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Reflexões sobre o futebol como objeto de pesquisa: a utilização do termo “cultura” e a problematização do óbvio

Sarah Teixeira Soutto Mayor

Assumir a importância cultural do futebol para a sociedade brasileira como justificativa para o empreendimento de estudos sobre o tema pode parecer algo banal e óbvio, já materializado na quase totalidade de pesquisas acadêmicas que se dedicaram ao assunto pelas perspectivas das ciências humanas e sociais. Poderia se configurar em situação semelhante ao que Raymond Williams (2003)[1] chamou de “repetição irreflexiva”, produzida por meio do hábito de mencionar certas palavras, expressões ou afirmativas que já se tornaram correntes. A amplitude que uma referência abstrata alcança, segundo o autor, implica em dificuldades de compreender os seus significados em cada contexto específico, fazendo com que sua menção pareça inútil. Williams (2003)[2] cita o caso da palavra “criativo”, mas podemos pensar na palavra cultura em sua relação com o futebol, amplamente utilizada em diversos trabalhos acadêmicos. A recorrência automática à dupla (cultura e futebol) parece sintetizar uma necessidade de convencer o leitor de que o estudo do futebol não é algo supérfluo em meio à outras possibilidades de pesquisa acadêmica.

Esse imperativo pode ser sintoma de uma realidade diferente entre o meio acadêmico e outros setores da sociedade. Ou seja, as pessoas que se preocupam com o estudo do futebol conseguem perceber (ou nitidamente ou por “repetição irreflexiva”) que o jogo merece atenção pela relevância que possui na construção da sociedade brasileira, de finais do século XIX aos dias atuais. Porém, isso ainda não parece reverberar no pensamento da população em geral, que vive e observa sua penetração social, mas ainda possui dificuldades em compreender a amplitude de sua influência e a relevância de sua presença como algo que mereça ser estudado. O futebol ainda é comumente visto (assim como outras manifestações que ocorrem no tempo de lazer) como algo trivial, como mero divertimento ou como instrumento de alienação[3].

O futebol é, de fato, uma manifestação cultural, mas assim o é como todas as outras criações humanas. E, por isso mesmo, essa afirmativa, por si só, não parece muito convincente para justificar a realização de pesquisas sobre o tema. Uma questão crucial talvez resida na indagação sobre qual Brasil é retratado em cada estudo. É prudente perguntar o que é, muitas vezes, taxado de “futebol brasileiro”. Nesse caso, em vez de se utilizar a palavra cultura como uma âncora, a sua existência precisa ser, de alguma forma, materializada, considerando as especificidades do que se chama de cultural em cada contexto sinalizado. A utilização da “cultura” como algo que a tudo abrange de forma homogênea, como um adjetivo seguro e estável, urge em ser desestabilizada em um coletivo de estudos sobre futebol e em muitos outros que abrangem manifestações diversas e que se fundam na utilização do termo com o mesmo tom de todo definidor e abrangente; um conceito que, em razão de sua abstração, torna-se adjetivo estável e inquestionável, uma roupagem confortável que veste qualquer corpo, em qualquer estação do ano.

Estudar o futebol compreende experiências que fizeram parte da construção nacional e que conformam histórias específicas (o que não quer dizer isoladas). É sabido, por exemplo, que o futebol participou das primeiras experiências republicanas de um Brasil que almejava se modernizar aos moldes das grandes potências europeias; foi parte do ideário ditatorial civil e militar; conformou o maior mercado de entretenimento esportivo no país (é possível até sugerir que esse mercado surge no Brasil em razão do futebol, ou, ao menos, tendo essa experiência como potente motor); tornou-se protagonista na formação de identidades individuais e coletivas (seja por meio dos clubes de futebol ou da seleção brasileira).

Rio de Jnaneiro- RJ- Brasil- 20/08/2016- Olimpíadas Rio 2016- Futebol masculino- Final- Brasil e Alemanha. Foto: Ministério do Esporte

Torcedora segura a bandeira do Brasil no Maracanã na final dos Jogos Olímpicos Rio 2016. Foto: Ministério do Esporte.

Entretanto, essas são construções que se referem a uma ideia de Brasil, a um conjunto de características gerais que vislumbramos comumente e que é reforçado periodicamente pelas experiências cotidianas e pelos meios de comunicação. Obviamente, a ideia construída sobre sermos o país do futebol encontrou e ainda encontra ressonância numa parcela significativa de cidadãos brasileiros; caso contrário tal acepção não perduraria por tantas décadas e não continuaria sendo suficiente para nos definir e nos diferenciar nacional e internacionalmente. Qualquer referência identitária necessita de ressonância, de reciprocidade para fazer sentido. Embora seja comum a recorrência às relações entre futebol e política para justificar a força da identificação brasileira com o jogo, é difícil imaginar que estas e outras relações com teor semelhante (como as estabelecidas com o mercado) possam ser as maiores protagonistas desse longo processo. Não há governante, nem ditadura, nem marca comercial, nem empresa de comunicação que conseguiria manter, por tanto tempo, esse âmago passional. Pensar o contrário seria considerar as pessoas como uma espécie de tolas culturais, como ponderou Hall (2003) [4] em suas reflexões sobre a cultura popular. Tal percepção não desconsidera os inúmeros modos de dominação e as desigualdades na distribuição de poder que se manifestam no plano da cultura, mas ao mesmo tempo, não os tomam como todo-poderosos ou todo- abrangentes (HALL, 2003)[5].

