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Rumo ao título: as virtudes e carências do quarteto de ferro da Copa de 2018

Gabriel Canuto Nogueira da Gama

Passou rápido, não foi? Lá se foram quatro anos do 7 a 1 e a máxima clichê, “o tempo voa”, nunca soou tão verdadeira, para mim, como agora. Talvez porque a maior humilhação futebolística que o Brasil sofrera em sua história ainda esteja indelevelmente cravada na memória coletiva dos brasileiros, ou, talvez, pelo simples fato da última edição do torneio mundial ter acontecido no país e ter reverberado intensamente, seja em termos estruturais, seja no aspecto afetivo, nos mais variados segmentos da sociedade.

Desta vez, a 21ª edição do Mundial acontecerá do outro lado do mundo, nos confins da Rússia, e, obviamente, a repercussão midiática nos últimos meses sob o espetáculo esportivo não passa nem perto da agitação em torno da Copa de 2014. Vale lembrar que o megaevento de quatro anos atrás não apagou a já arrefecida imagem da seleção brasileira, composta por jogadores que passam boa parte de suas carreiras atuando fora do continente, distantes afetivamente de seu povo, e associada a uma entidade corrupta, que gira milhões e milhões de reais, mergulhada em escândalos políticos de seus membros da alta burguesia, outrora intocáveis. Uma imagem ainda mais desgastada, sobretudo, após a acachapante derrota sofrida para os alemães, nas semifinais, ao tornar uma seleção hegemônica no esporte, pentacampeã mundial, que traçara lindas histórias e tivera tantos craques, motivo de piada e desprezo entre os próprios torcedores.

Esse tema é certamente digno de uma discussão mais profunda e atenta [1], mas o objetivo, aqui, será outro. Discutir, futebolisticamente, trazendo uma visão tática, das principais seleções postulantes ao título mundial. Na primeira parte dessa série, vamos nos ater às seleções que considero de primeiro escalão. Brasil, Alemanha, Espanha e França se credenciam, ao meu ver, como as grandes favoritas a vencer o torneio. Argentina, Bélgica, Portugal e Inglaterra correm por fora e, dentro de seus respectivos objetivos, podem surpreender chegando em uma semifinal ou até mesmo na decisão. Sobre essas últimas quatro, destrincharei na segunda metade da série a ser postada nos próximos dias.

Brasil, Alemanha, Espanha e França: dificilmente a taça escapará das mãos desse quarteto de ferro.

Brasil, Alemanha, Espanha e França: dificilmente a taça escapará das mãos desse quarteto de ferro.

Historicamente, a Copa do Mundo é uma das poucas competições futebolísticas que ainda guarda uma certa previsibilidade quando se trata do campeão. Em 20 edições, o título ficou restrito a oito países. Se formos considerar somente Brasil e Alemanha, ambos ganharam nove vezes, quase a metade do total. As únicas seleções com um título não são nenhuma zebra. França, Inglaterra e Espanha são países com forte tradição no futebol e costumam competir com grandes elencos, principalmente, os franceses e espanhóis, não obstante, estes estão entre os favoritos para a atual edição.

Diante disso, é muito difícil pensar que o título não sairá das mãos dessas quatro seleções. No máximo, o que pode acontecer é a final ser decidida entre uma das principais postulantes contra alguma outra do segundo escalão que veremos no segundo texto da série. Agora, chega de papo furado e vamos às análises!

Brasil

  • Títulos: 5 (1958, 1962, 1970, 1994 e 2002)
  • Campanha: 1º colocado nas Eliminatórias da América do Sul (12 vitórias, 5 empates e 1 derrota). Foram 41 gols marcados e 11 sofridos.
  • Craque: Neymar

Nem o mais otimistas dos torcedores brasileiros imaginariam que a seleção reagiria rapidamente ao maior vexame de sua história de cem anos em tão pouco tempo. Além da eliminação que escancarou o atraso tático nos gramados, bem como o caráter dos que regem o futebol no país, o 7 a 1 era prenúncio de tenebrosos futuros capítulos para o escrete. O cenário pessimista tornara-se ainda pior quando o Brasil se viu nas mãos, novamente, do técnico Dunga. Sem apresentar inovações no futebol, a seleção seguia dependendo da inspiração do craque Neymar e sofria com uma reformulação mal gestada pela comissão. Dois anos depois do 7 a 1, após seis rodadas nas Eliminatórias, o Brasil ocupava apenas a sexta colocação com duas vitórias, três empates e uma derrota. Para piorar, o time havia sido eliminado, ainda na fase de grupos, da Copa América de 2016.

