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Recordar multidões

Luiz Henrique de Toledo

#orelhão20 – Obra: Todo Brasil, Artista: Juarez Fagundes. Foto: Kike Toledo

Comecei a rabiscar esse pequenino artigo exatamente no dia em que o Morumbi completou 60 anos, efeméride fixada em 2 de outubro de 1960. A Pandemia praticamente ofuscou a comemoração de um tríplice aniversário: além do estádio privado Cícero Pompeu de Toledo, vi pouco de conteúdo informativo mais substantivo em relação ao anúncio da entrada na sétima década de existência do Mario Filho, hoje tão transformado, inaugurado em 1950. Os 80 aniversários do Paulo Machado de Carvalho, o Pacaembu de 1940, relíquia de si mesmo, se mantém envolto às controvérsias de sua privatização e destino “social”. Arquiteturas e histórias distintas, mas entrecruzadas que mereceriam um cotejamento à parte. Boas pesquisas e bons textos acadêmicos sobre estádios ganharam força na literatura especializada. Mas o assunto aqui ainda é outro.

Retomo esses escritos agora, em janeiro de 2021 e do alto dos meus 46 anos de torcedor (em verdade 56 anos de idade biológica), para dizer que minha geração nasceu para o futebol ainda sob a égide dos grandes estádios, signos inflados no período ditatorial. A potência imagética desses estádios se manteve claudicante nas décadas subsequentes. E alcançada a adolescência e início da fase adulta de torcedor testemunhei o ocaso ou algum divórcio entre a cultura e a fisicalidade desses estádios, que foram cada vez mais relegados às instrumentalizações. Do vivido ao pensamento (passando pelas apropriações estéticas), o destino político desses monumentos sucumbiu à sanha economicista de emaranhados de interesses distintos. Uma relação se rompeu no meio desse caminho.

Quando se fala na grandiosidade desses estádios e de tantos outros que se espalharam pelo país nos anos 70 minhas lembranças de menino trazem imagens feéricas que se aproximam de alguma ideia de multidão. Há um sentido cognitivo nesse termo como potência selvagem ou de contra poder alimentada pela ou na infância, esse momento da vida em que não decidimos direito pelos heróis ou pelas terríveis monstruosidades. Exato, quando me deparei pela primeira vez com o Morumbi pensei num ser desproporcional a engolir multidões. O sentido mítico parece evidente, o político se escamoteia com o passar do tempo e novas gerações perdem seu sentido imediato e colérico.

Mas multidão como definição de ajuntamentos torcedores e manifestação de “muitos enquanto muitos” (Spinoza apud Virno, 2013), um fato da multiplicidade (Deleuze & GUATTARI, 1995) foi convertida ou domesticada pela noção cada vez mais presente de povo, que ainda na adolescência e à medida em que fui tomando ciência do Brasil se mostrou mais aderente ou em conluio com uma outra, deveras perniciosa: nação. Nação é um sentimento sociológico coletivo político persistente, da direita à esquerda do espectro ideológico, aderente na vida cotidiana, objetivante e racionalista nas ciências sociais normais.

Multidão e povo, como discorre o filósofo italiano Paolo Virno, se colocaram numa espiral de antíteses inauguradas ao menos desde filósofos como Spinoza e Hobbes, “pais putativos” da conhecida polaridade. Segundo Hobbes comentado por Virno a noção de povo está “estreitamente associada à existência do Estado” (p. 10), diria eu mesmo que povo retêm na carne e no cerne das representações a mais tangível ideia de Estado, dando-lhe os contornos vívidos, conferindo um sentido anímico da vontade obediente ou “servidão voluntária” frente a um demiurgo que aprisiona a potência dos seres, situação em que quase tudo pode diante da aparente fragilidade de nossos corpos e existências. Sabemos o quanto danosas foram e ainda são as formas assumidas pela Estado em nome desse ator político denominado de povo, mesmo nos momentos históricos em que seus ajustamentos são orientados por liberdades tomadas por democráticas.   

