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Salenko, o artilheiro esquecido

Pedro Henrique Andrade Dias

O nome mais lembrado da Copa do Mundo de 1994, inegavelmente, é o de Romário. Tanto pelo fato da seleção canarinho ter sido tetra, bem como o título de melhor jogador do mundo. Porém, engana-se quem acha que o Baixinho foi o único a fazer história nos Estados Unidos.

Existe um feito que Romário e nem outros jogadores da história das Copas conseguiram: marcar cinco gols numa mesma partida de Mundial. A marca parecia inatingível até que Oleg Salenko, da seleção da Rússia, escreveu seu nome na história.

O ex-atacante de duas nacionalidades – ucraniano e russo, por conta de seu pai e mãe, respectivamente – nasceu na antiga cidade de Stalingrado, agora São Petesburgo, em 1969, ainda sob o regime da União Soviética.

Começou no futebol cedo, aos 16 anos, no time do Zenit e depois foi jogar no Dínamo de Kiev, da Ucrânia, tornando-se a primeira transferência de um futebolista dentro da União Soviética. Lá foi seu melhor momento na carreira, quando passou três temporadas e marcou 48 gols, o que lhe rendeu uma convocação para a recente criada seleção ucraniana.

Vestindo a camisa ucraniana, fez apenas um jogo no ano de 1992, isso porque a FIFA proibiu os países que saíram da ex-União Soviética de disputar uma competição oficial até o fim da Copa do Mundo de 1994. Com o veto e o histórico de já ter defendido a Rússia nas categorias de base, Salenko optou por jogar no país onde nasceu. Mal sabendo que faria história.

Salenko. Foto: Кальницкий Михаил /Wikipédia.

A História em cinco atos – Copa de 1994

Muito antes de seu recorde, o atleta russo fez bonito no Mundial sub-20 de 1989, na Arábia Saudita, quando anotou cinco gols em quatro partidas e ficou com a chuteira de ouro do campeonato de base. Ou seja, os gols eram suas principais qualidades.

Por conta disso, foi convocado para o Mundial nos Estados Unidos depois de boas aparições em amistosos da seleção russa – que voltaria a atuar com esse nome depois de muito tempo como União Soviética -, Salenko não havia marcado nenhum gol.

A chance seria nas partidas oficiais pelo fortíssimo grupo B, que tinha o Brasil, embalado pelo baixinho Romário; Camarões, do rápido e interminável atacante Roger Milla, com 42 anos, além de ter sido sensação na Copa de 1990, chegando às quartas de final; completava o grupo, a Suécia da dupla de ataque Thomas Brolin e Dahlin.

Parecia que as chances de fazer gols eram remotas pela dificuldade das seleções rivais. O fato se acentuou no primeiro jogo, contra o Brasil, quando o atleta começou no banco de reservas e só entrou no segundo tempo em que pouco pôde incomodar os zagueiros Ricardo Rocha – que sairia machucado -, Aldair e Márcio Santos. No final, a Rússia perdeu por 2 a 0.

O segundo jogo seria sua oportunidade, começou como titular contra os suecos. Era uma partida decisiva, pois no caso de mais uma derrota, as chances de se classificar para as oitavas seriam quase nulas, e a Suécia havia empatado na estreia. Logo no início, o camisa nove da Rússia mostrou a que veio, marcou de pênalti o seu primeiro gol no torneio, aos quatro minutos. Parecia que a vitória viria, mas a Suécia acabou virando e vencendo a partida. Só um milagre para a classificação russa à segunda fase.

Antes do jogo que mudaria sua carreira, na concentração, ele teve uma sensação boa:

“Sonhei que faria muitos gols; às vezes você tem premonições como esta. No entanto, não pensei que fosse fazer isso. Marcar cinco! A psicologia é muito importante no futebol, saber preparar-se para jogar. Não tínhamos nada a perder e precisávamos vencer pela maior margem possível. Foi o que fizemos”, contou em uma entrevista concedida ao site da FIFA, no ano de 2017.

Então, no dia 28 de junho, no Stanford Stadium, os virtuais eliminados se enfrentaram – Camarões havia feito um ponto em dois jogos, porém, tinha chances de passar se vencesse. Só que a premonição do russo iria botar por água abaixo o desejo dos leões indomáveis.

A Rússia marcou muitos gols, mas só Salenko fez cinco e tornou-se o recordista de gols em um mesmo jogo no mundial, para colocar uma cereja no bolo, deu uma assistência para o sexto tento de Radchenko.

Um dia histórico, sem dúvidas. Nunca um atleta havia marcado cinco gols em uma mesma partida de Copa do Mundo. Foram assinaturas de todos os jeitos: de pênalti, oportunismo, bola sobrada na área, rapidez na tomada de decisão. Um feito que permanece inalcançável até hoje. E dependendo do futebol praticado atualmente, em que aspectos físicos e táticos prevalecem sobre o jogo individual, vai demorar muito para o recorde ser quebrado.

Como nota de rodapé, esse jogo teve outro fato histórico: Roger Milla foi o jogador mais velho – 42 anos – a marcar em Copas do Mundo. Ou seja, para uma partida de seleções não favoritas, a disputa em Palo Alto tornou-se histórica.

Como esperado, a seleção russa não conseguiu ficar entre os melhores terceiros colocados e caiu na primeira fase, ficando apenas um ponto atrás de Estados Unidos e Itália, que se classificaram. Apesar da campanha fraca, o camisa nove russo foi o artilheiro da competição ao lado de Stoichkov, com seis gols. Os dois receberam a chuteira de ouro da FIFA. Por conta disso, Salenko é o único jogador a ganhar esse prêmio individual no sub-20 e no time profissional.

Pós dia histórico

Lógico que depois da atuação de gala contra Camarões, os times do futebol europeu iriam querer contar com o atacante. No entanto, depois disso, a carreira do artilheiro foi frustrante. Parecia que o oportunismo e as boas finalizações demonstradas em campo foram sorte.

O atleta nunca mais foi convocado pela seleção, o técnico posterior, Oleg Romantsev, preferiu renovar o plantel e ter novos jogadores à disposição.

O russo não conseguiu sequer chegar perto do que fez na Copa de 1994 nos clubes posteriores. Teve passagens sem brilho por Valência – time no qual foi treinado por Carlos Alberto Parreira -, Rangers, Istanbulspor, Córdoba. Em nenhum teve uma grande apresentação, muito por conta das lesões e dos problemas relacionados ao alcoolismo.

Em 2001, atuando pelo Pogoń Szczecin, da Polônia, o recordista de gols decidiu se aposentar aos 32 anos por seguidas lesões no joelho e atualmente vive em Kiev, na Ucrânia, onde participa da seleção de veteranos do país.

Oleg Salenko é a prova viva de que o futebol é capaz de mudar a vida das pessoas da água para o vinho. Quando jogava no Logroñès, da Espanha, chegou a receber um salário de semiprofissional (352 euros) até que ganhou a chuteira de ouro da FIFA e, após consagração individual, teve uma carreira em declínio. Oleg Salenko não foi um jogador espetacular, mas até hoje detém um recorde que ninguém quebrou.


Como citar

DIAS, Pedro Henrique Andrade. Salenko, o artilheiro esquecido. Ludopédio, São Paulo, v. 139, n. 14, 2021.