade dos participantes para o bom desenvolvimento da competição.

As ações propostas pelo grupo se estruturaram em quatro momentos principais: 1) apresentação do Grupo ProFut/UFSCar, bem como dos pesquisadores e pesquisadora presente; 2) apresentação de imagens (vídeos, fotografias e charges) que ilustravam “situações problemas” (desrespeito, violência, fair play, desonestidade); 3) formações de pequenos grupos para refletir acerca de possíveis encaminhamentos a serem empreendidos durante a 67ª Copa para fins de uma conduta mais colaborativa com a ideia de jogo limpo e justo; 4) compartilhamento de ideias e análise de aplicação bem como a responsabilidade de efetivação de tais encaminhamentos.

Após um primeiro momento de apresentação do grupo ProFut/UFSCar, expusemos no telão imagens ilustrativas com atitudes de jogadores profissionais tidas como exemplos de lealdade e deslealdade. Tal apresentação fez emergir elementos que constituem a esfera valorativa esportiva, sempre aos auspícios de uma interpretação crítica das situações ilustradas.

Para além de vídeos e fotos, a apresentação tocou pontos centrais sobre a compreensão global do termo fair play. Posto que, embora objetive contribuir com a manifestação de atitudes para um jogo “mais limpo”, justo e honesto, sua campanha é fomentada mundialmente por uma instituição que tem sido alvo de acusações por corrupção. Ademais, em uma análise mais profunda, também foi destacado que o cumprimento de atitudes já entendidas como “normais”, ou “desejadas” dentro de um jogo de futebol, não atingem uma concepção que reflete a solidariedade, cooperação e respeito com o oponente no jogo.

futsal

Futsal. Foto: Isa Lima (CC).

Em um segundo momento, após tecer críticas e denúncias acerca de atitudes indesejadas, lançamos mão de uma perspectiva propositiva-construtiva a partir da apresentação de anúncios e sugestões. Para tanto, foi projetada a proposta que orienta as ações do Fútbol Callejero.

A prática do Fútbol Callejero se pauta pela vivência de um jogo de futebol que é disputado sem a presença de um árbitro, com isso todas as decisões são tomadas pelos próprios jogadores e jogadoras; o jogo é orientado pelos pilares/valores de respeito, cooperação e solidariedade; existe a presença de um(a) mediador(a) que atua no sentido de contribuir com as reflexões sobre regras e valores; os jogos são disputados por homens e mulheres jogando juntos; é desenvolvido em três tempos, sendo o primeiro para a construção coletiva das regras, o segundo para o desenvolvimento da partida em si e o terceiro para uma roda de conversa com mediação sobre os pilares que resulta na pontuação final do jogo.

Após a apresentação dos horizontes do Fútbol Callejero, foi iniciado um momento de reflexão e compartilhamento de sugestões. Para tanto, foi organizada uma divisão dos participantes do Congresso técnico, de maneira a possibilitar que integrantes de um determinado time formassem grupo com integrantes de outras equipes promovendo, deste modo, uma primeira interação entre os participantes. Com a organização dos grupos foi solicitado para que dialogassem acerca das seguintes problematizações:

  • Quais foram as suas experiências positivas e negativas em edições anteriores da Copa de futsal?
  • Quem foi, ou quem foram os responsáveis por aquilo que aconteceu de positivo e/ou negativo nas edições anteriores?
  • Quais suas expectativas para a Copa de futsal para este ano?
  • Vocês tem alguma(s) sugestão(ões) para se fazer uma Copa de futsal mais fraterna?

Após dialogarem internamente nos grupos, foi aberto um momento de troca de saberes e comunicações de possíveis encaminhamentos e levantamento de novas demandas. Elementos interessantes surgiram no decorrer do diálogo, tais como: possibilidade de valorização das equipes que não sejam punidas com cartões; pontuação para equipes que não se atrasem e que não faltem aos jogos; realização de um torneio início, em que as equipes participantes mesclem seus times, assim possibilitando jogar junto a pessoas de outras equipes; adoção do critério disciplinar como primeiro item a ser avaliado na ordem de classificação das equipes em caso de empate em número de pontos; atribuição de pontos para equipe que conseguir levar determinado número de familiares ou amigos para assistirem aos jogos, entre outros apontamentos.

Compreendemos que essa intervenção demonstrou potencial para reforçar os objetivos elencados pela instituição. Para tanto, salientamos a importância da escuta atenta e da abertura para a corresponsabilização dos participantes no processo de desenvolvimento da Copa de Futsal. Durante o Congresso técnico, o coordenador do evento apresentou como sendo possível e desejável a incorporação de alguns encaminhamentos propostos pelos integrantes da competição para as próximas edições da Copa. Ademais, a partir do aceite dos jogadores, membros das comissões técnicas presentes e coordenador da Copa, foi incorporada de forma imediata a alteração no regulamento que indicava como critério de desempate o número de gols, sendo assumida a primazia do critério disciplinar para o desempate. Tais encaminhamentos corroboram para a assunção e possibilidade de emersão de um contexto mais respeitoso, prazeroso e harmônico para quem vivencia a prática, para quem assiste e para quem promove o evento.

Nós do ProFut compartilhamos da compreensão de que nem sempre quem mais vence, ganha mais, reafirmando, assim, o compromisso enquanto grupo que busca legitimar um futebol melhor e acolhedor a todos e todas.

[1] Grupo de Estudos e Pesquisas dos Aspectos Pedagógicos e Sociais do Futebol (ProFut), vinculado ao Departamento de Educação Física e Motricidade Humana (DEFMH) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)