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Reflexões sobre o racismo no futebol

Marcel Diego Tonini

O racismo no futebol tem ganhado cada vez mais as páginas dos noticiários esportivos mundiais. No futebol europeu, em especial, a questão está na ordem do dia, sendo, pois, um dos motivos que, direta ou indiretamente, culminaram na queda do treinador da Seleção da Inglaterra, Fabio Capello. Sem querer, contudo, centrar a discussão a partir do que acontece no velho continente, comecemos por duas perguntas básicas: o que é racismo e como isso se manifesta no campo esportivo, particularmente no futebol?

Técnico italiano Fabio Capello. Foto: Paulblank.

Racismo é um termo polissêmico e assume várias formas em diferentes sociedades e épocas, vitimando não somente negros, mas também judeus e irlandeses por exemplo. De acordo com os intelectuais, o conceito em questão foi formulado no início do século XX e tinha estreita ligação com a ideia de raça ou, melhor dizendo, com a crença e a postulação de uma humanidade dividida e hierarquizada em grandes grupos chamados “raças”, cujas características biológicas determinavam as características culturais e psicológicas. Assim sendo, racismo é entendido como uma ideologia essencialista que imputa características negativas reais ou supostas a um determinado grupo, as quais justificam um tratamento desigual deste grupo definido perante o resto da sociedade (WIEVIORKA, 2007). Embora seja de conhecimento geral – ou pelo menos devesse ser –, é necessário dizer que o nazismo marcou o apogeu desse poderoso movimento de ideias chamado de racismo científico.

No universo do futebol espetacular (DAMO, 2007), o racismo pode se manifestar de diversas maneiras: dentro de campo, em ofensas verbais ou gestuais de jogadores, treinadores ou mesmo árbitros contra colegas de profissão, cuja origem étnica é diferente (sobretudo, os negros e os estrangeiros); fora das quatro linhas, do mesmo modo, só que vindo dos torcedores, agrupados ou não, especialmente contra jogadores e aficionados do clube oponente. Em alguns casos mais explícitos, além de gritos e faixas, são atiradas bananas nos gramados. Longe dos estádios, chama à atenção a pouquíssima atuação desses grupos vitimados enquanto treinadores e dirigentes. O racismo, assim, está nas duas pontas, tanto ao identificar negros como sendo qualificados apenas para ser jogador de futebol ou atleta em geral, quanto ao não vê-los capacitados para dirigir um time ou agremiação.

É verdade que nem todas as pessoas – inclusive os envolvidos, agressores ou, às vezes, os próprios agredidos – analisam a questão dessa maneira. Para tantos, as ofensas de jogadores ou as atitudes de torcidas são vistas como algo que “faz parte do jogo”. “Não passam de xingamentos” ou, em termos mais amenos, “provocações normais” dentro de uma disputa entre equipes ao longo dos 90 minutos (TONINI, 2010). Aliás, o próprio presidente da FIFA, Joseph Blatter, disse algo muito parecido em novembro último. É como se durante esse espaço-tempo valessem outras normas sociais, as quais consentem ou, ao menos, toleram atos discriminatórios contra quem quer que seja. Para conseguir a vitória – ainda que seja apenas moral – sobre o adversário valeria tudo ou quase tudo.

Joseph Blatter presidente da FIFA. Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil.

Consciente ou inconscientemente, muitas das pessoas que defendem essa lógica explicam o racismo com base no clubismo. De fato, cada clube de futebol mobiliza emocionalmente a sua comunidade afetiva (torcedores) em torno de suas representações, seja prática (o time) ou simbolicamente (o escudo, as cores, o mascote/animal). Em um campeonato oficial, há o enfrentamento simbólico das comunidades afetivas, as quais, de acordo com a história de cada clube, tramam “os pertencimentos futebolísticos às identidades de classe social, raça, cidade, região, religião, nação e assim por diante” (DAMO, 2006, p. 48). Essas tradições, é verdade, podem ser inventadas (HOBSBAWM; RANGER, 1997), o que não impede, digamos,  que um clube tido como “de elite” tenha torcedores das camadas populares, ou um clube de uma região tenha torcedores de outra.

