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A reciprocidade do dom: quantos ex-jogadores são necessários para trocar uma lâmpada?

Enrico Spaggiari

Durante a pesquisa de mestrado, quando acompanhei, por mais de um ano, as aulas, treinos e partidas que envolviam meninos e garotos de uma escolinha de futebol da Cidade Líder, bairro periférico da zona leste de São Paulo, não foram poucas as vezes em que ouvi críticas de varzeanos, pais e mães ao treinador da escolinha, um ex-jogador de futebol da década de 1970, com passagem por um grande clube de projeção nacional e outros do interior de São Paulo.

O treinador era considerado era um péssimo exemplo para as crianças. Apesar de admirarem o atleta que um dia o treinador fora, porém condenavam a forma como ele direcionou sua vida após encerrar a carreira, enfatizando o envolvimento com bebida, mulheres e péssimos investimentos que mitigaram os últimos recursos financeiros. Além disso, indicavam que o treinador apresentava alguns problemas físicos, reflexos da carreira de jogador: água no joelho, dor nas costas, inchaços. O coordenador da escolinha fazia coro e tinha o costume de realçar uma suposta incapacidade do treinador. “Jogar futebol era a única coisa que ele sabia fazer. Ele vivia numa mamata, faziam tudo para ele. Hoje não consegue nem trocar uma lâmpada. Imagina então arranjar trabalho por aí, não sabe fazer nada. Além disso, ele está quebrado, o corpo detonado”. Em seguida, para finalizar seu argumento, inseriu os ex-jogadores na famosa piada da lâmpada, utilizada de forma pejorativa para diversos sujeitos.

O treinador, nessa perspectiva, estaria, segundo a classificação proposta por Sergio Montero Souto em Os Três Tempos do Jogo (2000), vivendo o ostracismo, quando, após o encerramento da carreira esportiva, muitos jogadores enfrentam diversas dificuldades. São inúmeros os casos, alguns levantados pelo autor, de jogadores que tiveram rumos tristes após o encerrarem as carreiras, como o goleiro Jaguaré, que atuou nas décadas de 20 e 30, e Garrincha, jogador do Botafogo e Seleção Brasileira nas décadas de 50 e 60. Diversos ex-jogadores não têm condições de exercer qualquer outra profissão quando encerram as carreiras. Afastados do futebol após certa idade, por não disporem mais das qualidades físicas necessárias para acompanharem os jovens jogadores, muitos procuram permanecer próximos ao universo futebolístico. Tornam-se treinadores, membros de comissão técnica, empresários e agentes, dirigentes de clube e federações ou comentaristas esportivos de diferentes mídias.

Embora as críticas ao treinador da escolinha fossem exageradas, é importante ter em conta que a aposentadoria da prática esportiva dita profissional ou de alto rendimento é sim alvo de preocupação de especialistas das áreas de fisiologia, medicina esportiva, psicologia e educação física. A carreira futebolística exige anos de preparação. A parada abrupta dos treinamentos exige uma rápida readequação a uma rotina nova, diferente da vivida durante a carreira esportiva: “A volta das férias já era difícil, pois era mais de um mês sem ficar treinando”, afirmou certa vez o treinador, que lembra ter ficado parado um bom tempo por causa de uma lesão e teve dificuldade no retorno aos gramados. Se um mês parado já exige um trabalho intenso de recondicionamento, como avaliar o término definitivo da carreira? Como o mesmo reforçou: “Ah, sempre dá saudade, porque a gente pensa que nunca vai parar de jogar. […] Tem vez que eu falo: ‘Pô, o quê eu fazia? Quando eu jogava, eu fazia isso’. Mas agora não faço mais”.

Ao deixarem de realizar os treinamentos a que estavam acostumados, bem como participar de eventos esportivos, ex-atletas e ex-jogadores se deparam com uma nova realidade corporal. O corpo que fora preparado, por meio das atividades físicas, para a carreira esportiva, exige agora uma rotina diferente da vivida pelos atletas, mas diferente também da rotina dos não atletas. Trata-se de um corpo a ser reeducado, paulatinamente, para uma vida cotidiana que continuará atlética, porém não voltado ao esporte de alto rendimento. Desse modo, tudo o que o esportista ou jogador procurou ganhar desde muito jovem ao se dedicar aos exercícios esportivos, o programa de destreinamento visa fazer com ele perca por meio de reduções no volume de treinamento da antiga rotina.

