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Resultados competitivos nas categorias de base do futebol: superficialidade e relevância

Otávio Baggiotto Bettega

Na maioria das situações a competição nas categorias de base do futebol é vista como um ambiente crucial de avaliação, em que comportamentos tático-técnicos desenvolvidos no treino são colocados em prática no jogo, sendo que geralmente a vitória apregoa qualidade ao trabalho e a derrota expressa ineficiência no processo formativo. Ou seja, a avaliação pelo resultado passa pela superficialidade, sendo que a vitória ou a derrota tornam-se relevantes, como aspectos positivos e negativos do trabalho.

Os clubes e escolas de futebol que atualmente são os principais ambientes formativos no Brasil em sua maioria ainda não obtém uma proposta pedagógica concreta, ou seja, deixam a organização, a sistematização, a operacionalização e a avaliação do processo na responsabilidade dos treinadores. Mesmo que tenhamos trabalhos de qualidade realizados por profissionais de gabarito, não temos uma sequência, uma proposta, um norte de onde queremos chegar, o jogador que queremos formar. Isto é, a soma das partes não representa o todo, logo, os trabalhos realizados nas diferentes categorias devem estar sustentados e interagindo dentro de uma proposta mais ampla. Diante desse contexto, as equipes de base “preparam para competir e ou competem para preparar”?

A avaliação do processo deve ocorrer constantemente com vistas ao planejamento, ao treino, ao cenário competitivo e também mesmo que sem intervenção direta, ao ambiente familiar e escolar. Senge (2011) ressalta que as principais ameaças à sobrevivência, tanto nas organizações quanto em nossas sociedades, não vêm de eventos súbitos, mas de processos lentos e graduais. Ou seja, a figura 1 expõe os resultados competitivos (eventos súbitos) que emergem com maior visibilidade e importância na avaliação, sendo que os comportamentos da equipe, o processo de ensino-treino, a proposta pedagógica e as interações contextuais (processos mais lentos e graduais) obtêm pouca visibilidade e relevância na avaliação e no redirecionamento do processo. Nesse sentido, precisa-se de um olhar mais aprofundado do processo, que busque qualificar constantemente os processos mais graduais.

Figura 1

Modelo do Iceberg na visualização do processo de formação do jogador de futebol.

 

Os comportamentos da equipe no ambiente competitivo geralmente são avaliados de forma individualizada, apontando erros sem atribuir relação na interação do jogador com companheiros e adversários e também com o ambiente de treino. Seirul-lo (em Pep Guardiola: a evolução) ressalta que uma ação de jogo compreende uma interação, pois quando faço algo em relação a você, modifico coisas suas e você também modifica coisas minhas. Assim, as tomadas de decisões dos jogadores não podem ser justificadas de forma isolada, simples e linear.

O processo de ensino-treino, aquele que acontece no dia a dia quase nunca recebe o devido valor, logo, não é creditado e perde importância quando é contemplado por resultados competitivos negativos. Esse processo necessita ser sustentado por uma proposta pedagógica, que considere o contexto social do clube, os objetivos formativos, as características dos profissionais e as particularidades dos jogadores. Na maioria das vezes os clubes investem na captação de jogadores de diferentes localidades do Brasil, não que isso seja equivocado, mas em muitas situações a captação sobrepõe a formação, ou seja, após a etapa de especialização os jogadores chegam de outros clubes e os que estão a mais tempo no contexto formativo do clube acabam sendo dispensados. Isto é, muitos se valem de uma perspectiva inatista de futebol, procuram captar talentos (como um dom) e não desenvolver (como um aprendizado), logo, será que acreditam em sua formação?

sub17

Jogadores do sub17 do Atlético Mineiro comemoram o título da Taça BH. Foto: Pedro Souza/Clube Atlético Mineiro.

O processo de ensino-treino do futebol deve prezar a formação integral dos jovens, desenvolvendo conteúdos coerentes com a etapa de formação, sendo esses, necessários e relevantes para o aprendizado. Diante disso, os princípios operacionalizados no treino não podem ser pautados somente nas dificuldades e potencialidades advindas do olhar para a competição, mas balizados pela proposta de ensino em cada etapa de formação. Nessa perspectiva, o cenário competitivo irá trazer referências para o trabalho, mas não deverá ser o norteador do processo, sendo o resultado consequência de um trabalho desenvolvido com foco na formação qualificada do jovem jogador.

Dentre essa conjuntura, os clubes devem organizar uma proposta pedagógica para as categorias de base, elencando conteúdos tático-técnicos relevantes para formação. Essa estrutura deve balizar o processo e preparar os jovens para o enfrentamento e resolução de problemas de jogo, bem como para situações externas ao treino e a competição. Assim, a explicação dos resultados competitivos não está somente nas alterações do treinador ou na individualidade dos jogadores, mas nos comportamentos da equipe, na intencionalidade e operacionalização do processo, bem como na proposta pedagógica balizadora e nos objetivos do clube com a formação profissional, pessoal e social dos jogadores. Dessa forma, acredito que podemos guiar nossa equipe por diferentes caminhos e se considerarmos somente a finalidade, podemos chegar ao mesmo produto. No entanto, trabalhar com equipes de base, transcende o resultado vinculado a vitórias e títulos, passando pelo reconhecimento dos meios e indicando que a excelência somente será significativa se houver legitimidade nas ações que conduzirão todo o processo…