Assim, toda construção cultural, para fazer sentido, necessita encontrar a adesão de um coletivo de pessoas que partilham de algumas características comuns. Toda forma cultural prescinde de uma generalização que se materializa em elemento de unidade e coesão. Caso contrário não faria sentido falar de identidades locais, regionais ou nacionais, por exemplo. Entretanto, o olhar da generalização não pode ser o único. E por essa razão, não se pode desconsiderar que a identificação do brasileiro com o futebol (ou a noção que o termo implica) não se traduz em visibilidade e representatividade igualitárias em todos os lugares do país. Facilmente qualquer estudioso do futebol ou aficionado saberia dizer quais são as principais equipes de Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Sul ou Santa Catarina, por exemplo, mas dificilmente alguém saberia o mesmo do Acre, de Rondônia ou de Roraima. E isso não quer dizer que não haja futebol nesses estados, até mesmo porque o jogo não se restringe aos clubes. Mas, tampouco, pode nos informar qual a história e o impacto do futebol nessas localidades ou, até mesmo, se ele é significativo para suas populações.

Se a veiculação do futebol, nesses casos, sofre de certa seletividade regional que invisibiliza sua prática nos mais diversos contextos, pode-se indagar se os estudos sobre o futebol também padecem dessa invisibilidade. É possível dizer que, atualmente, vislumbra-se um avanço na quantidade e na qualidade dos estudos sobre o tema, mas isso não impede que a crítica à centralidade/localidade desses estudos seja produzida. Ainda é corrente a existência de abordagens que particularizam excessivamente o objeto, com generalizações de um futebol nacional a partir de cidades como o Rio de Janeiro e São Paulo.

Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha, Brasília, DF, Brasil, 10/8/2016 Foto: Andre Borges/Agência Brasília Argentina e Honduras jogam nesta quarta-feira (10), no Estádio Mané Garrincha, pelo grupo D do futebol masculino nas Olimpíadas 2016.

Jogador de futebol. Foto: Andre Borges/Agência Brasília.

Nesse caso, reconhecer e indagar o jogo por lentes mais particularizadas não implica desconsiderar a sua penetração em um cenário maior; porém, esta forma não pode ser compreendida como única possibilidade de se enxergar a manifestação. Embora seja tolice desconsiderar o poder de alcance e de formação em um âmbito nacional e global, o estudo das especificidades é igualmente importante (até mesmo para se repensar o que é compreendido como nacional e global). Assim, a complexidade desse fenômeno envolve um número considerável de ponderações, que se imbricam continuamente na relação local-global-local.

Portanto, muito precisa ser pensado e tem a ver com algo que não cabe apenas no estudo do futebol. Tem a ver sensivelmente com a construção de uma imagem e de uma ideia de um país que se diz orgulhoso da riqueza da sua pluralidade cultural, mas que ainda não encontrou caminhos para que todas as suas regiões sejam suficientemente contempladas como parte efetiva de um mesmo Brasil, que nos planos político, econômico e acadêmico ainda é, consideravelmente, representado por alguns “centros protagonistas”. Da mesma forma que Da Matta (1997, p.14)[6] cita o estereótipo da “grande massa anônima” denominada povo e questiona “quem não fala por ela no Brasil ”, é também prudente sempre perguntar, em termos regionais, de que Brasil falamos.

E aqui, o desafio posto da não-repetição irreflexiva descrita por Williams (2003) também se faz presente, já que o trato com as especificidades pode padecer da mesma obviedade do trato generalista. Ou seja, o fato de se problematizar contextos específicos não é capaz de isentar, por si só, o risco mencionado. Talvez, esse seja, em diversos âmbitos, um dos maiores desafios da pesquisa acadêmica no contexto das ciências humanas e sociais: reconhecer a generalidade sem desconsiderar a particularidade e, ao mesmo tempo, localizar nas especificidades do particular o que se constrói e se narra em relações mais ampliadas. E, no caso do futebol (e de outras manifestações consideradas como importantes na história do país), conseguir ultrapassar os muros do “particularismo generalizado” da academia. Por fim, quem sabe, em um futuro (não sei se breve), não necessitemos justificar com tanto afinco o porquê de se estudar o futebol em uma perspectiva sociocultural, ou ao menos, não careçamos, citar a palavra cultura como um “colete salva-vidas” toda vez que falarmos do tema para que o mesmo tenha sua legitimidade reconhecida.

[1] WILLIAMS, Raymond. La larga revolución. Buenos Aires: Nueva Visión, 2003.

[2] Idem.

[3] Mesmo que muitos estudiosos tenham se esforçado em combater tais estereótipos, é notável a reverberação que estes ainda possuem na vida cotidiana.

[4] STUART, Hall. Da diápora. Identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

[5] Idem.

[6] DA MATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.