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Dia de coletivo. Foto: Enrico Spaggiari.

Destreinamento é um termo conhecido nas Ciências do Esporte, relacionado à perda de condicionamento nos atletas de inúmeros esportes. Pouco usual no Brasil, o programa é comum em outros países, como Estados Unidos e Cuba, e está relacionado às diversas etapas da carreira dos atletas, desde a iniciação esportiva, ainda na preparação da criança e do adolescente para o esporte, principalmente no trabalho nas categorias de bases dos pequenos e grandes clubes, até a prática voltada ao alto rendimento, e não somente ao término da carreira, período no qual as consequências insurgem. O destreinamento seria o ponto final do processo de transição, que começaria nos primeiros passos do atleta no esporte.

No caso dos jogadores de futebol, especificamente, parar de jogar pode trazer malefícios ao corpo: é comum o aumento de peso, perda de massa muscular e intensificação de problemas físicos e psicológicos. O aumento de peso decorre da diminuição do gasto calórico, ao mesmo tempo em que não há a mesma diminuição do consumo calórico. O peso maior inflige um maior impacto nas articulações, que ocasiona problemas físicos, por exemplo, nos joelhos, como é o caso do treinador da escolinha. Para estes casos, propõe-se a realização de um destreinamento, um programa de transição gradual da carreira esportiva.

Contudo, enquanto que o coordenadores, parentes de alunos e frequentadores da escolinha na Cidade Líder mostravam-se preocupados com os problemas enfrentados pelo treinador após o encerramento da sua carreira como jogador, muitos garotos, na contramão, enalteciam a sua experiência, comparando-a à vivência do coordenador, restrita à várzea: “O cara tem que ter o dom para chegar aonde chegou”, afirmou um dos jovens praticantes do projeto. Era esse dom que os formuladores do Mais Esporte – um exemplo de projeto social construído sobre a experiência futebolística de ex-jogadores profissionais, empregando-os como difusores esportivos – procuravam enfatizar ao destacarem a presença de ex-jogadores como difusores esportivos do projeto. A ênfase nos difusores presumia que a trajetória de sucesso como jogador de futebol e prestígio dos ex-jogadores seriam um diferencial no trabalho com os jovens. Tem-se, assim, uma nova etapa da curta carreira do jogador.

Trata-se de uma aposta numa possível retribuição do dom, como já sinalizou a antropóloga Simoni Guedes, por meio dos difusores. Após se aposentar dos gramados, antes mesmo dos 40 anos, a trajetória futebolística é prolongada, atuando a partir de então no plano pedagógico, uma forma de retribuição do dom: o que esse ex-jogador recebeu e que lhe permitiu vivenciar o universo espetacularizado teria de ser retribuído à sociedade.

A reciprocidade do dom, porém, não seria completa, segundo o treinador: “eu tinha o dom, porém era algo meu. Não tem como passar isso, ensinar uma criança a ser jogador de futebol do nada. Ela já tem que ter alguma coisa, um dom dela”. Assim, a reciprocidade estaria nas formas de troca possíveis: de quem tem o dom orientando, de sua posição privilegiada, aqueles que não têm, mas que podem aprender até certo ponto, e aqueles que têm o dom, mas que devem tirar proveito do mesmo: “Vi muito cara que tinha o dom, porém não queria saber de nada, tinha preguiça de treinar e correr. O que deu? Não deu em nada”, afirmou o treinador.

Embora este contradom seja sua principal motivação no trabalho com as crianças, o ex-jogador enfatiza que antes de tudo aquele é o seu “ganha pão” e depende dele para se manter. O seu “ganha pão”, centrado na retribuição do dom, acarreta em novos vínculos e outras formas de reciprocidade, bem como fundamenta a existência de inúmeras escolinhas de futebol no Brasil, entidades hoje basilares dentro do campo esportivo.