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Robinho é a ponta do Iceberg

Mariana Vantine de Lara Villela

Há algumas semanas estamos acompanhando toda a polêmica envolvendo o jogador Robinho, acusado de cometer estupro em uma jovem albanesa, em 2013 na Itália. A diretoria do Atlético Mineiro, atual clube do atleta, se omitiu e preferiu não emitir qualquer nota sobre o ocorrido, fato esse que gerou revolta em parte dos torcedores (principalmente mulheres). Além do silêncio do Alvinegro mineiro, a diretoria do Santos manteve seu interesse em contratar Robinho, e expôs isso publicamente após a sentença que condenou Robinho. Independente da sentença final da Justiça e do que irá acontecer com o jogador, os problemas relacionados ao machismo no ambiente futebolístico não se encerram por aí.

O futebol costuma refletir vários aspectos da nossa sociedade, como a economia, estádios intimamente ligados a um projeto de cidade, e não poderia ser diferente com o machismo. Quantas vezes homens acobertaram alguma atitude machista de algum amigo? Quantas empresas fecham os olhos a atitudes abusivas de seus funcionários homens com mulheres? É exatamente isso que nossos dirigentes fazem no futebol, se preocupam em manter uma ordem social, na qual excluem os direitos da mulher.

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Robinho em ação pelo Atlético Mineiro. Foto: Bruno Cantini/Clube Atlético Mineiro.

O Estatuto do Torcedor, assim como a polícia nos estádios, se atentam mais em impedir alguns tipos manifestações de torcedores, sem sequer considerar quais de fato podem ser perigosas e quais não, deixando de lado a preocupação em garantir a integridade das mulheres nos ambientes futebolísticos.

Hoje se investe muito em manter a torcida “comportada” dentro dos estádios, nas novas arenas é muito comum ter funcionários pedindo para as pessoas assistirem os jogos sentados, e policiamento ostensivo nos arredores. Esse investimento no entanto geram reações polêmicas, em que muitos torcedores se sentem insatisfeitos com o “futebol moderno”, além de todo o policiamento ter se mostrado ineficaz no combate a violência no futebol. Mas a questão aqui não é entrar no complexo debate sobre o futebol moderno, nem de brigas entre torcidas, e sim atentar ao fato de que se insiste muito em medidas que vem se mostrando insatisfatórias aos torcedores, enquanto nada é feito para que as mulheres deixem de ocupar um espaço marginal no ambiente futebolístico.

Sem dúvidas o silêncio da diretoria do Galo foi uma vergonha, mas precisamos ter consciência de que o problema é bem mais profundo que esse posicionamento e o caso do Robinho em si. De nada adianta uma nota de repúdio e continuar naturalizando um ambiente altamente repressivo para mulheres. Com ou sem a penalização do jogador, as arquibancadas vão continuar gritando músicas machistas, torcedoras vão seguir com dificuldades em ir ao estádio sozinha com medo do assédio, as diretorias dos clubes se manterão majoritariamente masculinas, os programas de debate futebolístico sem participação feminina, isso sem falar do futebol feminino. Enquanto os clubes e a CBF não se mobilizarem para tratar do problema pela raiz, casos como o de Robinho irão se repetir.

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Robinho lamenta gol perdido. Foto: Bruno Cantini/Clube Atlético Mineiro.

Atitudes bem simples podem ser feitas para melhorar esse quadro: campanhas publicitárias de combate ao machismo em dias de jogos, vídeos na internet, formação oferecida pelos clubes para os atletas na base para que entendam todo o contexto machista em que vivemos. Infelizmente, nossos dirigentes continuam mais preocupados em impor um modelo de futebol bastante questionável.

É importante lembrar que desde 2015 vivemos uma “primavera feminista”. As mulheres tem mostrado cada vez mais vontade de lutar por direitos iguais entre homens e mulheres, seja em manifestações na rua, ou em redes sociais, reproduzindo “hashtags” como “primeiro assédio”, denunciando atitudes machistas do cotidiano. Em meio a essa conjuntura, as torcedoras e atletas começaram a expor mais suas insatisfações, criando movimentos que visem maior igualdade de gênero no futebol. Um exemplo disso é o avanço dos setoriais femininos nas torcidas organizadas, que vem conseguindo evidenciar situações machistas no futebol que antes eram naturalizadas por todos.

Apesar da ascensão do movimento feminista também no mundo do futebol, continua sendo um desafio ocupar as arquibancadas e os gramados para uma mulher. E para que essa condição se reverta, é urgente começar a olhar com mais atenção tudo o que causa tais situações extremas como o caso Robinho, e começar a agir de forma realmente eficaz.