Do jeito que as coisas estavam, e com Dunga liderando o grupo, o risco de ficar fora da Copa pela primeira vez em sua história começava a virar realidade. Até que chegou Tite e tudo mudou. Desde então, o treinador foi implacável. Engatou uma sequência de sete vitórias seguidas, levando apenas um gol. Conseguiu a classificação com incríveis cinco rodadas de antecedência, vencendo dez jogos e empatando dois. No total à frente da seleção, foi apenas uma derrota – para a rival Argentina em um amistoso em junho de 2017 – em vinte jogos.

Mais do que números impressionantes, a seleção ganhou um padrão de jogo. Tite reconstruiu a mentalidade da equipe com o seu 4-1-4-1, com os pontas fechando a segunda linha sem a bola e avançando quando o time tem a posse, ao formar um esquema vertical no 4-3-3. O futebol retrógrado de Scolari e Dunga foi superado e, se antes o time dependia dos lances individuais de Neymar, agora é o coletivo que faz a diferença. Tite encontrou equilíbrio em todos os setores com destaque especial para o meio de campo – a trinca Casemiro, Paulinho e Renato Augusto. Este último, homem de confiança de Tite, com quem trabalhou nos tempos de Corinthians, foi, talvez, a grande surpresa desse ciclo, sendo fundamental nas Eliminatórias, atuando de forma regular, sempre ditando o ritmo do meio de campo com seus passes.

Ainda no meio, não podemos deixar de falar de Casemiro. Talvez, o melhor primeiro volante dos últimos anos do futebol mundial. Peça-chave no esquema de Tite e do time de Real Madrid, tricampeão europeu consecutivo sob a batuta de Zidane. O ex-são paulino está mais do que acostumado a atuar no 4-1-4-1, pois joga com outros dois meias centrais no clube merengue, Kroos e Modric, e exerce a mesma função de cão de guarda. A diferença é que, ao contrário de Luiz Gustavo em 2014, a seleção tem uma saída de bola com muito mais qualidade com Casemiro, além da precisão nos desarmes e lançamentos.

A reformulação no elenco foi intensa. Basta ver que, dos 11 titulares e três reservas que participaram do 7 a 1, apenas quatro estão no atual elenco, sendo dois deles – Paulinho e Willian – entraram no segundo tempo diante dos alemães, e o terceiro, Fernandinho, foi titular no meio. Este virou peça importante nas mãos de Tite, mas atualmente é reserva. Apenas Marcelo, que também atuou como titular naquela partida, continua entre os onze e por razões óbvias. Ele é o melhor lateral esquerdo do mundo.

A defesa se encontrou com a dupla Marquinhos e Miranda, tanto que tomou poucos gols até aqui. No gol, Tite tem boas opções como Alisson e Ederson. O primeiro chegou a ser muito questionado pela torcida por ter ocupado nomes de outros que estavam em melhor fase na época. Ele saiu do Internacional sem ter chamado tanta atenção e começou devagar na Roma. Era reserva do clube italiano, mas foi evoluindo, ganhou a confiança do técnico Di Francesco e se tornou uma das peças fundamentais na surpreendente campanha dos romanos, ao chegarem até as semifinais da última Champions League. Não é à toa que Alisson está na mira de Liverpool e Real Madrid para a próxima temporada. Já Ederson, embora reserva de Tite, tem jogado em alto nível como titular absoluto do campeão inglês, Manchester City, de Josep Guardiola. Foi contratado a peso de ouro, como o goleiro mais caro da história, mas soube lidar bem com a pressão e fez boa temporada. Sua habilidade com os pés chama a atenção.

No ataque, Phillipe Coutinho, que sequer foi convocado para a Copa de 2014, é uma das peças incontestáveis no esquema de Tite, podendo fazer a função, ora de meia aberto pela esquerda ou direita, ora atuando como meia central no lugar de Renato Augusto. Na frente, Tite encontrou o “camisa 9” que precisava com Gabriel Jesus. A promessa amadureceu no futebol inglês e vem atuando em bom nível. Além dele, ainda tem a opção de Roberto Firmino, que vem de um desempenho individual espetacular com o Liverpool, chegando a ser vice-campeão europeu de clubes.

