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Retrospectiva 2014: um balanço das expectativas e dos números da Copa do Mundo

Bernardo Borges Buarque de Hollanda, Jimmy Medeiros

A Copa do Mundo FIFA 2014, que findou de maneira melancólica para a Seleção Brasileira de futebol, ainda merece balanços. Se foram muitos os prognósticos realizados entre 2007 e 2014, cumpre constatar que foram relativamente poucos, e tímidos, os diagnósticos acerca do mesmo, desde o encerramento do megaevento em julho do ano passado.

Se puxarmos pela memória, não é difícil lembrar que as expectativas acerca do Mundial eram bastante negativas por determinados setores dos meios de comunicação de massa. A negatividade vinha estampada em reportagens de denúncia, publicadas em revistas semanais, em dossiês jornalísticos, em mesas-redondas dos programas de televisão e em avaliações de blogs especializados.

É evidente que os ufanistas de plantão também se manifestaram, mas eles pareciam empalidecer frente à mídia nacional, e a partir de certo momento, ante a avalanche de críticas emitidas pelas agências internacionais de notícia. Esses últimos segmentos, no fim das contas, ditaram e pautaram o tom de desconfiança com a aproximação da vigésima edição da Copa.

A título de exemplo, vale elencar, entre outros, o atraso e o superfaturamento dos equipamentos esportivos; os aeroportos caóticos e inacabados; a alta voltagem da violência no cotidiano das metrópoles; os custos escorchantes das doze cidades-sede; os acidentes trabalhistas nas obras dos estádios; o caos no transporte público – as maquiagens e as novas siglas eufemísticas não conseguiram disfarçar de todo a “imobilidade urbana” vigente –; e, last but not least, as contundentes manifestações ocorridas durante o ano de 2013.

Cerca de um mês antes do início do evento, a revista alemã Der Spiegel publicou uma reportagem de capa com o título “Tod und spiele1” – algo equivalente a Morte e jogos. Nela, via-se a imagem da bola da Copa 2014 sobrevoando e arrastando uma cauda de fogo, sobre o céu da Baía de Guanabara ao fundo.

 

A esfera cruzava em riste os ares, num voo de ritmo frenético e feérico. Ela alvejava o Pão de Açúcar, um dos principais ícones do Rio de Janeiro e do país, cuja silhueta também fora tematizada, diga-se de passagem, no cartaz oficial da Copa de 1950.

 

Já a revista France Football publicou em janeiro do ano anterior a matéria Peur sur le Mondial2 – algo como “Medo sobre o Mundial”. O periódico procurava fazer uma densa análise da situação do país, enumerava algumas das maiores insatisfações populares e identificava as questões mais espinhosas dentre as inúmeras que se acercavam da preparação do megaevento.

A severidade das críticas continuou de forma intensa até a cerimônia de abertura do torneio. Nesta ocasião, a ritualística de iniciação do megaevento foi reprovada por parte significativa da mídia. A alegação principal era a de superficialidade. Algo fake, dir-se-ia kitsch, se descortinava aos olhos judicativos do mundo. Faltava ademais qualidade artística à coreografia mal encenada sobre a relva artificial da arena corintiana. A comparação levava os críticos a equiparar a mise-en-scènce a uma espécie de desfile de escola de samba de carnaval ou ao festival folclórico de Parintins, duas tradicionais festas brasileiras. Apenas mudava o cenário, transladando-se do sambródromo para o palco esportivo multiuso.

Na sequência, à medida que os jogos transcorreram, a percepção do evento sofreu uma inflexão, com a passagem do sinal negativo para o positivo entre os avaliadores. Assim que o futebol teve início, voltou-se a falar, em diapasão ufanístico, da “Copa das Copas”, da “Copa da América do Sul”, quiçá uma insinuação da imagem do Brasil-nação como potência sub-imperialista no coração do continente sul-americano.

O receio acerca dos problemas de organização e do inacabamento da construção dos estádios arrefeceu. O temor organizativo logo perdeu terreno midiático para os primeiros resultados futebolísticos dentro das quatro linhas de campo. Já na primeira rodada da competição, uma goleada surpreendeu a todos, com a vitória do selecionado holandês por cinco gols a um sobre a Espanha, equipe que chegava ao Mundial com o status de campeã do mundo.

Em poucos dias, o ceticismo quanto à realização do megaevento desfez-se. O espetáculo esportivo beneficiou-se do fato de que pôde contar com tradicionais selecionados nacionais. As seleções protagonizaram uma série de célebres confrontos internacionais, a exemplo de Argentina x Alemanha, Uruguai x Itália, Holanda x Espanha, Brasil x Chile. Logo na primeira rodada da competição, ainda na fase classificatória, ocorreu um embate entre dois campeões do mundo no chamado “grupo da morte”: Inglaterra x Itália.

Além das partidas memoráveis, configuraram-se números vistosos. Analisemos os dados da tabela abaixo. Foi o Mundial com a maior quantidade de gols, capaz de igualar os valores obtidos durante a Copa na França, em 1998. 171 vezes a bola estufou as redes, o que dá uma média de 2,67 por partida.

