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Ressacada: entre a paixão torcedora e a lógica da cidade capitalista

Gilmar Mascarenhas

Tenho insistido que cada estádio é único em sua combinação de características, sejam elas arquitetônicas, locacionais, históricas ou “socioculturais”, termo que aciono aqui especificamente para tentar abarcar um rol de elementos gerais ligados ao uso (que produz memória) e apropriação simbólica deste equipamento. Insisto também que as singularidades de cada estádio se relacionam diretamente com a cidade que o envolve. Esta premissa é, aliás, uma das principais motivações desta coluna.

Aproveitando parte das férias docentes, estive semana passada na bela capital catarinense. Já conhecia a cidade e seus dois principais estádios, mas desta vez precisava revisitar um deles para colher novas impressões e reunir elementos atualizados, visando esta coluna. Assim fui parar numa noite de quarta-feira no Estádio Aderbal Ramos da Silva, vulgo Ressacada, para assistir à animada vitória do Avaí FC sobre o Hercílio Luz, 3 a 0, pelo primeiro turno campeonato catarinense. Com ingressos que nos tempos atuais certamente podemos considerar a custo “popular” (20 reais a inteira em todos os setores, exceto a área VIP), cinco mil pagantes prestigiaram a partida. Naquele mesmo “meio de semana”, Vasco, Botafogo e Fluminense, jogando pelo Campeonato Carioca obtiveram, somados, média de público similar. O atual milionário time do Flamengo alcançou doze mil pagantes no mesmo dia, de forma que o público na Ressacada pode ser considerado muito bom para o “porte econômico” do Avaí e pelo tamanho de sua torcida. Parabéns aos avaianos!

Um pouco antes da partida, estava eu curtindo o entardecer numa praia em Coqueiros e já me preparava para partir quando as luzes do estádio começaram lentamente a se destacar no horizonte. Tive de aguardar o anoitecer para registrar imagens fotográficas que realçam a importância e imponência deste objeto geográfico na paisagem urbana florianopolitana. Mas que escancaram também a condição isolada deste equipamento em meio à planície quase deserta, na Baía Sul.

Fotografias 1 e 2: vista da Ressacada iluminada a partir do continente. Foto: Gilmar Mascarenhas, 23 de janeiro de 2019.

Fotografias 1 e 2: vista da Ressacada iluminada a partir do continente. Foto: Gilmar Mascarenhas, 23 de janeiro de 2019.

Inaugurada em 1983, a Ressacada é materialização do processo de expansão urbana acelerado que Florianópolis passou a apresentar a partir da década de 1960. Por ocasião da Copa do Mundo de 1950, por exemplo, a capital catarinense era ainda uma acanhada cidade com apenas cinquenta mil habitantes. Quando o referido estádio foi construído, três décadas depois, a mesma já contava com duzentos mil habitantes. Já não era mais viável para um dos principais clubes da capital mandar seus jogos na área central de Florianópolis. Este processo de “descentralização” dos estádios, que outras capitais brasileiras vivenciaram entre as décadas de 1920 e 1950 (Belo Horizonte e Salvador, por exemplo), chegou um pouco mais tarde por aqui, devido ao supracitado porte acanhado da cidade.

O termo Ressacada, conforme explanação do grande amigo e professor do Departamento de Geografia da UFSC, o tricolor carioca Clécio Azevedo da Silva, deriva das características naturais particulares daquela área, que resumidamente conjuga formação de restinga com mangue enquanto domínio fitogeográfico de planície costeira. Deriva também a toponímia, segundo outra teoria que não exclui a anterior, com o nome de antiga e importante fazenda de gado bovino, em pleno funcionamento até a década de 1950 (dela restou um setor hoje vinculado á UFSC, como campo experimental). Daí que, quando deixou a área central, o Avaí migrou para “as bandas da Ressacada”.

O advento da Ressacada aposentou definitivamente o antigo Estádio Adolfo Konder, também vulgarmente conhecido como “Campo da Liga” ou mesmo “Pasto do Bode“, em clara alusão a usos rurais pretéritos daquela porção de terra. O pequeno estádio fora inaugurado em 1930, poucos anos após a fundação do Avaí FC. Estava graciosamente inserido entre o mar e a montanha, aliás mais um traço “carioca” desta cidade cujo sítio natural propicia lindas paisagens e cuja vida praiana destila e engendra agradáveis tons de informalidade.

Estádio Adolfo Konder. Foto: Leandro Konder (reprodução).