O grande problema da seleção se encontra na ausência de um nome à altura da técnica e da experiência de Daniel Alves, cortado por lesão nas últimas semanas. Danilo, do Manchester City, ainda não mostrou seu grande futebol da época do Santos, que o levou ao título da Libertadores, nem mesmo em seus tempos de Porto. Foi muito burocrático no Real Madrid, sem deixar saudades, e no City, de Guardiola, não faltaram oportunidades, principalmente atuando como lateral esquerdo após a grave lesão de Mendy. Entretanto, o técnico espanhol perdeu a paciência com seu futebol mediano, o preteriu e escolheu improvisar o meio campista Delph na posição, que era uma das últimas opções do elenco temporadas atrás.

É evidente que Danilo não chega nem perto da qualidade ofensiva e da liderança de Daniel Alves, muito menos tem o mesmo nível de entrosamento com os demais jogadores. Entretanto, é um jogador que tem uma boa consciência tática, foi treinado por grandes comandantes, é cascudo, pois já está atuando nas principais competições de clubes há algum tempo, e possui um bom equilíbrio quando defende e ataca. Não deve comprometer, mas a lateral direita deixa de ser uma boa válvula de escape. As ações da seleção deverão se concentrar ainda mais na dupla Marcelo-Neymar pela esquerda.

Um outro problema que a seleção poderá ter é a falta de experiência contra adversários de peso. Nesse ciclo de quatro anos, a seleção de Tite jogou muito pouco contra equipes de alto nível. Foram apenas quatro jogos, sendo dois desses com uma já conhecida, que é a Argentina. Contra grandes europeus, foram só dois duelos: empate contra a Inglaterra, 0 a 0, e vitória diante dos alemães, 1 a 0. Uma outra preocupação é se Neymar jogará em alto nível após a lesão que o tirou do gramado por alguns meses. Os dois últimos amistosos, às vésperas do Mundial, contra Croácia e Áustria, foram bons sinais. Na primeira partida, o craque foi determinante na vitória por 2 a 0, ao entrar no segundo tempo, marcando um golaço e participando das principais ações ofensivas. No segundo duelo, o “camisa 10” iniciou o jogo e, novamente, decidiu no 3 a 0, anotando um outro tento digno de pintura.  sua condição física ainda é uma incógnita para o torneio, sobretudo, quando a seleção se deparar contra equipes de ponta. Apesar das atuações acima da média de Neymar, foram jogos amistosos em que a marcação é mais frouxa e exige-se menos fisicamente do atleta. Contra as seleções da Copa, mesmo as que estão presentes no mesmo grupo que o Brasil, certamente não aliviarão nas divididas e estarão mais atentas aos espaços do campo. A tendência é o craque recuperar o ritmo e a sua forma ideal até as fases eliminatórias do Mundial.

Coutinho deve ganhar a vaga de Renato Augusto no meio de campo da seleção. Com a mudança, Willian passa a fazer companhia a Neymar e Gabriel Jesus como ponta direita.

Coutinho deve ganhar a vaga de Renato Augusto no meio de campo da seleção. Com a mudança, Willian passa a fazer companhia a Neymar e Gabriel Jesus como ponta direita.

Alemanha

  • Títulos: 4 (1954, 1974, 1990 e 2014)
  • Campanha: 1º colocado no grupo C nas Eliminatórias Europeias (10 vitórias, nenhum empate e derrota). Foram 43 gols marcados e três sofridos.
  • Craque: Toni Kroos

Uma espinha dorsal sólida e um treinador há anos no comando. Mais do que isso. Um elenco invejável. Os atuais campeões da Copa, chegaram para mais uma edição como favoritos ao título. A força de seu grupo é incontestável, basta olharmos para a campanha de dez vitórias em dez jogos nas Eliminatórias para o Mundial e o título da Copa das Confederações no ano passado com apenas metade da equipe titular.

O time é tão forte que o técnico Joachim Löw teve a audácia de preterir da lista dos 23 convocados a principal joia do futebol alemão na atualidade: Leroy Sané. A surpreendente decisão, inclusive, pegou mal para o treinador, com a torcida e a imprensa reagindo negativamente. Em entrevista recente ao jornal britânico The Sun, Michael Ballack, não poupou críticas a Löw dizendo que a abrir mão de Sané não faz o menor sentido. De fato, Sané não vinha atuando bem pela seleção, sem conseguir repetir as suas boas atuações de quando joga no Manchester City, mas penso que sequer convocá-lo é um grande equívoco. Ainda mais se tratando de seu substituto na lista, Julian Brandt, jovem jogador do Bayer Leverkusen, que tem qualidade, mas não chega nem perto do talento de Sané.

