104.17

Ronaldinho Gaúcho, craque

Alexandre Fernandez Vaz

Despertei com o Brasil perdendo de um a zero para a Inglaterra. Da bisonha falha do bom zagueiro Lúcio, fiquei sabendo depois. A diferença de fuso obrigava a madrugar, e era curioso saber que muitos e muitas estavam acordados com a luz ainda ausente, afora a que emanava dos televisores. Mas, havia um ataque afiado e feroz, de craques naquela manhã de quinta em que se jogava para prosseguir ou não na Copa de 2002. Havia aquele que seria o melhor do Barcelona, do mundo, uns anos depois, mas já incrível naquele dia. Em jogada de progressão, Ronaldinho fez o passe decisivo para Rivaldo completar, letal, para o empate e para os nervos se acalmarem, ainda no primeiro tempo. No segundo, houve uma cobrança de falta, de longe, mais para lateral, que sugeria o cruzamento para a área. Mas Gaúcho chutou direto, pegando o goleiro Seaman, adiantado, de surpresa. Golaço.

Mas, surpresa mesmo eu tive quando se especulou que o gol saíra de um erro, como se fosse possível que aquele habilidosíssimo jogador pudesse se equivocar assim. Amante do futebol e grande professor de Filosofia, Bento Prado foi ao ponto em tão breve quanto brilhante ensaio na Folha de S. Paulo, um dia depois do jogo: “Mas, isso é o discurso dos ressentidos ou, no melhor dos casos, daqueles que jamais jogaram futebol, que não têm olhos de ver a bola, as jogadas, o possível e o impossível e que confundem (por não saber filosofia) o resultado incerto com o mero efeito casual.”

Até a Copa América de 1999 eu não ouvira falar de Ronaldinho. Vanderlei Luxemburgo o convocara para o lugar do atacante Edílson, do Corinthians, que na partida final do Paulistão contra o Palmeiras fizera as famosas embaixadinhas com o jogo já decidido a favor do seu time. Briga generalizada e corte da seleção que disputaria o torneio em Foz do Iguaçu. Na primeira partida, o então jogador do Grêmio entrou em campo já com o segundo tempo avançado – e com uma camiseta que lhe parecia ser grande demais – deu uma finta desmoralizante em um defensor do time da Venezuela. Golaço.

Então eu soube. Começava ali a carreira brilhante do desconcertante jogador, o rei dos dribles, do controle de bola, do chute. Ainda no Grêmio, logo deixado para trás em favor de uma carreira europeia, um chapéu que deixou o veterano volante Dunga, em pleno Grenal, sem saber o que fazer. Soube também que se tratava do irmão de um ótimo jogador, Assis, também formado no time gaúcho e com passagem pela seleção nacional, seu mentor e logo o manager que lhe ajudaria a garantir blindagem e contratos milionários.

Ronaldinho sorrir durante o jogo contra Gana 05 de setembro de 2011. MOWA PRESS

Ronaldinho e seu sorriso em partida pela seleção brasileira em 2011. Foto: Bruno Domingos/Mowa Press.

Vi Ronaldinho em ação três vezes em Florianópolis. A última delas, em 2015, em partida pelo campeonato brasileiro da primeira divisão, contra o Avaí. Lento, bem marcado, pouco produziu. Encantou, no entanto, no aquecimento, chutando de longe a gol, sem goleiro, e acertando sistematicamente as traves. Meu prazer deve ter sido semelhante ao de um amigo, torcedor do Werder Bremen, que o viu 10 anos antes, na Alemanha, em jogo pela fase de grupos da Champions League de 2005/2006. Disse ele que jamais assistira a tamanha demonstração de habilidade com a bola até o aquecimento para a peleja. No jogo, outro show, com direito a gol na vitória por dois a zero.

Na segunda vez em que presenciei Ronaldinho em ação ao vivo foi quando ele já brilhava no Galo. Colocado em forma pelo preparador Carlinhos Neves, e com toda a confiança de Cuca, amigo e contemporâneo do irmão Assis, fez grande campeonato brasileiro e foi o líder técnico da equipe que venceu a Copa Libertadores. Contra o Figueira, no Estádio Orlando Scarpelli, uma bonita noite de sábado viu o craque tocando de primeira, virando o jogo com maestria, deixando o sistema defensivo adversário sob constante apreensão. Já não tinha a força de outrora, mas seguia genial. Minimalista.

Em 2011 na Ressacada, estádio do Avaí, a equipe da casa e o Flamengo fizeram um jogo concorrido, frente a um público numeroso, como era de se esperar. No time do Rio, vigiado o tempo todo, o camisa 10, a quem pela terceira vez eu assistia ao vivo, mais se deslocava para abrir espaços e receber do que armava os ataques. Mas, no momento em que pôde, desestruturou as expectativas locais ao encobrir o goleiro com um gol olímpico. Golaço. Assistia ao jogo com duas pessoas, um deles o amigo torcedor do Bremen. Olhamo-nos, cúmplices, deliciados com o futebol de Ronaldinho que, naquele momento, atualizava a memória de tantas delícias visuais, de permanente admiração pela beleza do jogo.

Quando a seleção brasileira venceu a da Inglaterra no Mundial de 2002, o Jornal Nacional, sacrossanto programa da emissora que detinha os direitos de transmissão – e que, portanto, misturava notícia e entretenimento, ao falar de seus próprios produtos – mostrou algo que eu nunca pensei que pudesse ser possível. Trocou as imagens da vinheta de entrada, feitas com efeitos computadorizados, pelos lances da vitória, Ronaldinho a frente. Ele mesmo, que, segundo o contemporâneo Denílson, seria, entre os dois, indubitavelmente o mais habilidoso. Uma vez perguntado, não titubeou. Cito de memória: “O Gaúcho, claro! Em uma pelada ou treino eu também faço aquelas jogadas. Mas ele as realiza em partida de Champions League!”

Genial, deixa saudades.

Ilha de Santa Catarina, fevereiro de 2018.