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Apontamentos sobre os arquivos digitais de futebol: a RSSSF Brasil

Marcus Vinícius Costa Lage

Há cerca de um ano um colega “fulião” me questionou, durante reunião do nosso Núcleo de Estudos, o Fulia, se as informações do site que eu havia usado no texto escalado para o debate eram confiáveis. De acordo com ele, esse mesmo site já lhe havia sido útil para localizar datas e resultados de alguns jogos e campeonatos de futebol. No entanto, como ele mesmo fez questão de dizer, suas visitas a esse site teriam sido circunstanciais, pontuais. Em momento algum, ele pensou em usá-lo como uma fonte, evitando, inclusive, referenciá-lo, por desconfiar de sua confiabilidade.

Devo confessar que, durante muito tempo, tive esse mesmo receio do meu colega. A internet é terreno plural, às vezes parece ser terra de ninguém. Por isso, talvez mais do que as fontes que estão fora da rede mundial de computadores – que, evidentemente, também são passíveis de questionamentos semelhantes –, não dá para confiar em qualquer informação encontrada; muito embora, se seu interesse são as tradições, as memórias coletivas, as mitologias futebolísticas, a informação “falseada”, se é que podemos dizer isso, pode ser tão ou mais interessante para sua pesquisa.

Logo da RSSSF. Foto: Reprodução/Twitter.

Essa, contudo, não me parece ser a realidade de The Rec.Sport.Soccer.Statistics Foundation Brasil (RSSSF Brasil), o site que provocou o questionamento do meu colega. A RSSSF Brasil é um “braço semi-autônomo”[1], regido pelos mesmos objetivos e pela mesma política, e partilhando o mesmo formato de sua matriz europeia The Rec.Sport.Soccer.Statistics Foundation (RSSSF). Justamente por isso, antes de falar da RSSSF Brasil, acredito ser necessária uma breve apresentação dos movimentos inaugurais de sua matriz.

A RSSSF foi originalmente fundada[2] como Northern European Rec.Sport.Soccer.Statistics Foudantion (NERSSSF) em janeiro de 1994 a partir da iniciativa de um austríaco (Karel Stokkermans), um norueguês (Lars Aarhus) e um sueco (Kent Hedlundh), todos eles pós-graduandos em Ciência da Computação com temas relacionados à estatísticas de futebol, e também colaboradores regulares do rec.sport.soccer, um grupo de correspondentes virtuais dedicado à socialização de estatísticas históricas de campeonatos de futebol. No e-mail de divulgação da página, os fundadores, por meio do austríaco Karel Stokkermans, afirmavam que seu “maior objetivo [era] colecionar todo tipo de estatísticas, em particular as tabelas de ligas de futebol de todo o mundo, e disponibilizar essa informação para as pessoas que partilham desse […] interesse.”[3] Além disso, nessa mesma mensagem, os idealizadores do projeto externavam sua preocupação com a confiabilidade das informações, defendendo que seu “objetivo final [era] ter correspondentes dos (e melhor ainda nos) países envolvidos.”[4]

Em respeito a esse movimento inaugural, ainda hoje a “Carta” de apresentação do site deixa claro que o arquivo de estatísticas por ele disponibilizado é de livre acesso e que sua produção se dá de forma colaborativa; algo que vinha sendo praticado de maneira incipiente na rede mundial de computadores naqueles anos 1990 e que mais tarde seria consagrado por experiências como a plataforma virtual colaborativa de nome Wikipedia. Como forma de universalizar ainda mais as informações disponibilizadas, todas as páginas da então NERSSSF, e da atual RSSSF, eram formatadas em Código Padrão Americano para o Intercâmbio de Informação (ASCII), um tipo de código binário criado nos anos 1960 para padronizar o uso de caracteres alfanuméricos em computadores, ou em Linguagem de Marcação de Hipertexto (HTML), código básico para a internet. Característica que contribui para dar uma aparência de formalidade, cientificidade, veracidade às informações disponibilizadas.