Tabela – Quantidade de participantes, jogos e gols nas edições Copa do Mundo FIFA:

Fonte: FIFA. Os números da Copa do Mundo da FIFA. Genebra, 2014

No ranking apresentado pela FIFA, esse total de gols numa edição da Copa do Mundo é seguido pela Copa no Japão e Coréia do Sul em 2002, quando foi registrada a segunda maior soma, 161 gols. A Alemanha, que sediou a Copa pela segunda vez em 2006, obteve a terceira maior quantidade de gols convertidos em uma edição, 147 gols.

A título de comparação ilustrativa – pois a primeira edição do Mundial no Brasil tinha um formato e uma escala de cobertura midiática radicalmente distinta, fruto de uma era ainda pré-televisiva – a Copa de 1950 alcançou oitenta e oito gols em vinte e dois jogos. Perfez-se uma média de quatro gols por partida, sendo a atual quarta maior média de gols por jogo no conjunto das vinte edições. Embora a média tenha sido superior, o total de gols representa somente 51% do montante obtido durante a edição 2014.

Gráfico – Público presente nas edições Copa do Mundo FIFA. Fonte: FIFA. Os números da Copa do Mundo da FIFA. Genebra, 2014

Ainda nesse sentido, a soma do público presente nos estádios durante todos os jogos da Copa 2014 chega a impressionar. No cômputo total, foram 3.429.873 espectadores, o segundo maior público de todas as vinte edições realizadas em oitenta e cinco anos.

Esse somatório só é ultrapassado pela Copa do Mundo dos Estados Unidos. No ano de 1994, em pleno verão estadunidense, sob sol escaldante e a pino, com jogos ao meio-dia para atender ao fuso horário dos telespectadores europeus, o total de espectadores nos estádios ultrapassou a marca de 3,5 milhões. Àquela altura, apesar de os EUA não terem tradição na prática do futebol profissional masculino, ficou evidente a sua expertise comercial na promoção de eventos esportivos de alto rendimento.

A comparação entre 2014 e 1950 revela dados interessantes no quesito público frequentador. A Copa de 1950 totalizou 1.045.246 espectadores. O somatório de 2014 é, pois, cerca de três vezes maior do que o público do primeiro torneio em território brasileiro, como também é o triplo o número de jogos a mais que em 1950.

A última edição contou com doze sedes: Maracanã, Arena Corinthians, Fonte Nova, Castelão, Beira Rio, Arena Pernambuco, Arena da Baixada, Arena Amazônia, Arena Pantanal, Arena das Dunas, Mané Garrincha e Mineirão. Já na Copa de 1950, foram seis estádios, ou seja, metade do número de praças esportivas que sediaram o Mundial sessenta e quatro anos depois. Ei-los: Maracanã, Pacaembu, Independência, Ilha do Retiro, Eucaliptos e Durval de Brito.

Na década de 1950, o Maracanã tinha a capacidade quase três vezes superior ao da atual reformulação do estádio. Deste modo, na final briosamente conquista pelo selecionado celeste estavam presentes no estádio 199.854 torcedores, ao passo que, nesta última edição, a plateia do “Novo Maracanã” atingiu 74.738 torcedores, cerca de um terço.

A diferença, evidentemente, é que em 2014 os quase oitenta mil presentes foram acompanhados pela presença virtual dos dois bilhões de telespectadores. Já em 1950, os duzentos mil torcedores da seleção brasileira, um terço da população carioca de então, tiveram acompanhamento da imaginação sonora de milhares de ouvintes radiofônicos, cujas cifras, no entanto, são desconhecidas.

Jogadores alemães erguem a taça no estádio do Maracanã. Foto: Marcello Casal Jr. – Agência Brasil.

A edição do torneio de 1950 assistiu à realização de vinte e duas partidas, o que dá uma média de público presente a cada jogo igual a 47.511 espectadores. Em 2014, o público total foi superior, o que pode ser justificado em parte pela presença do “turismo esportivo”, inexistente à época da quarta edição do Mundial. A média por jogo em 2014 foi de 53.592. Destarte, o público médio das duas edições pode ser considerado próximo, guardando-se as devidas proporções e distâncias temporais.

Nessa breve achega à numerologia do Mundial, graças aos dados disponibilizados pela entidade suíça no segundo semestre de 2014, são essas algumas das considerações que podem ser feitas, entre tantas ainda por fazer, à guisa de balanço. O importante a frisar é isto: ocorreram circunvoluções da mídia nacional e internacional, com seus sinais ora negativos ora positivos acerca da Copa de 2014 e, por extensão, acerca do próprio Brasil como nação.

Quanto aos números, eles permitem um cotejo com outras edições, especialmente a partir de 1998, quando João Havelange despediu-se da testa da FIFA oferecendo um Mundial com trinta e duas seleções na Copa da França – o dobro da quantidade que recebera em 1974, quando o belga-brasileiro chegara ao poder da entidade. Por seu turno, a tabela oficial e o quadro supracitado facultam a comparação, ainda que ciosa dos lapsos da diacronia, com a Copa de 1950. Copa esta que ninguém quer lembrar, mas da qual, paradoxalmente, todos não se cansam de referir…

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[1] Publicada no dia 12 de maio de 2014: fonte: http://www.spiegel.de/spiegel/print/index-2014-20.html

[2] Publicada em 28 de janeiro de 2014: fonte: http://www.francefootball.fr/