15.3

Respirando Eto’o – Douala, Camarões

Tiago Carrasco, João Henriques, João Fontes

Em Douala, quase metade da população masculina anda na rua com a camisola verde dos “Leões Indomáveis”, a selecção camaronesa. A outra metade usa com o equipamento do Inter de Milão. Nas costas, num amarelo fluorescente ou num branco imaculado, estão estampadas as letras e os números que descodificam a identidade do herói da nação: “Eto’o 9”. Eu e o Gordo não resistimos. Tínhamos de vestir essa segunda pele dos camaroneses para nos sentirmos possuídos pela febre futebolística. Fomos até à City Sport, uma rua dedicada à venda de camisolas, bonés, chinelos e bandeiras de Samuel Eto’o e, após termos sido disputados pelos vendedores, escolhemos a melhor falsificação – sete euros a unidade. Agora sim, vestidos a rigor com a camisola do melhor jogador do país como se pede a qualquer turista que se preze, estávamos prontos para a grande noite. O Inter de Milão de Samuel Eto’o joga hoje contra o Barcelona e Douala vai parar para assistir ao jogo. Nós vamos vê-lo no bairro Ngangué, onde o craque cresceu.

É uma rua de terra poeirenta e sem corrente eléctrica. Logo à entrada, uma multidão de vultos desassossegados rompem a escuridão, iluminados pela luz ténue do televisor e de duas lâmpadas débeis instaladas no tecto do bar. “Giuseppe Meazza”, diz o letreiro do estamine, pintado às listas azuis e negras. À nossa chegada, os vultos, agora mais nítidos, voltam-se para nós e apontam para as nossas camisolas: “Samuel Eto’o Fils, o melhor do Mundo”, berra um deles. Recebemos com alegria e naturalidade os abraços e os apertos de mão de boas-vindas e o peditório para algumas cervejas. No canto superior direito do ecrã, o resultado assinalava já: Inter 1 – Barcelona 1. “Estão a ver este bar? Dantes chamava-se Nou Camp e era azul e grená. Toda a gente vinha aqui ver os jogos vestido com a camisola do Barça”, diz-nos François, um dos vizinhos de infância de Eto’o. “Mas hoje as pessoas detestam o Barcelona porque eles trataram mal o nosso irmão Eto’o. Algumas pessoas queimaram a camisola do Barça”.

Chega o intervalo. François está surpreendido com a nossa descontracção no seu bairro de má reputação. “Vocês podem estar à vontade. Tenham apenas atenção se o Inter marcar. Vão tentar roubar-vos”. A profecia de hostilidade concretizou-se ainda antes do reatamento do desafio quando reparámos que o árbitro era o nosso conterrâneo Olegário Benquerença. “O árbitro é português!”, disse, num volume mais alto do que deveria. “Ai é? Pois, o português já nos anulou uma jogada perigosa por um fora-de-jogo inexistente”, reagiu, com cara de poucos amigos, um dos fãs de Eto’o que assistia ao jogo de pé, mesmo ao nosso lado. Não precisou de se preocupar com erros de arbitragem durante muito mais tempo. Aos 48 minutos, Maicon fez o 2-1 para o Inter. Os adeptos saltam das cadeiras, catapultados pela euforia, e batem com as mãos com toda a força no tampo das mesas. Mesmo sendo simpatizante do Barcelona, não consigo deixar de saltar com a claque. O João Henriques estava a fazer o mesmo quando lhe meteram a mão no bolso e, só no último instante, conseguiu interceptar o amigo do alheio que já escapava com o seu telemóvel. “Eu avisei”, disse François. No terceiro golo, marcado por Milito, a mesma coisa – desta vez, alguém palpou o conteúdo do bolso do Gordo. “Espero que o Inter não marque mais golos”, disse a François. “Não quero sair daqui nu”. Anda uma equipa de filmagens japonesa no bairro de Eto’o, escoltada por dois ou três seguranças: Entram no bar, apanham a comemoração do terceiro golo e vão-se embora, sem dirigir a palavra a ninguém. “Era assim que vocês deviam trabalhar”, diz-me François. “Se assim fosse não estávamos aqui a falar contigo”, respondo-lhe.

Eto’o conseguiu driblar o destino. Não fora o seu talento e, provavelmente, seria mais um dos rapazes que atacam os bolsos dos estranhos assim que estes levantam os braços e gritam “golo”. Chegou a esta rua quanto tinha sete anos com os pais e os seus cinco irmãos. Recebeu a primeira bola das mãos do seu tio e decidiu que queria ser jogador de futebol quando agarrou a camisola que o seu ídolo, Roger Milla, atirou para a assistência após um Camarões 2 – Zâmbia 0. Aos 10 anos, entrou na escola de futebol Brasseries e, com 12, integrou a equipa principal do Avenir Douala, da segunda divisão, jogando lado a lado com rapazes com mais de vinte anos. Foi descoberto num jogo da selecção juvenil camaronesa, com apenas 15 anos, por um olheiro do Real Madrid que lhe abriu as portas do futebol europeu. Depois, é a história que se conhece. Rejeitado e subaproveitado pelos madrilenos, que o emprestaram durante várias épocas ao Mallorca, transferiu-se para o Barcelona por 24 milhões de euros e construiu um palmarés invejável: bicampeão europeu, tricampeão espanhol, campeão olímpico e duas vezes vencedor da CAN com a selecção e considerado o terceiro melhor jogador do Mundo pela FIFA, em 2005. No último defeso, Josep Guardiola, treinador do Barcelona, quis trocá-lo por Zlatan Ibrahimovic ,do Inter, contra a vontade do camaronês que não queria sair da Catalunha. “Ele apareceu aqui no Natal a chorar porque tinha sido rejeitado pelo Barcelona. Ele dava a vida por aquele clube”, conta-me François. Agora, com a ajuda de Mourinho, o camaronês voltou a driblar a adversidade – está a meros 90 minutos de afastar o Barcelona da Liga dos Campeões.

A festa prolongou-se no bairro pela noite fora: “Eto’o é Deus, Eto’o é o campeão, Eto’o melhor do Mundo”, gritavam-nos, à nossa passagem. No bar “Parlament 9”, o primeiro treinador de Eto’o, vestido com uma camisa e um boné brancos, dançava embriagado. “Foi ele que o descobriu, foi ele que o descobriu”, aponta o nosso amigo François, enquanto o técnico, cambaleante, se dirigia a nós para nos apertar a mão. Mesmo durante o jantar, as nossas camisolas verde indomável com o nome do rei nas costas valeram-nos entrevistas, saudações e abraços. Eto’o fez-nos sentir camaroneses nas ruas de Douala. Só mesmo quando entrámos num bar com música ao vivo e ambiente aquecido por luzes púrpuras, olhámos para a nossa vestimenta e nos voltámos a sentir turistas acidentais.

*Tiago Carrasco, João Henriques e João Fontes foram de Portugal à Àfrica do Sul no projeto Road to World Cup. Foi mantida a grafia original, de português de Portugal.