Por isso naqueles estádios-nação, expressão bem acomodada pelo historiador Bernardo Buarque de Holanda quando mobiliza e simetriza com a noção de Estado-nação, podiam se abrigar ou se espremer 100 mil torcedores ou mais. E a depender dos interesses de momento dezenas de milhares outros eram abocanhados pelos generosos portões e faziam das estatísticas um exercício fantasioso nos borderôs. Anunciar a renda e o público presente (outro termo afilhado de povo) durante uma partida, algo que acontecia geralmente naqueles momentos em que os jogos entravam num modo modorrento, causava ebulição, aplausos, confirmação da força coletiva negada ou sonegada individualmente, pujança da ou das torcidas presentes. Mas também se ouviam vaias e apupos nem sempre solidários. É roubo!, ou Tem mais gente aqui do que o enunciado!, ou ainda Estão metendo a mão na nossa renda!, e outras frases didáticas que chagavam ao ouvidos dos poderosos do futebol que se faziam de moucos.  

”Brasil está vazio na tarde de domingo, né? Olha o sambão aqui é o país do futebol”, cantaram Wilson Simonal, Elis Regina, Pery Ribeiro, mas destaco ainda a interpretação de Milton Nascimento num álbum de 1970 em que dedica outras duas faixas mais para enaltecer o futebol pátrio: Uma é “Tostão”, belíssima canção sem o acompanhamento de letra, dotada de um ritmo que, de fato, dispensa palavras, e “O jogo”, cuja letra revela o lugar plenipotente da noção de povo num momento político tão crucial do país:

O Jogo
(Milton Nascimento)

Já vem vindo meu time atacando
Jogadas surgindo com a bola rolando
Em passes ligeiros no campo contrário
Do adversário

Cruzam a pelota da intermediária
Num chute certeiro para a grande área
Eis que surge então o lance genial
Do craque Tostão

Que toma a bola, entra na área
Passa o primeiro, segundo, o terceiro
Vai mais a frente, finta o goleiro
E chuta pro gol

A bola vai entrando no fundo da rede
O juiz apita, Goool
A torcida levanta, solta foguete
E pede mais um

Recomeça o jogo a charanga tocando
Bandeiras acenando na comemoração
Da vitória do povo que tanto esperou
Ser campeão

A “vitória do povo” presente nos estádios foi por alguns anos um dos índices de aferição de sucesso ou fracasso dos campeonatos brasileiros antes do advento das Arenas. Era justamente essa capacidade gregária e poder de ajuntamento que os estádios capitalizavam para si. Arena é decorrência da nova categoria genérica que abriga vários modelos de equipamentos esportivos, dos adaptados, que é onde o estádio do Morumbi, mas, sobretudo o Maracanã se enquadram, aos novos projetos de design, que assumem a função de modelo paradigmático ao menos desde a onda de funcionalidades e hospitalidades decorrentes de um processo que segue orientando algumas das transformações do torcer ao menos desde a década de 90, e que alcançou de vez o Brasil no evento da Copa de 2014.

“Brasil está vazio na tarde de domingo” parece ter se tornado um agourento vaticínio esportivo contra a noção de multidão. Já povo sobrevive aos tempos, destacado não por suas virtudes, mas porque se enleia cada vez mais às modas de poderes estatais que o modelam.

Determinados jogos, “clássicos” e partidas em etapas sensíveis do certame, que naquela época praticamente asseguravam a fama de campeonatos estaduais e do brasileirão, eram mais valorizados do ponto de vista torcedor se deles sobressaíssem multidões deixadas fora dos estádios. A possibilidade do excesso e, portanto, do risco e do riso eram o que também definia a presença de torcidas num grande estádio, quer dizer, mais do que preencher toda a capacidade interna oficial o estádio precisava transbordar. Havia nessa “desorganização” um sentido de multidão que resgatava e qualificava o evento como épico, não um mero jogo, mas uma batalha grega. O dramaturgo Nelson Rodrigues havia identificado seu irmão, o idealizador do Maracanã, como sendo o criador das multidões: “pena que não o tenham enterrado no Maracanã. Mario Filho mereceria que o velassem multidões imortais” (Rodrigues & Rodrigues, 1987:138).

Se tudo que hoje quase consensualmente entre os próprios torcedores tornou-se sinônimo de organização nas Arenas (vejam, por exemplo, alguns corinthianos comemorando a presença da assepsia do mármore em alguns espaços da Neo Química Arena), aqueles ambientes mais fétidos frequentados pelas multidões as faziam mover, se comover e se contorcer em estádios que as despertavam (Rodrigues & Rodrigues, 1987). Perambular e gravitar sem dinheiro, sem ingresso e sem destino pelos entornos dos estádios era signo de prestígio do clube e de sua torcida que ali zelava pelo time do lado de fora, mas se fazia presente mesmo assim. Porque torcer era presença, corpos suados, mãos com mãos, palavras e salivas trocadas, experimentações de multidão.

