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De uma área à outra: a maestria de Ricardo La Volpe

Dyego Lima

Como o ex-goleiro influenciou taticamente o futebol que compreendemos hoje?

 

Certo dia, surgiu uma tese de que o goleiro possui visão privilegiada do jogo futebolístico. Dado o fato de que todas as ações no gramado acontecem à sua frente, ele pode observar detalhes que, para os outros atletas, passariam despercebidos. É seguindo essa linha de raciocínio que muitos treinadores optam por dar a braçadeira de capitão aos seus arqueiros. Eles se tornam a voz da liderança dentro de campo, auxiliando os técnicos nas tomadas de decisão e comunicação com os demais jogadores.

O goleiro Ricardo La Volpe. Fonte: Wikimedia.

São vários os exemplos ao longo da história de goleiros que se mostraram grandes capitães: Dino Zoff, Oliver Kahn, Iker Casillas, Rogério Ceni… No entanto, apesar do potencial que demonstravam, são poucos os casos de arqueiros que, ao encerrarem a carreira, seguiram no cenário da bola como técnicos. Além de Zoff e Ceni, podemos citar Emerson Leão, Michel Preud’homme, Rafael Dudamel, Julio César Falcioni. E dentre os exemplos que se encaixem nessa situação, um deles se destaca e merece atenção. Não pelos títulos conquistados, mas por seu legado: Ricardo Antonio La Volpe Guarchoni.

Nascido em Buenos Aires no dia 06 de fevereiro de 1952, El Bigotón teve uma carreira profissional relativamente curta, ainda mais se nos atentarmos para a sua posição. Foram 13 anos em campo, de 1971 até 1983. Revelado pelo Banfield, foi campeão da 2° Divisão argentina em 1973, um de seus únicos títulos como jogador. Passou ainda pelo San Lorenzo antes de iniciar sua jornada no México, que seria considerado sua segunda casa e onde promoveria sua “revolução”. Por lá, atuaria por Atlante FC e Oaxtepec, seu último clube enquanto atleta. Nesse meio tempo, La Volpe seria convocado por César Luis Menotti para integrar a seleção argentina que seria campeã do mundo em 1978, sendo reserva de Ubaldo Fillol e Héctor Baley.

Logo após pendurar as luvas, La Volpe iniciou sua carreira como técnico no próprio Oaxtepec em 1983. Sem muito sucesso, rodou por Atlante FC, Chivas Guadalajara, Querétaro, até retornar ao Atlante em 1991, onde ficou por cinco temporadas e teve seu trabalho recompensado com um título. Em 1992-93, o Campeonato Mexicano foi conquistado após vitória sobre o Monterrey na final. Sempre saudado pelo estilo de jogo ofensivo de suas equipes, o treinador tinha um lema: “Se entra para ganhar, você ganha ou empata. Se entra para empatar, você empata ou perde”.

Depois de uma rápida – e ruim – passagem pelo América, La Volpe chega ao Atlas onde, novamente, teria papel importante no futuro do futebol mexicano. No torneio de verão de 1999, que alguns anos depois receberia o nome de Clausura, o técnico conduziu o time ao vice-campeonato, ficando atrás do Toluca. E se a coroação do trabalho não veio, foi com os Zorros que El Bigotón deu mostras de seu talento para formar e potencializar jovens atletas. Naquela equipe de 99 estava o jovem zagueiro Rafa Márquez, que se tornaria o jogador mexicano mais bem-sucedido na Europa e, certamente, o principal nome da história da seleção.

Àquela altura, o treinador já punha em prática o que, tempos depois, ficaria conhecido como Lavolpismo. Inspirado pela metodologia imposta por César Luis Menotti, La Volpe baseou seu estilo na posse de bola ofensiva, ganhando terreno através da troca de passes pelo chão, nunca pelo chutão. A ideia era sustentada através de dois conceitos. O primeiro deles, chamado de achique, consistia em sempre estar em superioridade numérica onde a bola estivesse. Isso acabou evoluindo para as triangulações que são propostas no futebol atual.

O segundo conceito acabou sendo nomeado de “Saída Lavolpiana”. Ação natural do jogo moderno, consiste na saída de bola limpa, pelo chão, na reposição do goleiro. Os zagueiros abrem nas laterais e um volante se posiciona entre eles, fazendo com que o início da construção das jogadas aconteça com três, e não mais com dois jogadores. Tida como revolucionária à época, a reprodução da ideia foi levada ao ápice pelo Barcelona de Pep Guardiola. Em entrevista a ÉPOCA, La Volpe explica o contexto por trás da criação da sua saída de bola: “Minha ideia era tornar o jogo dos zagueiros mais seguro. A maioria dos times começa a marcação com dois atacantes. Dessa forma, o zagueiro precisa driblar um atacante, e normalmente eles são mais lentos e podem perder a bola com mais facilidade. Se o volante recua e encosta no zagueiro, ele tem com quem jogar. Fica uma situação de dois contra um, algo que dá mais confiança aos jogadores”.