Apesar da ausência de sua promessa, os alemães seguem com excelentes opções e vejo a seleção ainda mais forte e equilibrada que a de 2014. Nem mesmo o time campeão mundial tinha esse farto leque de opções. Na defesa, por exemplo, o elenco tem grandes nomes como Manuel Neuer, para muitos o melhor goleiro do mundo, e Marc-André ter Stegen, do Barcelona. Em 2014, o time contava com Neuer, o veterano Weidenfeller e o razoável Zieler. Na zaga, o elenco atual segue com a sua sólida dupla, Jerome Boateng e Mats Hummels, mas agora conta com suplentes melhores, como Niklas Süle e Antonio Rüdiger. Em 2014, o time contava com o limitado Per Mertesacker no banco de reservas.

Quanto às laterais, de fato, a aposentadoria do ídolo Philipp Lahm foi uma grande perda, mas Joshua Kimmich, herdeiro da sua posição, tanto na seleção quanto no Bayern de Munique, tem atuado com muita segurança. A lateral esquerda é a posição mais frágil do time. Sem grandes nomes desde a Copa passada, quando improvisou o zagueiro Benedikt Höwedes, desta vez, o setor tem, ao menos, dois jogadores de ofício. O titular Jonas Hector, do rebaixado time do Colônia, não chega a comprometer tanto tecnicamente, mas joga de forma muito burocrática e é uma incógnita para os grandes jogos. Seu reserva imediato é o Marvin Plattenhardt, que ganhou a vaga do experiente Marcel Schmelzer, do Borussia Dortmund, muito em função da boa temporada de seu time, o Hertha Berlin, na última edição da Bundesliga.

No meio de campo, as presenças de Sami Khedira, Toni Kroos, Ilkay Gündogan, Masut Özil e Thomas Müller desequilibram qualquer time. Não só em termos técnicos, mas também pelo fato desses todos, com exceção de Gündogan que não esteve presente na Copa de 2014, já atuarem juntos há algum tempo na seleção. Além deles, Löw ainda conta com Leon Goretzka, meia do Schalke 04, que certamente será um dos grandes nomes da posição no mundo nos próximos anos. Além disso, um dos grandes destaques é o retorno de Marco Reus. Um ponta de muito talento, mas que sofre com consecutivas lesões na carreira. O craque do Borussia Dortmund teve a infelicidade de se machucar no último amistoso antes do Mundial no Brasil, dias antes da estreia da seleção. Devido a uma outra contusão, Reus só retornou aos gramados na reta final da última temporada, mas conseguiu recuperar a forma a tempo e o seu espaço no grupo de Löw.

No ataque, o time tem mais opções que 2014. Quatro anos trás, o titular era o veterano Miroslav Klose, que já estava em fim de carreira e não brilhava tanto no seu clube da época, a Lazio. No entanto, era mortal quando atuava em Copas do Mundo, tanto que superou Ronaldo e se tornou o maior artilheiro da história da competição com 16 gols em quatro edições. Os reservas eram mais jogadores de lado de campo do que propriamente centroavantes, os casos de André Schürrle e Lukas Podolski. Desta vez, o elenco conta com o talento do jovem Timo Werner e a experiência de Mario Gomez.

Apesar de, no papel, a defesa possuir jogadores melhores no geral, vale ressaltar que é o principal ponto fraco dessa equipe. Parece estranho dizer isso, visto que, historicamente, a seleção alemã sempre esteve marcada por sistemas defensivos muito sólidos. Porém, quando se trata do elenco atual, os três gols sofridos nas Eliminatórias em um fraquíssimo grupo, composto por Irlanda do Norte, Noruega, República Tcheca, Azerbaijão e San Marino, escamoteiam o desempenho real do setor. Por mais que tenham sido amistosos, já são cinco partidas seguidas sofrendo gols. Nos últimos dois testes antes do Mundial, dois tentos sofridos na derrota para a Áustria e um para a limitada Arábia Saudita, na vitória por 2 a 1.

