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Por que Salah é o ídolo que o mundo precisa?

Mariana Vantine de Lara Villela

Artilheiro do Liverpool na surpreendente temporada, eleito o melhor jogador da Premier League 2017/2018, e protagonista da seleção egípcia na conquista da vaga para a Copa do Mundo após 28 anos, Salah vem encantando o mundo com o seu talento dentro de campo. Fora das quatro linhas o egípcio também é visto como “exemplo”, por causa de seus gestos humanitários. No entanto, o legado do craque deve ir muito além do “bom moço e que faz mágica com os pés”.

Os feitos na sua cidade natal, Nagrig, tais como: doações para hospitais, construção de escola, e até mesmo ajuda a casais pobres a realizar suas cerimônias e festas, já viralizaram nas redes. Mas o que torna o egípcio uma figura interessante fora suas habilidades com a bola, é muito mais que esses gestos de caridade.

Salah tem a noção de que é uma figura pública e de que qualquer coisa que falar terá um alcance enorme. Diferente de muitos jogadores, ele não abre mão de se posicionar e usa desse privilégio da visibilidade para promover ações e mostrar sua visão acerca de assuntos considerados mais delicados. Em 2013, quando ainda atuava no Basel, dois episódios retratam bem isso. Na fase de “pré-eliminatória” da Champions League daquele ano, o egípcio expressou seu desejo de não viajar a Israel para enfrentar o Maccabi Tel-Aviv, por ser favorável à causa Palestina, e chegando lá contrariado, cumprimentou os adversários com socos tímidos e desanimados. Ainda na mesma competição, na fase de “play off”, marcou dois gols que levaram o time suíço para a fase de grupos e não comemorou alegando que não havia motivo para festa já que seu país havia passado por um golpe militar semanas antes, e sua repressão acabaram por registrar várias mortes no Egito. Além desses dois casos, é interessante lembrar também a divulgação de um vídeo contra o machismo em seu twitter, no qual explica que as responsabilidades e direitos devem ser iguais entre os gêneros, e teve um número altíssimo de visualizações e compartilhamentos.

Salah. Crédito: André Fidusi.

Salah. Crédito: André Fidusi.

Os motivos pelos quais o craque é tão importante o mundo não param por aí. Vivemos em uma sociedade na qual os imperialistas impõem uma cultura de islamofobia, e Salah é um homem que se mostra capaz de mover essa estrutura. Nas ruas da Inglaterra ecoam uma versão feita pela torcida do Liverpool da música “Good Enough” (“Bom o bastante”), na qual eles cantam “ se ele marcar alguns mais, eu vou ser muçulmano também”. Mas não eram os árabes os grandes vilões terroristas do mundo? Não era o Islamismo uma religião “do mal”? Embora as transmissões ainda tentem cortar a imagem quando Salah abaixa para rezar após um gol, é inevitável: o cara do momento é muçulmano!

Existe uma enorme comoção no Egito e nos países árabes em geral em torno de Salah, e não é a toa. O povo se sente muito bem representado pelo jogador que além de quebrar estereótipos é um verdadeiro rei dentro de campo. No fundo, existe uma esperança que os holofotes no atacante sejam a chance do mundo conhecer a história contada por um outro lado. Os apaixonados por futebol, de todas as religiões e lugares, já começam a cantar e exaltar um árabe muçulmano, e os que ainda acham que esse esporte é alienador… bem, esses precisam conhecer Mohamed Salah!