06.1

Racismo no Brasil? No nosso futebol? Chega de hipocrisia!

Marcel Diego Tonini
“Em futebol, o pior cego é o que só vê a bola”.
Nelson Rodrigues

Recentemente, em 24 de abril de 2008, saiu uma reportagem na Folha de S.Paulo (“Fifa banca ação contra o racismo no Brasil”) sobre um projeto de um grupo de pesquisadores do Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas), que está promovendo aqui no Brasil a campanha “Mande um cartão vermelho para o racismo no futebol”. Segundo a notícia, este é o único projeto na América do Sul a receber a verba de US$ 5.000 da Fifa de modo a debater e combater a discriminação nesse esporte. Com esse dinheiro, eles manterão um site (http://www.racismonofutebol.org.br/), cujo conteúdo trará discussões acadêmicas sobre o assunto e denunciará as práticas racistas em nosso futebol, além de informar os internautas a respeito do projeto.

Uma das ações do grupo foi levar a campanha para o estádio do Maracanã, onde foram entrevistados dezenas de torcedores que acompanharam a semifinal da Taça Rio entre Fluminense e Vasco. Eles responderam a algumas perguntas simples que foram elaboradas para a ocasião: “Você acha que existe racismo no futebol brasileiro?”, “Como ele se manifesta?”, “Como você avalia os termos como ‘pó-de-arroz’ e ‘bacalhau’?”, “Como você avalia o grito ‘Ela, ela, ela, silêncio na favela’?” e “Onde você guarda o seu racismo?”. De acordo com o antropólogo alemão Martin Christoph Curi Spörl, integrante do projeto: “A idéia não é censurar ou patrulhar os torcedores, mas fazê-los refletir. Gostaria que pensassem se termos como bacalhau, pó-de-arroz e mulambo têm origem xenófoba ou conotação discriminatória”.

Particularmente, fiquei muito interessado com a discussão, tanto por motivos pessoais como profissionais, uma vez que pesquiso no meu mestrado o negro no futebol brasileiro ao longo das últimas décadas. Algumas entrevistas, disponíveis no referido endereço eletrônico, revelam-nos que as respostas são as mais variadas. Vão desde um contundente “Com certeza que não” (sobre a existência do racismo no futebol brasileiro) até um tímido “Existe sim, acredito que sim”. À medida que fui lendo as falas dos torcedores, fui ficando cada vez mais espantado com as respostas. Quando leio “Mas isso também tem outra conotação. Xingar e brincar fazem parte do jogo. É tradição. Começa e termina aí dentro do estádio” (a respeito do grito contra os flamenguistas – e corintianos no caso de São Paulo – ou dos apelidos de torcidas), vejo que o torcedor justifica as identificações devido ao caráter lúdico do jogo e da humanidade, deslocando a discussão sutilmente. Esse tipo de resposta é bem comum.

Contudo, o que me causa espanto (no sentido negativo) é ler respostas como: “Saiu uma pesquisa no jornal que 47% dos flamenguistas moram na favela. Portanto, é baseado em pesquisa. Não é racismo”. Então, quer dizer que todo resultado que venha de uma pesquisa não é passível de racismo? No limite, ciência e racismo são coisas totalmente incongruentes? Se voltarmos para a história das ciências (biológicas e humanas), veremos que muitos pesquisadores, ao perceberem a diversidade humana, tentaram por séculos justificar as diferenças entre os indivíduos ou entre as populações através de hierarquizações raciais e de teorizações que tinham um conteúdo muito mais doutrinário do que científico. A raciologia é um exemplo claro disso, pois estava mais preocupada em legitimar sistemas de dominação racial do que explicar a variabilidade humana.

Quantas pesquisas não são promovidas com segundas intenções, forjando resultados? Qual a posição política-ideológica do jornal? Como foi apresentado o resultado da pesquisa e com qual intuito? Só flamenguistas e corintianos moram em favelas? Só pessoas letradas e cultas torcem para os tricolores carioca, paulista e gaúcho? Só italianos torcem para Palmeiras, Cruzeiro e Goiás e só portugueses, igualmente, para o Vasco e para a Portuguesa?

São tantos os questionamentos que podem ser feitos sobre a fala do torcedor que talvez seja mais objetivo fazermos duas observações. Primeiro que, independentemente da porcentagem, todo time tem torcedores pobres, ricos, negros, brancos, homossexuais, heterossexuais, portadores de necessidades especiais, enfim, de todos os tipos, gêneros e com origens as mais variadas. Segundo que cada uma das declarações dos torcedores, nesse caso, como também dos textos de jornais, das falas dos jogadores, técnicos, comentaristas e mesmo cientistas são recheadas, ainda que inconscientemente, de intenções e de subjetividade.

As respostas para as demais perguntas feitas ao mesmo torcedor evidenciam-nos a negação enfática com relação à existência do racismo. Talvez uma entrevista aprofundada sobre sua história de vida revelasse-nos os motivos e os intuitos dessa negação.