O time terá possivelmente um Neuer sem ritmo de jogo, em virtude do longo tempo de inatividade devido a uma lesão no pé esquerdo. Na lateral direita, os alemães perderam a liderança técnica e a experiência de Philipp Lahm, que se aposentou do futebol no ano passado. No miolo de zaga, a dupla Hummels e Boateng ainda é de respeito, mas ambos já viveram dias melhores tecnicamente defendendo a seleção, sobretudo, o segundo, que, por sinal, tem sofrido com contusões nos últimos meses.

Outro ponto negativo que chama a atenção é, tal como vimos no Brasil, os alemães enfrentaram poucos adversários difíceis nesse ciclo. E, nas vezes em que jogou contra rivais competitivos, foi muito mal. Foram eliminados para os franceses nas semifinais da Eurocopa de 2016, por 2 a 0. Em amistosos, empataram com a Itália (0 a 0), venceram, de forma magra, uma Inglaterra em reformulação (1 a 0), empataram contra os mesmos ingleses (0 a 0), diante dos espanhóis (1 a 1) e dos franceses (2 a 2). Por fim, perderam, este ano, para o Brasil (1 a 0). O time não vencia há cinco jogos até derrotarem a frágil Arábia Saudita, por apenas 2 a 1, no último amistoso antes do Mundial.

Alemanha pode variar os seus homens de frente, deslocando Müller para a região central e Özil para a ponta. Ou optar pela entrada de Draxler ou um meia central como Gündogan, saindo do esquema 4-2-3-1 para um 4-3-3.

Alemanha pode variar os seus homens de frente, deslocando Müller para a região central e Özil para a ponta. Ou optar pela entrada de Draxler ou um meia central como Gündogan, saindo do esquema 4-2-3-1 para um 4-3-3.

Espanha

  • Títulos: 1 (2010)
  • Campanha: 1º colocado no grupo G nas Eliminatórias Europeias (9 vitórias, 1 empate e nenhuma derrota). Foram 36 gols marcados e três sofridos.
  • Craque: Andrés Iniesta

Campeões mundiais em 2010 e bicampeões da Europa, em 2008 e 2012, a La Roja novamente se credencia como uma das principais postulantes ao título da Copa do Mundo e chegam fortes na busca pela sua segunda conquista na história do torneio. Apesar de terem decepcionado bastante no Mundial de 2014, ao serem eliminados na segunda rodada – após derrota humilhante para a Holanda, 5 a 1, e um revés diante do Chile, 2 a 0 –, a Espanha renasceu nesse último ciclo, sobretudo, após a eliminação na Eurocopa, nas oitavas de final, para a Itália.

As eliminações precoces nas duas últimas e principais competições entre seleções indicavam que os tempos áureos e hegemônicos de Vicente Del Bosque, municiado pela filosofia vitoriosa do tik-taka barcelonista de Josep Guardiola, parecia ter ruído. Após a Copa de 2014, nomes renomados que compunham a espinha dorsal daquele time multicampeão, como o capitão Iker Casillas, o meia Xavi Hernández e os atacantes David Villa e Fernando Torres se aposentaram da La Roja. Após a Euro, Julen Lopategui aceitou o desafio de liderar a renovação até a Copa do Mundo. Nestes dois anos, o ex-treinador do Porto manteve algumas referências técnicas nesse processo de transição.

Estrelas como Sergio Ramos, Gerard Piqué, Sergio Busquets e Andrés Iniesta se mantiveram indiscutíveis no time titular. Ao lado desses pilares, Lopetegui foi apostando em novos nomes que vêm despontando no futebol mundial como Saúl Ñíguez, Koke, Thiago, Isco e Marco Asensio. Aos poucos, foi descartando outros, até então, frequentes nas convocações, como os experientes Juanfran e Cesc Fàbregas, Juan Mata, Pedro Rodríguez, Nolito e Álvaro Morata. Quanto à filosofia de jogo, ele manteve a essência do futebol espanhol baseado na posse de bola, nos passes curtos e triangulações, apostando na qualidade de seus meio campistas.

Desde então, o desempenho tem sido satisfatório. Espantaram a crise ao se classificarem, com folga, em seu grupo nas Eliminatórias para a Copa do Mundo, que tinha a Itália como principal ameaça na briga pela vaga direta. Empataram o primeiro duelo (1 a 1) e venceram com autoridade o segundo (3 a 0), dando o troco da eliminação sofrida para os rivais nas oitavas da Euro de 2016. O retrospecto contra adversários difíceis em amistosos também tem sido positivo. Além dos dois jogos invictos contra os italianos, empataram contra a Inglaterra (2 a 2) e a Alemanha (1 a 1), venceram a França (2 a 0) e aplicaram uma histórica goleada na Argentina (6 a 1).