Em seu lugar foi construído um grande centro comercial, o Beiramar Shopping, destino comum a muitos de nossos antigos estádios localizados em áreas centrais que alcançaram grande valorização posterior. Em 1960, o Figueirense, já havia inaugurado o estádio Orlando Scarpelli. Caberia pois ao “Leão da Ilha” edificar um estádio à altura de seu maior rival, permutando a valorizada área por um terreno muito maior, em zona praticamente desocupada, a doze quilômetros do Centro, na parte sul da Ilha, a menos habitada.

Ainda no século XVII, a atual Floripa foi fundada como povoado, atendendo por Nossa Senhora do Desterro, e assim permaneceu mesmo quando elevada à categoria de cidade, em 1823. Com o advento da República, Desterro resistiu enquanto severo núcleo monarquista, até que o presidente Floriano Peixoto enviasse tropas para esmagar a resistência: consta que trezentas pessoas, entre juízes, oficiais militares, engenheiros e desembargadores foram fuzilados na “Chacina de Anhatomirim”. Como castigo pela resistência, Floriano Peixoto rebatizou a cidade em 1894, com apoio do governador catarinense Hercílio Luz, de forma imperialista, impondo seu nome, o do cruel repressor: “cidade de Floriano”. Desterro, ato de banimento nos tempos coloniais, designação removida da história local, foi metaforicamente revivido quando o Avaí perdeu sua majestosa localização para se instalar no vazio distante do manguezal. Um clube desterrado? Sim, como tantos outros clubes que já migraram rumo à periferia no enfrentamento da lógica capitalista de valorização do espaço.

No contexto de obsolescência do antigo Leandro Konder, Florianópolis não apenas apresentava rápido crescimento econômico e demográfico. Havia (e há) também o processo de turistificação em curso, acentuando ainda mais o encarecimento da terra urbana. Muitos moradores e atividades desprovidas de condições de bancar os novos custos da especulação imobiliária irrefreada se deslocaram para a parte continental, fugindo da carestia na “Ilha da Magia”, conforme passava a ser conhecida a Ilha de Santa Catarina, que segue atraindo vultosos investimentos em resorts e projetos habitacionais luxuosos. Diante deste quadro, para não deixar a Ilha (sua marca “geográfica” de pertencimento, contrapondo-se ao rival continental, o Figueirense), o clube recorreu a uma zona bem menos cobiçada, vizinha ao aeroporto Hercílio Luz e de extenso manguezal (área natural protegida), no bairro Carianos, na época (anos 1970) ainda em formação e fazendo parte da Costeira do Pirajubaé.

A opção economicamente mais viável resultou em situação de certo isolamento do estádio, cuja acessibilidade é considerada o seu maior problema até hoje. A presença do aeroporto e da supracitada área protegida, ambos de extensa superfície, definem o cenário de isolamento, acrescido do impedimento legal de adensamento demográfico (verticalização) do bairro Carianos, devido à proximidade com o aeroporto. Não por acaso, em seu site oficial, o Figueirense enaltece o entorno adensado de seu estádio, cercado de bairros populosos a garantir acessibilidade e afluxo constante de torcedores: “localizado no bairro mais populoso e de fácil acesso da região Metropolitana de Florianópolis (…) Os bairros (…) asseguram uma população circunvizinha equivalente a 35% da região metropolitana”. Os torcedores do Figueira costumam se referir à Ressacada como “mangue”, de forma pejorativa.

Marcada pelo urbanismo fortemente calcado no transporte particular individual (quase a metade dos habitantes possui automóvel, média muito superior a das demais capitais brasileiras), Florianópolis vem conformando sua geografia urbana na forma de um espaço excessivamente estendido, ainda hoje com muitos “vazios”: a típica urbanização dispersa do american way of life. Mais propriamente californiano. Neste sentido, a condição locacional da Ressacada se assemelha a muitos estádios norte-americanos, “suburbanizados”, muitas vezes distanciados da zona urbana mais compacta, e acessível sobretudo (ou somente) pela via automobilística. A única via de acesso ao estádio do Avaí sofre engarrafamentos prolongados em dias de jogo. Haja paixão.

Não obstante a dificuldade de acesso, os torcedores afluem ao estádio. Para além dos tradicionais laços de pertencimento clubístico, a cidade colabora de alguma forma para este afluxo, considerando os índices de violência relativamente baixos para a média nacional. Neste sentido, verificamos a presença maciça de mulheres e crianças no estádio em plena quarta-feira à noite, algo incomum na maioria das capitais brasileiras, fenômeno relacionado a questões mais abrangentes: a inserção da mulher no espaço público florianopolitano. No mais, entendo que a segurança nos estádios e seu entorno decorre muito mais do nível de segurança geral de uma cidade, do grau de cidadania vigente, do que dos aparatos tradicionais (câmeras, muros) aplicados sobretudo nas arenas. É a cidade bem gerida que garante segurança, não a arenização. Esta gera enclaves, violentos por si mesmos, caminho mais fácil para garantir a ilusória segurança para poucos.