A disposição tática dos atletas em campo por El Bigotón também serviu de inspiração para técnicos subsequentes. A maioria de suas equipes se portavam num 5-3-2 durante a fase defensiva, que se modificava para um 3-5-2 quando detinham a posse da bola. Isso foi muito notório em vários momentos do Barça, principalmente no auge em 2009, com Busquets atuando recuado entre os defensores, os laterais avançando para a zona média e Messi desempenhando o papel de falso 9. Por ser um estilo de jogo mais “refinado”, em muitas ocasiões, é visto como próprio para clubes ricos que, consequentemente, possuem jogadores de alto nível. Porém, o ponto de vista de um atleta evoluir a partir de uma ideia de atuação proposta por seu treinador nunca é analisada. La Volpe comenta: “Em primeiro lugar, todo jogador tem técnica. Todo jogador tem uma qualidade escondida, que ainda não foi explorada. O que é preciso dar para esse jogador é o entendimento dos movimentos corretos para ele conseguir jogar. E ter uma estratégia clara para facilitar o estilo de ter a posse de bola. Penso que o passe, o chute, as ações dentro do jogo não são separadas. A qualidade do jogador não está desassociada do coletivo. Por isso uma estratégia para ter uma boa saída de bola facilita muito o jogo para quem está em campo”.

Deixando o Atlas, La Volpe assumiu seu algoz Toluca em 2001. Uma rápida passagem, onde moldou a equipe que seria campeã do Apertura no ano seguinte. Essa conquista não consta no currículo do treinador pois, na reta final do torneio, optou por assumir o comando da seleção mexicana e, por isso, não poderia ficar no banco comandando o time, função que coube a Alberto Jorge.

O treinador Ricardo La Volpe. Fonte: Wikimedia

Na seleção nacional, já em 2003, El Bigotón conduziu o time ao título da Copa Ouro da CONCACAF. A equipe desempenhava um futebol vistoso, com alguns resultados empolgantes, um deles contra o Brasil. Foi na Copa das Confederações de 2005, o gol de Borgetti garantiu a vitória pelo placar mínimo e decidiu a liderança da chave contra uma seleção brasileira que seria campeã do torneio, enquanto os mexicanos cairiam nos pênaltis diante da Argentina na semifinal. A mesma Argentina que eles já haviam derrotado na Copa América de 2004. Foi também em 2005 que La Volpe lapidou outro importante nome. Sob muitas críticas, deu a primeira chance a Andrés Guardado na seleção, então com 19 anos. Ele se tornaria uma espécie de “sucessor” de Rafa Márquez como símbolo do futebol mexicano.

Na Copa do Mundo de 2006, quis o destino que mexicanos e argentinos se encontrassem novamente. Nas oitavas, após um duelo consistente que resultou num 1 a 1 no tempo normal, a eliminação veio na prorrogação, com um gol espetacular de Maxi Rodríguez. O time do México naquele confronto foi composto por: Oswaldo Sánchez; Rafa Márquez, Carlos Salcido e Ricardo Osório; José Castro, Mario Méndez, Pável Pardo, Andrés Guardado e Ramón Morales; Jared Borgetti e Kikin Fonseca. Durante seus quatro anos à frente da seleção mexicana, La Volpe fez com que o time alcançasse um surpreendente 4° lugar no ranking da Fifa, evidenciando o quão bom era o seu trabalho.

Após o Mundial, La Volpe retornou a seu país de origem para assumir o Boca Juniors, ao qual já havia rejeitado uma oferta alegando que, depois de tanto tempo treinando no México, não conhecia suficientemente bem o futebol argentino. Em pouco menos de seis meses, tomando o trabalho iniciado por Alfio Basile, El Bigotón e o Boca acabaram perdendo o Apertura para o Estudiantes numa finalíssima que teve de ocorrer após os clubes terminarem o campeonato empatados em pontos. Na última rodada, bastava um empate diante do Lanús para o Boca garantir o título, mas acabaram perdendo por 2 a 1.

Cumprindo a promessa de que iria embora caso o time não fosse campeão, La Volpe marchou para o Vélez, onde passou pouco tempo devido aos maus resultados. Assim, em 2008, retornou ao México, onde treinou Monterrey e Atlas antes de assumir a seleção da Costa Rica. No ano que passou à frente dos costarriquenhos, os resultados não se assemelharam aos conquistados com o selecionado mexicano. Foi vice da Copa Centroamericana, eliminado nas quartas da Copa Ouro e na primeira fase da Copa América, todas disputadas em 2011.

Deixando a Costa Rica, o treinador rodou por Banfield, Atlante, Chivas Guadalajara, Jaguares, até chegar ao América em 2016. Com pouco tempo de trabalho, La Volpe conduziu as Águilas ao 4° lugar do Mundial de Clubes, perdendo para o Real Madrid na semifinal, e ao vice-campeonato do Apertura daquele ano, perdendo para a forte equipe do Tigres, então vice-campeã da Libertadores.

Em agosto de 2018, o técnico desembarca no Egito para uma experiência com o Pyramids FC. Em cerca de seis meses, La Volpe construiu a base do time que finalizaria o Campeonato Egípcio na terceira colocação. Em março de 2019, retornou ao México para sua segunda passagem pelo Toluca, seu último trabalho antes de anunciar sua aposentadoria no início de 2020.

Mais do que inúmeros títulos, Ricardo La Volpe deixou seu legado ao futebol. Ideias, conceitos e estratégias que influenciaram não só o futebol do México – vide os desempenhos recentes da seleção do país e os bons nomes que vêm surgindo -, mas também mundial. Muito do que vemos em campo ao redor do globo tem uma parcela de “culpa” do técnico argentino mais mexicano do mundo. Assim, El Bigotón merece seu lugar dentre os grandes da história do esporte.

Ricardo La Volpe em ação. Fonte: Wikimedia