A principal força do time continua sendo a mesma de anos e anos: o meio de campo. Liderado pelo maestro Iniesta, o setor espanhol ainda conta com nomes de peso como Busquets, David Silva – que vive a melhor fase de sua carreira atuando no Manchester City de Guardiola – e Isco, titular da potente equipe do Real Madrid. Lopategui ainda conta com duas peças fundamentais do Atlético de Madrid, Koke e Saúl Ñíguez, além do talento do hispano-brasileiro Thiago Alcântara, titular do Bayern de Munique, e da principal promessa do futebol espanhol dos últimos anos, Marco Asensio, uma joia do Real Madrid meticulosamente lapidada por Zidane nas últimas temporadas.

A defesa está mais sólida com o atual melhor goleiro do mundo, David De Gea, a dupla multicampeã em seus clubes, Sergio Ramos e Gerard Piqué, e laterais de nível mundial, como Daniel Carvajal e Jordi Alba, titulares absolutos de Real Madrid e Barcelona, respectivamente.

Mas, como qualquer outra seleção, a Fúria também não chega perfeita ao Mundial. Os espanhóis têm seus defeitos, cujo ponto fraco mais evidente se encontra na referência ofensiva. Desde a aposentadoria dos ídolos David Villa e Fernando Torres, a La Roja não encontrou um atacante mais fixo que se adaptasse à filosofia de jogo do tik-taka, da posse de bola, do jogo horizontal com atacantes leves flutuando entre as linhas adversárias.

Diego Costa é o principal nome para a posição, mas a técnica com a bola nos pés está longe de ser o seu forte e as suas atuações nunca convenceram. Iago Aspas e o brasileiro naturalizado espanhol, Rodrigo Moreno, aparecem como opções interessantes por serem jogadores mais móveis, que saem da área, entretanto, nenhum dos dois estão no mesmo nível técnico dos demais da equipe.

Em virtude de suas atuações abaixo da média, Diego Costa corre o risco de perder a posição para Iago Aspas

Em virtude de suas atuações abaixo da média, Diego Costa corre o risco de perder a posição para Iago Aspas.

França

  • Títulos: 1 (1998)
  • Campanha: 1º colocado no grupo A nas Eliminatórias Europeias (7 vitórias, dois empates e uma derrota). Foram 18 gols marcados e seis sofridos.
  • Craque: Antoine Griezmann

É verdade que decepcionaram na Euro 2016. Atuando em casa e composta por uma grande geração de jogadores, a seleção francesa não mostrou um futebol convincente mesmo chegando à decisão do principal torneio europeu de seleções e terem estado muito perto da conquista. Durante quase todo o campeonato, mostrou um futebol sonolento, pragmático, pouco criativo e dependente dos lampejos de seus craques. Aos trancos e barrancos, empurrados pela torcida, foi confirmando seu favoritismo até chegar à final. Porém, os franceses sucumbiram diante do aguerrido time português na prorrogação.

O time é recheado de grandes jogadores, mas ainda não se mostrou efetivo no aspecto coletivo. Depois da última Euro, mais nomes fortaleceram a equipe de Didier Deschamps, sobretudo, na frente com os jovens Kyllian Mbappé e Ousmane Dembelé, ambos contratados a preços descomunais por Real Madrid e Barcelona, respectivamente. A geração é tão forte que Deschamps teve o luxo – como também o equívoco – de abrir mão, sequer da lista final dos 23 convocados, de atletas qualificados como Anthony Martial, Dimitri Payet, Kingsley Coman e Alexandre Lacazette, para preferir jogadores que vivem em grande fase, como Nabil Fekir, pelo Lyon, e Florian Thauvin, pelo Olympique de Marseille. As opções são tantas que Karim Benzema, um dos principais centroavantes dos últimos anos, permanece afastado da seleção, desde 2015, após escândalo envolvendo o meia Mathieu Valbuena.