Pós-jogo: passam das 23 horas e três jovens torcedoras se deslocam com aparente tranquilidade, como tantas outras. Cena incomum em estádios como o Nilton Santos, São Januário ou Maracanã, no Rio de Janeiro. Foto: Gilmar Mascarenhas, 23 de janeiro de 2019.

Adentrei no estádio pelo setor Descoberto A, lateral ao campo de jogo. Mas pude facilmente me deslocar, no intervalo, para o setor Descoberto B (linha de fundo), para me juntar à animada Mancha Azul. Aliás, antes do jogo, circundando o estádio, já se podia saborear a batucada e os cânticos que ecoavam para as ruas ao redor. Esta informalidade, que provavelmente ocorre apenas nos certames estaduais, permite circulação entre setores e propicia uma vivencia muito mais rica e plural do estádio. A hipersetorização, de que nos fala Fernando Ferreira, em sua tese de doutorado, aliada à imposição de barreiras físicas intransponíveis no interior das modernas arenas, produzem um confinamento extremo, que empobrece o usufruto do estádio.

Mancha Azul, alegria e alento constante. Foto: Gilmar Mascarenhas, 23 de janeiro de 2019.

Minha primeira e última visita à Ressacada ocorrera em 2004, por conta de evento acadêmico na UFSC sobre Michel Foucault (no qual apresentei trabalho sobre o panoptismo e controle disciplinar nos estádios, em parceria com Christopher Gaffney). Era também um jogo noturno, mas não recordo os detalhes. A famosa “costeirinha” (setor popular, espécie de “Geral”, junto ao campo, cuja denominação provém do antigo nome do bairro: Costeira do Pirajubaé)[i] existia fisicamente mas já não recebia torcedores, de forma que a Ressacada não mais acolhia públicos na casa dos 30 mil pagantes como outrora. Mas a atmosfera era a mesma, de muita descontração e relativa paz.

O equipamento desde então sofreu algumas alterações. Surgiram camarotes e setor VIP, foi coberta mais uma arquibancada lateral, encadeiramento completo (desde 2009), de forma que o grau de conforto aumentou significativamente. Sim, redução drástica da capacidade de público, para 18 mil assistentes, como tem ocorrido em escala planetária. Neste contexto, embora agredindo o patrimônio material do clube, os torcedores fazem prevalecer a velha tradição de ficar em pé no último degrau, danificando as cadeiras, conforme observamos na foto abaixo.

Último degrau do setor B. Foto: Gilmar Mascarenhas, 23 de janeiro de 2019.

O importante é que temos ainda ingressos acessíveis para camadas populares (ao menos nos certames estaduais) e a festa não foi totalmente abafada. Resta saber até quando, pois paira no ar uma tensão estrutural de médio ou longo prazo: de um lado, uma cidade que continua seu processo de especulação imobiliária e elitização, expulsando gente e usos menos capitalizados para fora da ilha; bem como uma cidade que amplia sua frota de automóveis, com precário serviço de transporte público, a complicar ainda mais as condições de acesso à Ressacada, cuja média de público é bem inferior a de seu rival; de outro, o futebol em sua fase atual (pós-1980) de oligopolização, a concentrar recursos em poucos clubes e condenar a maioria ao empobrecimento. Situado na periferia do circuito nacional, tende a ficar cada vez mais difícil para o Avaí ter receitas suficientes para se manter na encarecida “Ilha da Magia”. Em 2014, ações judiciais trabalhistas quase provocaram a penhora do estádio. O fato de ser uma área que (ao menos até o presente) atrai bem menos investimentos que a média da Ilha favorece a permanência do clube.

Em suma, a Ressacada expressa todo um jogo de tensões e processos que se produzem no cruzamento entre a economia do futebol e a dinâmica urbana; entre um clube sobrevivente e a modernização mercadófila da cidade de Florianópolis.


[i] Interessante registrar que em 2008, para o célebre confronto com o Corinthians, disputando a liderança da série B, o estádio era pequeno demais para a demanda, e a Policia Militar liberou, de forma extraordinária, a venda de mil ingressos para o setor, ressuscitando assim, ao menos por um dia, a velha Costeirinha. No entanto, a preços nada populares: 25 reais, que corrigidos seriam hoje 46 reais. A estratégia de aquecer o “caldeirão” funcionou: empate diante do líder. No Orlando Scarpelli, este mesmo setor popular, também extinto, atendia pelo nome “Coloninha”, em alusão direta à população oriunda do êxodo rural.

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