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Recordações de Roberto Rivellino, o (eterno) reizinho no Parque

Alexandre Fernandez Vaz

Há muitos anos uma amiga falava do irmão, músico, a quem chamava de Riva. Logo me dei conta que o apelido derivava de Roberto Rivellino, nome com o qual fora batizado. Nascido em 1970, o rapaz levava para toda a vida a homenagem ao meia-atacante campeão no México, autor do primeiro gol do Brasil na Copa, contra a então República Socialista da Tchecoslováquia.

De falta, ajudado pelo descolamento de Jairzinho da barreira adversária, o tento foi marcado com um chute fortíssimo do grande ídolo do Corinthians Paulista. Jogada semelhante, aliás, à que aconteceria quatro anos depois, no Mundial de 1974, em jogo contra a hoje extinta República Democrática da Alemanha. Não por acaso, um dos epítetos destinados ao Riva jogador era A Patada Atômica. Duas estreias, dois gols contra seleções de países que já não existem.

Fiquei sabendo da existência de Roberto Rivellino de uma maneira que não foi das melhores. Em 1974, o Corinthians completaria 20 anos sem títulos caso perdesse as finais do Campeonato Paulista para o arquirrival Palmeiras. O Alvinegro tinha um bom time e o Palestra igualmente. A equipe conhecida como Segunda Academia, com Leão, Luís Pereira, Dudu, Ademir da Guia e Leivinha, dava seus últimos suspiros depois de ser bicampeã brasileira em 1972-1973.

O jejum corintiano seguiu porque depois do empate em um gol na primeira partida, o Verdão venceu a seguinte pela contagem mínima. Naquela tarde de dezembro em que um vizinho trouxe um rádio para escutarmos o jogo enquanto o assistíamos pela televisão, o Reizinho do Parque, como Riva era chamado (Pelé era o Rei), vestiu pela última vez em jogos oficiais a camisa do Corinthians. A Fiel Torcida atribuiu a derrota ao grande ídolo, que no início do ano seguinte teve o passe vendido para o Fluminense. “Vencer ou vencer”, dizia o presidente do clube, Francisco Horta, arquiteto da equipe bicampeã carioca 1975-1976 que, enfim, deu um título no Brasil para o camisa 10.

Era a Máquina Tricolor, aquele time que encantou a todos com seu jeito alegre, técnico e habilidoso de jogar, e que encontrou seu fim exatamente em partida contra o Corinthians, em dezembro de 1976, pela semifinal do Campeonato Brasileiro. Era para o Fluminense ter vencido, com seu elenco de estrelas (Carlos Alberto Torres, Carlos Alberto Pintinho, Rivellino, Edinho, Dirceu, Doval…) frente ao organizado Alvinegro Paulista. O Flu enfrentaria o Internacional, campeão e logo bicampeão, no que teria sido o encontro entre os dois melhores times do Brasil. Mas não foi assim que aconteceu.

A Fiel invadiu o Maracanã, dividindo o estádio com os torcedores do adversário, o que formou um público de mais de cento e quarenta mil pessoas. Como costuma acontecer, empurrou o time para o empate em 1 a 1 e o viu alcançar a classificação para a final nos pênaltis, depois de 120 minutos, boa parte deles debaixo de muita chuva. Rivellino jogou mal e os corintianos não o pouparam, insultando-o durante a maior parte do tempo. Uma semana depois o Corinthians não foi páreo para o Inter, sendo derrotado por 2 a 0 no Beira-Rio e ficando com o vice-campeonato.

O Maracanã foi o palco privilegiado para o artista da bola que foi Rivellino, referência de jogador especial para nada menos que Diego Maradona, canhoto como ele. Foi lá que salvou a seleção brasileira de uma derrota frente a então campeã mundial, a Alemanha Ocidental, em 1977; foi também lá que, dois anos antes, realizou o mais famoso de seus dribles elásticos, este sobre o zagueiro Alcir Portela, do Vasco da Gama.

Depois de jogar com a camisa 11 no México, Rivellino foi ainda a duas Copas, agora com a 10, depois da aposentadoria de Pelé. Jogou bem, mas não brilhou em 1974, como aliás todo o time brasileiro, afundado em rivalidades internas. Tampouco em 1978, na Argentina, quando se lesionou durante a competição e passou a compor o banco de reservas, para só entrar em caso de extrema necessidade. Não foi preciso, e Riva, depois de sair do time, só voltou a campo durante parte do segundo tempo do jogo que valia pelo terceiro lugar, contra a Itália. Ao final daquela que foi sua última partida pelo selecionado, saiu abraçado aos companheiros.

Valdomiro Vaz Franco, Roberto Rivelino, Jairzinho em 1974. Foto: Rob Mieremet/Anefo.

Guardo na memória a imagem do craque junto com Toninho Cerezo, ambos sem camisa, resignados pela invicta campanha brasileira, insuficiente, no entanto, para chegar ao que seria o quarto título mundial. Mais que resignado, Riva levava no rosto uma expressão melancólica.

A seleção voltou para Rivellino anos depois na forma de um time de masters comandado por Luciano do Valle, clássico locutor e promoter de tantos espetáculos esportivos no Brasil. O grupo rodou o Brasil, disputou amistosos e campeonatos, no seu melhor momento teve Pelé no time.

Riva ainda fez das suas com a perna esquerda, a mesma que usou para cobrar o pênalti – jogada que não era sua especialidade nos tempos de jogador profissional – que resultou no primeiro gol na Arena Corinthians, em 2014. Era um jogo festivo na inauguração do estádio, que colocou como alegres adversários diversos ídolos da história corintiana. Foi a definitiva reconciliação com a Fiel Torcida, que com seu ídolo passou, como costuma acontecer, do amor ao ódio, do ódio ao amor.

Na minha infância Rivellino jogava no time de futebol de botões, universo em que ele nunca se transferiu para o Fluminense, nem foi jogar na Arábia Saudita, mas permaneceu no Corinthians. Era, claro, o meia-esquerda titular e melhor jogador do time.

Além disso, Riva estampava bolas de futebol para crianças, fazia propaganda de xarope e, dizia-se, era dono de postos de gasolina. Tinha passarinhos na gaiola, como meu pai e meu avô, entre eles um corrupião que imitava sua voz.

Gostava de assistir a Rivellino no Cartão Verde, da TV Cultura, não porque seja bom comentarista de futebol, coisa que nunca foi, mesmo depois de tantos anos de televisão. Mas porque é o ídolo tranquilo e sem soberba, que sabe ouvir. E porque cada programa me fazia lembrar do grande jogador a quem vi tantas vezes em ação, enquanto me educava como admirador do futebol. Devo muito a ele.

Ilha de Santa Catarina, junho de 2020.

Como citar

VAZ, Alexandre Fernandez. Recordações de Roberto Rivellino, o (eterno) reizinho no Parque.