Apesar de ainda se apresentar como uma plataforma virtual colaborativa, três anos depois de sua criação o alto número de membros contribuintes provenientes de diversas nacionalidades fez com que o projeto deixasse de ser identificado com o norte da Europa, passando a contar com um conselho, que decide ainda hoje, dentre outros assuntos, sobre os novos pedidos de adesão. Seria, portanto, dentro desse movimento de ampliação de sua base de dados que em 2000 a primeira seção local da RSSSF foi fundada, tendo como sede o Brasil.

Muito embora o site brasileiro não divulgue a informação de quem foram os fundadores da RSSSF Brasil, ao menos uma evidência aponta para um perfil profissional semelhante entre os, digamos assim, colecionadores de estatísticas brasileiros e os norte-europeus. É que a RSSSF Brasil é hospedada por um outro site, o Chance de Gol, de autoria de Marcelo Leme de Arruda, um dos integrantes brasileiros mais antigos da RSSSF e cuja carreira acadêmica (graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado) encontra-se estritamente relacionada às Ciências Exatas, mais precisamente à área de Probabilidade e Estatísticas Aplicadas ao futebol. O Chance de Gol, de Marcelo Arruda, é um site destinado a divulgar diariamente as probabilidades de resultados dos principais jogos de futebol que irão acontecer no Brasil e no Mundo, alimentando, dentre outros segmentos, o mercado de apostas futebolístico.

Para quem ainda não teve a oportunidade de visitar a RSSSF Brasil, vai aqui uma grosseira apresentação de seu extenso conteúdo, alimentado por mais de uma centena de pesquisadores aprovados pelo conselho da plataforma. Logo em sua página principal, onze links de seções são apresentados. Como de costume, alguns deles trazem informações gerais sobre o site, seu funcionamento, o perfil de seus membros, seu grupo de discussões e os endereços eletrônicos das demais seções locais filiadas à matriz europeia. Há também uma interessante seção denominada “Livros sobre futebol”, que contém uma extensa listagem de publicações sobre o tema. E outra intitulada “Diversos”, que, como o próprio nome indica, é composta por informações de diversas naturezas, como, por exemplo, rankings de clubes, premiações de atletas, recordes de públicos em estádios brasileiros, relações de jogos de uma única equipe ou confrontos específicos. Além dessas seções, outras seis são destinadas às “estatísticas” do futebol, divididas em: “Torneios em andamento”, composta por jogos das competições em disputa na atual temporada; “Resultados históricos”, possivelmente a mais volumosa delas, que sistematiza os jogos de diversas competições nacionais, interestaduais, amistosas e estaduais já disputadas; “Seleção brasileira”, que contém “todos” os jogos já realizados pelas equipes masculinas principal, sub-20, sub-17, sub-15 e seniores/másters, e pelas equipes  femininas principal, sub-20 e sub-17 do Brasil; e “Competições internacionais”, tanto interclubes quanto envolvendo selecionados nacionais.

Em tempos de pandemia mundial, de arquivos físicos fechados, ou diante da inexistência de arquivos tão abrangentes sobre futebol, por que não lançar mão de iniciativas como estas?


Notas

[1] Sobre a origem da RSSSF Brasil, ver: RSSSF; RSSSF BRAZIL. Página de Introdução da RSSSF Brasil. 12 jul. 2016. Acesso em: 23 maio 2017.

[2] A maior parte das informações sobre a origem da RSSSF aqui apresentadas foi retirada de sua página principal. Cf. RSSSF. The introduction page of the RSSSF – The Rec.Sport.Soccer Statistics Foundation. 03 nov. 2016. Acesso em: 23 maio 2017.

[3] No original: “Our major goal is collecting all kind of statistics, in particular league tables from all over the world, on football, and making this information available to those sharing our interest.” Cf. STOKKERMANS, Karel. [INFO] Announcement Web-page. 18 dez. 1994. Acesso em: 23 maio 2017.

[4] No original: “our ultimate goal is to have correspondents from (and better yet in) the countries involved.” Cf. STOKKERMANS, Karel. [INFO] Announcement Web-page. 18 dez. 1994. Acesso em: 23 maio 2017.


Como citar

LAGE, Marcus Vinícius Costa. Apontamentos sobre os arquivos digitais de futebol: a RSSSF Brasil. Ludopédio, São Paulo, v. 136, n. 49, 2020.