Neste mesmo sentido, seria interessante coletar outras narrativas pessoais de torcedores cujos times são alvo de cantos e termos racistas. Certamente, ouviríamos que os xingamentos e expressões proferidas pela torcida do outro time, de alguma maneira, causam sofrimento e ressentimento. Basta pensarmos, por um instante, em como se sentem pessoas que moram nas periferias – cujas vidas são cercadas de muitas dificuldades – ao ouvirem os rumorosos gritos de “Ela, ela, ela, silêncio na favela”, ou então negros ao verem multidões verbalizando “macacos”, imitando urros e atirando bananas. Fácil é que não deve ser, ainda mais se for um semelhante social e economicamente ou um irmão de cor que estiver proferindo do outro lado.

Como entender esse fenômeno? Necessitamos de maiores e mais profundas pesquisas. Embora torcedores incorporem ou assumam essas identificações vindas de fora (como, por exemplo, muitos colorados com relação ao “macaco”), entendo que isso não deve ser algo facilmente aceito pelas pessoas ofendidas, nem mesmo algo que se estenda a toda a coletividade de torcedores.

Toda esta discussão sobre racismo no futebol brasileiro leva-me a fazer três afirmações:

1. Vivemos uma hipocrisia quanto à democracia racial brasileira, motivo que fez e que faz muitos intelectuais e políticos valorizarem o nosso povo e a nossa nação;
2. O nosso racismo é implícito, inconsciente, envergonhado e latente, mas que, sobretudo em situações de conflito, ele aparece e, como na Copa de 1950, se mostra impetuoso;
3. Os negros são os que mais sofrem dentro das populações que compõem o Brasil.

Por fim, falemos um pouco sobre o fato de a Fifa auxiliar financeiramente um projeto contra o racismo. Por ser, talvez, a maior instituição mundial (lembremos que a Fifa tem mais membros afiliados do que a própria ONU, no total são 208 contra 192), a Fifa tem o dever de, alguma maneira, discutir sobre e promover atividades em prol dos problemas que afligem as populações da Terra, tal como aconteceu com relação aos atingidos pelo Tsunami de 2004 ou na campanha contra o trabalho infantil. Assim, a Fifa tem de se mostrar, ainda que seja da boca pra fora ou mesmo que seja forçada a isso, preocupada com diversos problemas, tais como fome, doenças, guerras, racismo, etc.

Enquanto entidade máxima do futebol, a Fifa tem o dever não só de averiguar os acontecimentos diretamente relacionados com o futebol e que acontecem ao longo das centenas de campeonatos ao redor do mundo, mas também de ser pioneira, incentivar e financiar projetos que visam problematizar questões ligadas ao “esporte-rei”. Afinal, tal como sentenciou Roberto Da Matta: “se o futebol é bom de ser visto, ele também serve para dramatizar e para colocar em foco os dilemas de uma sociedade.” (1982, p. 32).

E sendo o racismo um desses dilemas, tão antigo quanto atual (quer na Europa, quer no Brasil), cabem a Fifa e as associações nacionais de futebol colocar o problema em foco e traçar medidas para o seu combate. Talvez os mais céticos critiquem o valor ínfimo para tal (cinco mil dólares, o que de fato é muito pouco se pensarmos nos bilhões movimentados por este esporte ao redor do mundo), porém já é um passo adiante se compararmos com as indicações de punições mais severas aos jogadores e clubes, com a Resolução de Buenos Aires, com a nomeação de embaixadores contra o racismo e com a constante campanha “Say no to racism”. Pois, além de reconhecer a existência dessa prática repugnante e criminosa, possibilita agora um importante mecanismo de debate e combate.

Termino o texto parabenizando o incentivo da Fifa e o projeto do Ibase e alertando para que nós, brasileiros, não nos façamos de cego e não sejamos hipócritas com relação ao racismo existente em nosso país e em nosso futebol.

Bibliografia
CORRÊA, Lúcia Helena. Racismo no futebol brasileiro. In: DIEGUEZ, Gilda Korff (Org.). Esporte e poder. Petrópolis: Vozes, 1985.

MUNANGA, Kabengele. Teorias sobre o racismo. In: HASENBALG, Carlos A.; MUNANGA, Kabengele; SCHWARCZ, Lília Moritz. Racismo: perspectivas para um estudo contextualizado da sociedade brasileira. Niterói: EdUFF, 1998.
_____. Uma abordagem conceitual das noções de raça, racismo, identidade e etnia. In: BRANDÃO, P. Programa de educação sobre o negro na sociedade brasileira. Niterói: EdUFF, 2004.
LOPES, José Sergio Leite. Classe, etnicidade e cor na formação do futebol brasileiro. In: BATALHA, Cláudio H. M.; SILVA, Fernando Teixeira da; FORTES, Alexandre (Org.). Culturas de classe: identidade e diversidade na formação do operariado. Campinas: Ed. da Unicamp, 2004.

SILVA, Carlos Alberto Figueiredo da; VOTRE, Sebastião Josué. Racismo no futebol. Rio de Janeiro: HP Comunicação, 2006.

Sites
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/esporte/fk2404200819.htm
http://www.racismonofutebol.org.br/