A seleção vem jogando há algum tempo no esquema 4-3-3 com a trinca de meias, N’Golo Kanté, Blaise Matuidi e Paul Pogba. Nessa tática, Deschamps opta por um trio de atacantes rápidos, tendo Antoine Griezmann como referência, mas exercendo a função de um “falso 9”, trocando de posição com Mbappé e Dembelé. Dependendo das circunstâncias de jogo ou do estilo do adversário, o comandante dos Blues tem escolhido jogar no 4-4-2, com os pontas mais recuados na segunda linha e Griezmann tendo a companhia de Oliver Giroud, centroavante mais fixo de área. No entanto, em ambas as formações, o principal problema da França permanece: a ausência de um articulador no meio de campo que ligue o centro e o ataque.

Pogba, o mais talentoso do setor, nunca foi um jogador que reunisse características semelhantes ao tradicional “camisa 10”. É um atleta de muito vigor físico, com largas passadas, que tem um excelente chute de fora da área, mas está longe de ser um armador clássico de rara visão de jogo que seja capaz de quebrar constantemente as linhas de marcação com passes imprevisíveis. Para piorar, Pogba vem de uma temporada muito aquém das expectativas no Manchester United. Não foi à toa que chegou a perder espaço em alguns momentos com José Mourinho e até mesmo na seleção francesa. Sua titularidade nos Blues vem sendo questionada, ainda mais tendo a sombra de Corentin Tolisso, meia do Bayern de Munique. Os outros dois titulares, Kanté e Matuidi, têm muito mais características de cão de guarda do que de um meia central que articule as jogadas. Uma alternativa, embora não seja esse articulador criativo seria apostar no futebol de Adrien Rabiot, titular da multimilionária equipe do PSG. Porém, o jogador foi preterido por Deschamps da lista de convocados, que preferiu confiar em Steven N’Zonzi, do Sevilla.

Neste estilo de jogo mais aberto, as ações ofensivas se concentram nas extremidades do campo. O predomínio de jogo francês é a abertura dos pontas para o talento e velocidade desses, principalmente, nas jogadas de contra-ataque. É uma estratégia efetiva quando se trata de jogadores incisivos como Dembelé, Mbappé e Lemar – este último tem jogado de titular nas últimas apresentações –, ainda mais quando estão inspirados, mas nas situações em que a individualidade não funciona, a seleção torna-se previsível pela falta de um jogo coletivo consistente.

Um outro ponto fraco está no pouco ritmo de jogo de seus laterais. Djibril Sidibé e Benjamin Mendy vêm de longo tempo de inatividade, sobretudo o segundo, que perdeu praticamente a temporada europeia inteira, cerca de oito meses, por conta de uma grave lesão no joelho direito. Os reservas, Benjamin Pavard e Lucas Hernandez, não possuem a mesma qualidade, principalmente, em termos ofensivos. Deschamps tinha a opção de levar o experiente Mathieu Debuchy, para a direita, e os canhotos Layvin Kurzawa e Lucas Digne, mas ignorou os três.

Ainda na defesa, a França não poderá contar com Laurent Koscielny, experiente zagueiro que se machucou no final da temporada. Apesar disso, o gol, com Hugo Lloris, e o miolo de zaga com a dupla Raphaël Varane e Samuel Umtiti, titulares do Real Madrid e Barcelona, respectivamente, mantém a segurança e solidez necessárias. Ainda que jovens de idade, Varane e Umtiti já possuem uma boa bagagem em competições de alto nível, principalmente o merengue que fez companhia a Sergio Ramos entre os onze nas duas últimas conquistas da Champions League.

Esquema do 4-3-3 pode variar para o 4-4-2 dependendo do estilo de jogo do rival e das circunstâncias das partidas.

Esquema do 4-3-3 pode variar para o 4-4-2 dependendo do estilo de jogo do rival e das circunstâncias das partidas.


[1] Há inúmeros trabalhos, sobretudo, no âmbito acadêmico, que discutem acerca das implicações sociais, políticas e culturais, sobre a seleção brasileira. Recentemente, defendi uma dissertação de Mestrado na área de Estudos Literários, pela UFMG, cujo título é: “A ficção nos escritos de alma de Nelson Rodrigues e Chico Bicudo: a crônica em dois tempos”. Nesse trabalho, abordo o futebol brasileiro e, consequentemente, o escrete canarinho, como um autêntico elemento identitário e cultural do povo brasileiro. Inevitavelmente, a pesquisa toca em sensíveis questões relativas ao 7 a 1.

*As imagens das escalações foram tiradas do guia da Copa do jornal britânico The Guardian.