03.5

Relações entre futebol e carnaval na cidade de São Paulo

Maurício Rodrigues Pinto

O samba e o Carnaval popular são criações genuínas de grupos negros, dentre os muitos que vieram a São Paulo, egressos do interior paulista a partir da década de 1880 e, principalmente, após a declaração formal da abolição da escravidão em 13 de maio de 1888. Tais grupos estavam fixados, principalmente, nas áreas mais pobres de bairros com forte presença imigrante, como o Bexiga e a Barra Funda, além do Glicério. Uma prova disso é a presença de três das mais tradicionais entidades Carnavalescas de São Paulo nesses bairros: no Bexiga, o Vai-Vai (fundado em 1930); na Barra Funda, o Grupo Carnavalesco Barra Funda (o primeiro cordão Carnavalesco de São Paulo, fundado em 1914 e que foi embrião da atual Camisa Verde e Branco); e no Glicério, a Lavapés (a primeira entidade fundada como escola de samba no ano de 1937).

Já o futebol surge como um esporte praticado pela elite branca. Atribui-se a Charles Miller, filho de pai escocês radicado no Brasil e mãe brasileira de ascendência inglesa, a introdução do esporte bretão no Brasil em 1894. Até o fim da primeira década do século XX, o futebol preservou o seu status de esporte da elite. Porém, o futebol foi se popularizando e, em pouco tempo, foi sendo “tomado” por indivíduos dos segmentos mais pobres da sociedade, com destaque para os atletas negros, que, por muitas vezes, foram protagonistas da história do futebol brasileiro.

Mesmo apresentando origens tão distintas, o futebol e o samba tornaram-se as duas principais atividades de lazer da população negra de São Paulo. Ambas transcenderam o seu caráter lúdico e assumiram o papel de manifestações culturais que contribuíram para demarcar o espaço do negro na sociedade.

E nas primeiras décadas do século XX, a ligação entre atividades e o futebol de várzea foi muito intensa. Por muitas vezes, o futebol funcionou como elemento aglutinador de um grupo de pessoas para a fundação de entidades Carnavalescas.

Um dos casos mais representativos dessa ligação é o nascimento do então cordão Carnavalesco Vai-Vai, que surgiu de uma dissidência de um time de futebol do bairro do Bexiga, o Cai-Cai – que adotava as cores preto e branco em homenagem ao Sport Club Corinthians. O time promovia bailes mensais e um grupo de rapazes era constantemente barrado nesses bailes.

“Esses rapazes, cansados de serem afastados dos bailes com a frase: ‘Vai, vai embora!´, resolveram organizar o seu próprio grupo de dança, cuja primeira atividade a ser realizada foi um desfile Carnavalesco, que saindo da Bela Vista foi até o bairro de Pinheiros (…). Para marcar jocosamente sua rivalidade com o outro grupo do mesmo bairro, se autodenominaram Vai-Vai.” (Von Simson, 1989: p.95)

O Vai-Vai rapidamente conquistou o seu espaço no bairro e, para a realização das suas festas e partidas de futebol, passou a alugar os espaços de um outro time de várzea do bairro: “O grupo alugava o campo do Lusitânia para jogar futebol e o salão para os bailes e ensaios Carnavalescos.” (Von Simson, 1989: p.95)

Muitos dos times de futebol de várzea ligados a grupos Carnavalescos, basicamente composto por jogadores negros, a partir da década de 1920 e, sobretudo, da década de 1930, passaram a servir de trampolins para a ascensão social desses indivíduos: “… a ambição da maioria dos jogadores de futebol negros era jogar para os times brancos, mais conhecidos…” (Andrews, 1998: p.222).

O esporte se popularizava – tanto dentro de campo, como nas arquibancadas – o que provocou uma transformação no caráter do jogo:

“Mandar a campo a ‘turma que saiba vencer´ implicava não impor barreiras econômicas, sociais ou raciais aos jogadores, algo que (…) não era muito simples para os supostos donos do esporte. A necessidade de vitórias, contudo, colocava-se como questão de sobrevivência para os clubes, levando muitos deles a oferecer gratificações em dinheiro – os consagrados bichos – como forma de atrair bons jogadores para seus quadros, fossem eles brancos ou negros, mulatos ou imigrantes.” (Franzini, 2000: p.22)

Com a profissionalização do futebol paulistano em 1932, uma boa performance em jogos e campeonatos de várzea poderia render um contrato com um dos times grandes da cidade. Outra possibilidade seria a contratação por fábricas e indústrias, que mantinham times de futebol que participavam de ligas amadoras, exercendo cargos mais “leves” e ganhando salários maiores.

Em contrapartida, essa atração despertada pela popularização e profissionalização do futebol, no decorrer dos anos, acabou contribuindo para que essa relação entre entidades Carnavalescas e futebol enfraquecesse:

“Na verdade, o rápido processo de profissionalização do futebol amador, que se iniciou nesse período, com crescente absorção dos bons jogadores, acabou esvaziando a atividade realizada amadorísticamente. Não havia um retorno econômico suficiente que justificasse os investimentos, sempre custosos, dos cordões Carnavalescos nessa área, os quais acabavam funcionando simplesmente como celeiros de bons jogadores para o futebol profissional” (Von Simson, 1989: p188)

O próprio crescimento do Carnaval também foi responsável pelo desaparecimento de muitos times de futebol ligados a agremiações Carnavalescas. Passou-se a exigir uma postura cada vez mais profissional das agremiações – fato que se torna ainda mais evidente a partir de 1968, quando a Prefeitura de São Paulo oficializou e passou a promover o Carnaval paulistano – o que as obrigou a concentrarem maiores atenções e investimentos nas atividades ligadas ao Carnaval.

Bibliografia
ANDREWS, George Reid. Negros e brancos em São Paulo (1888-1988). Bauru, SP: EDUSC, 1998.
BRITTO, Iêda Marques. Samba na cidade de São Paulo (1900-1930): um exercício de resistência cultural. São Paulo: FFLCH/USP, 1986.
VON SIMSON, Olga Rodrigues de Moraes. Brancos e Negros no Carnaval popular paulistano: 1914-1918. São Paulo: Tese de doutorado apresentada à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 1989.