Lembro que já no avançado ano de 1997 presenciei um Corinthians e Vasco da Gama no Pacaembu em que a torcida paulista minutos antes de iniciar a partida e afunilada nas catracas pela polícia militar passou a invadir o estádio por todos os lados (pense o leitor num vasilhame transbordando, pois é, só que aqui o sentido era inverso, como um barco à deriva recebendo água por todos os lados. Que imagem!).

E repito, que imagem compondo mais uma daquelas cenas vertiginosas (hoje a nova sensibilidade a denominaria de perigosa e irresponsável) em que o estádio como se fosse uma boca a receber descontroladamente goles e goles de cerveja era preenchido pela caudalosa torcida num delírio de multidão. Portões trancados por segurança, escalar os muros do estádio foi tarefa fácil até mesmo para alguns tiozinhos. Ali do Tobogã abarrotado podia ver toda cena.

Em outras circunstâncias, lá do alto das arquibancadas, cansei de ver vendedores de amendoim escalando o Morumbi para burlarem a vigilância, seguidos daqueles torcedores mais destemidos que rapidamente alcançavam o anel superior do estádio, como se dizia. O frenesi da multidão oferecia a gramática e o anonimato necessários para aqueles que ganhavam instantes de notoriedade ao realizar tais feitos. Outros escalavam as torres de iluminação e depois de serem desautorizados pelos policiais desciam sorrindo sob os aplausos de centenas. Que jogo se pode ver lá de cima? Quão necessário esse suplemento de olhar? Nunca presenciei em jogos com diminuta torcida tais experimentações.

Multidão faz parte de um conjunto de metáforas urbanas com enraizamentos sócio-históricos bem documentados pelas Ciências Humanas e debatida por vertentes filosóficas e literárias. Povo, massa, nação alteram percepções democráticas e autoritárias a respeito das escalas urbanas, dos modos de vida, da espetacularização do poder e estética de regimes políticos. Um antropólogo como George Balandier, hoje fora do mainstream tanto quanto os estádios do Pacaembu ou Morumbi, ao publicar seu livro O poder em cena fez dessa marcação espetaculosa das multidões o lugar dos paroxismos a que se chegam as razões do Estado. Mas fico mesmo com as expressões de singularidade dos torcedores escaladores de muros, postes, arquibancadas e com os vendedores de amendoins, gente pobre, ao mostrarem com suas táticas um novo ângulo para se ver o jogo e os jogos de poder. Deslocados e abraçados pela multidão, agiam e imaginavam.

Foto: Kike Toledo

Algumas expressões artísticas alusivas à Copa do Mundo realizada no Brasil em 2014 formaram um prelúdio da má escolha estética que se propagaria no coração dos movimentos neofascistas verde amarelos acolhidos em lugares como a avenida Paulista na cidade de São Paulo. Aquela exposição abrigada no Conjunto Nacional (foto acima), onde se ausentava qualquer ideia de multiplicidade numa evocação neoclássica de gosto duvidoso flertaria com elementos notadamente nacionalistas de direita, cujas encenações tão caras à noção de povo, público, pátria e nação fizeram escorregar pelas frestas dos seus sentidos o temor maior pela inquietude sempre presente na ideia de multidão.

Referências bibliográficas

BALANDIER, Georges. O Poder em cena. Brasília: EdUnB, 1983.

BUARQUE DE HOLLANDA, Bernardo. “O fim do Estádio-nação? Notas sobre a construção e a remodelagem do Maracanã para a Copa  de 2014”. Campos, Flávio & Alfonsi, Daniela. Futebol objeto das Ciências Humanas. São Paulo: Leya, 2014.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: Capitalismo e esquizofrenia. Vol. 1. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995.

RODRIGUES, Nélson; Rodrigues Filho, Mario. Fla-Flu…e as multidões despertaram. Rio de Janeiro: Edições Europa, 1987.

VIRNO, Paolo. Gramática da multidão. Para uma análise das formas de vida contemporâneas. São Paulo: Annablume, 2013.


Como citar

TOLEDO, Luiz Henrique de. Recordar multidões. Ludopédio, São Paulo, v. 139, n. 53, 2021.