Por mais que envolva diversas categorias sociais e seja um componente essencial para a compreensão do futebol de espetáculo, a causa clubística ou nacionalista, no meu entender, não dá conta de explicar, muito menos justificar, não justifica a ofensa contra negros, latinos ou turcos, por exemplo. Como entender uma atitude discriminatória de um futebolista ou torcedor para com um jogador negro do clube adversário e não aquele do seu time? Se for aqui no Brasil, é muito provável que ele branqueie ou suavize a cor de pele do atleta do seu clube (SCHWARCZ, 2001). No caso do futebolista, ainda há o fato de ele ser conhecido, familiar. Agora, se for na Europa, é mais provável que se tolere a presença desse indivíduo indesejado naquela agremiação.

Tal fenômeno deve ser compreendido dentro de um contexto que extrapola o universo futebolístico, ou mesmo esportivo. Conhecer o processo histórico e social de um país ou de um povo é fundamental. Para entender melhor a questão, é preciso saber, por exemplo, que os negros foram escravizados por séculos pelos brancos europeus na colonização das Américas, ou que os latinos são oriundos de países pobres e que muitos deles migram para países desenvolvidos para realizar trabalhos sem prestígio e até sub-humanos, ou ainda que os turcos já fizeram o mesmo num passado recente na Alemanha e que hoje disputam com alemães vagas qualificadas no mercado de trabalho. Assimilar como determinadas coletividades são estigmatizadas ou estereotipadas (GOFFMAN, 1975) dentro de uma dada sociedade é ponto-chave nesse debate, inclusive para entender por que há, por exemplo, negros gremistas que discriminam irmãos de cor que torcem pelo Internacional.

Esperando que essa argumentação tenha sido esclarecedora, voltamos ao episódio de racismo citado no início desse texto para lançarmos algumas últimas perguntas. Como se sabe, o zagueiro John Terry é acusado de racismo pelo atleta Anton Ferdinand em partida válida pelo campeonato inglês, entre Chelsea e Queens Park Rangers, no dia 23 de outubro de 2011. O caso foi parar na justiça comum, mobilizando esferas sociais para além do esporte. A pressão política, em boa parte do movimento antirracista, sobre a FA, Federação Inglesa de Futebol, foi tamanha que ela decidiu tirar a braçadeira de capitão da seleção do zagueiro. Não consultado e contrário à medida, Fabio Capello manifestou-se publicamente, aumentando a crise na instituição. A decisão foi mantida, e o treinador pediu demissão nessa semana que passou.

Zagueiro inglês do Chelsea John Terry. Foto: Paulblank.

Como Terry poderia continuar sendo o capitão da Seleção da Inglaterra – de quem se espera liderança e respeito – se no elenco há jogadores negros? (Aliás, o próprio companheiro dele na zaga não só é negro como irmão do jogador supostamente insultado). Qual será a postura desses jogadores? E a do Terry perante eles? Haveria ou ainda há clima para relacionamento amistoso e respeitoso entre colegas de trabalho? Como ficaria o ambiente entre todos os profissionais do time nacional se uma medida no mínimo como essa não fosse tomada? Sabendo que o futebol canaliza tensões sociais, como a FA poderia ter agido diferente (ainda que se saiba que tenham tido interesses de ordem política e econômica na decisão)? Que imagem eles iriam passar da instituição, do selecionado e, em certa medida, até do país se não tomassem nenhuma atitude? Enfim, como o futebol através de suas instituições pode agir positivamente diante desses casos? Se quiser não só reproduzir em seu campo as mazelas sociais, poderia – deveria, na minha opinião – debater profundamente a questão, mesmo que não conseguisse findar com o racismo, mas, pelo menos, para tomar medidas esperadas, exemplares (não que esta da FA tenha sido a melhor). Afinal, “construir um futuro melhor” não é uma das missões da FIFA?

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Referências bibliográficas
DAMO, Arlei Sander. Do dom à profissão: formação de futebolistas no Brasil e na França. São Paulo: Hucitec/ANPOCS, 2007.

_____. O ethos capitalista e o espírito das copas. In: GASTALDO, Édison; GUEDES, Simoni Lahud (Org.). Nações em campo: Copa do Mundo e identidade nacional. Niterói: Intertexto, 2006.

GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.

HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence. A invenção das tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. Racismo no Brasil. São Paulo: PubliFolha, 2001.

TONINI, Marcel Diego. Além dos gramados: história oral de vida de negros no futebol brasileiro (1970-2010). 2011. 432 f. Dissertação (Mestrado em História Social)-Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011.

WIERVIORKA, Michel. O racismo, uma introdução. São Paulo: Perspectiva, 2007.