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San Lorenzo e a volta a Boedo. Para chegar ao céu é preciso passar pelo inferno

Fábio Areias

Alguns amores são eternos. O torcedor do San Lorenzo sabe muito bem o quanto esta máxima é verdadeira.

O clube foi fundado em 1908 por obra de um grupo de jovens entre 13 e 16 anos e um padre salesiano chamado Lorenzo Massa. Eram garotos extremamente humildes que compartilhavam o amor pelo futebol nos terrenos baldios do bairro de Almagro e formavam o time “Los Forzosos de Almagro”. Quando o Oratório Salesiano de San Antonio foi construído no local em que jogavam, os jovens acharam que perderiam seu “campo”. Estavam enganados. O padre Lorenzo Massa forneceu um espaço para eles jogarem e cedeu camisas azul e vermelhas para os garotos. Bastava eles ficarem fora da delinquência e frequentarem a missa dominical. Trato feito. Surgia o Club Atlético San Lorenzo de Almagro.

Padre Lorenzo Massa e os garotos de Almagro (1908). Foto: Wikipedia.

Após um início difícil, com direito a uma suspensão das atividades em 1912 e retorno no ano seguinte, o San Lorenzo alcançou em 1915 o acesso para a primeira divisão da Argentina. Mas ainda faltava uma casa própria. O clube alugava o estádio do Ferro Carril Oeste para mandar suas partidas. Não tinha uma identidade. O padre Lorenzo entra em cena novamente para ajudar a instituição que tanto amava e intercede para a obtenção de um terreno pertencente ao colégio Maria Auxiliadora. Era em Almagro, mas posteriormente parte da região, incluindo o estádio, se transformaria no bairro de Boedo. Avenida La Plata, número 1.700. A nova moradia dos azuis-grenás.

Com capacidade para 60 mil pessoas, o estádio era o maior da Argentina até 1950. Foi batizado de Gasômetro em virtude dos antigos tanques de gás que existiam no local. À época ficou conhecido como “Wembley Argentino” e foi a casa da seleção por cerca de 30 anos. Um orgulho para todos os corvos – apelido dos torcedores do San Lorenzo graças à batina preta do padre.

Viejo Gasômetro, o “Wembley Argentino”, recebe suas multidões (1941). Foto: Wikipedia.

O sucesso cada vez maior do San Lorenzo ajudava também no desenvolvimento de Boedo. Era uma simbiose. Integrado esportiva, social e culturalmente, o clube conferia a principal referência aos moradores que chegavam ao bairro em um acelerado período de urbanização. A identidade de um era o orgulho do outro.

A perseguição dos militares

Boedo é um carnaval. Assim é um trecho de um dos cantos mais famosos da principal torcida do San Lorenzo, a Gloriosa Butteler. E por muito tempo assim foi. Com forte cena cultural, o bairro recebia grandes espetáculos de teatro, cinema, carnaval, possuía a maior biblioteca de Buenos Aires e formou uma classe média com identidade progressista. Algo observado com ressalvas pelo governos militares. Muitas ressalvas.

Entre 1930 e 1976 foram seis golpes de estado na Argentina (1930, 1943, 1955, 1962, 1966 e 1976). Cada União Nacional Libertadora, Processo de Reorganização Nacional, União Cívica Radical ou qualquer outro nome para denominar ruptura mostrava um país saudoso de um passado próspero que estava cada vez mais distante. O progresso institucional do San Lorenzo e os ares democratas de Boedo (uma área cada vez mais valorizada) contrastavam com os obscuros governos totalitários.

Diversas tentativas foram realizadas para prejudicar o clube. A primeira foi em 1971, quando o presidente Comandante Agustín Lanusse, em um governo anticonstitucional, ordenou construir uma avenida que passava exatamente no meio do estádio Gasômetro. Uma ideia posteriormente descartada, mas um aviso de que os milicos não esqueceriam o San Lorenzo.

Em 24 de março de 1976, com a deposição de Isabelita Perón e a tomada do poder por uma junta militar, foi instaurada outra ditadura. O Tenente Coronel Jorge Rafael Videla assumiria a presidência cinco dias após o golpe e ficaria no poder até 1981. Um regime totalitário que acabaria apenas em 1983.

Adversários extracampo. Jorge Rafael Videla ao centro. Foto: Wikipedia.

O período foi marcado por uma violenta repressão, com a morte e o desaparecimento de milhares de pessoas. Um dos movimentos de resistência criados foi a Associação de Mães da Praça de Maio, uma organização de mães que buscavam informações sobre os filhos desaparecidos e que realizavam passeatas na Praça de Maio, em frente à Casa Rosada. Com um lenço branco na cabeça e a angústia no coração, elas buscavam qualquer fiapo de esperança de reencontrar seus filhos. O primeiro ato público da recém-criada associação foi em 20 de junho de 1977, exatamente no estádio Gasômetro. Ato extremamente nobre e arriscado. Para os militares, o local era um centro de movimentos revolucionários que precisava ser combatido.

A perda do estádio: adeus Boedo

O Brigadeiro Osvaldo Cacciatore foi o militar designado por Videla para assumir a prefeitura de Buenos Aires entre 1976 e 1982. Uma de suas missões era acabar com aquele “antro de delinquentes” chamado Gasômetro. Mesmo sendo um dos maiores e mais importantes do país, o estádio acabou ficando fora da Copa do Mundo de 1978. Não haveria trégua com o Ciclón.

O prefeito Cacciatore começou a pôr em prática seu plano. Primeiro sugeriu a ideia da construção de uma casa única para San Lorenzo, Huracán e Vélez Sarsfield com o argumento que existia muitos estádios em Buenos Aires. Obviamente, a proposta incluía o fechamento do Gasômetro e San Lorenzo fora de Boedo.

O ano de 1979 foi o fim para o mítico estádio. Com uma pressão cada vez maior dos militares e em grave crise econômica, San Lorenzo sucumbe. Vende o terreno do estádio Gasômetro por 900 mil dólares e estava oficialmente fora de Boedo. A partida contra o Boca Juniors, em 02 de dezembro daquele ano, foi a última disputada no local. O clube partiu, mas o coração ali ficou.

Nem mesmo as desesperadas mobilizações de torcedores comoveram os militares. Como desgraça pouca é bobagem, em 1981 o San Lorenzo caiu para a segunda divisão. Era a primeira vez que um clube considerado grande da Argentina acabava rebaixado. Nem o mais dramático tango poderia registrar tantas desgraças em um período tão curto de tempo.

As caravanas do sentimento

O que restava agora? Sem estádio e na 2ª divisão, sobrava a camisa. E ela bastou para os milhões de torcedores que amavam de forma incondicional a instituição. Poderiam arrancar tudo, mas jamais conseguiriam tirar a alma. Essa é imortal. Os sábados da Série B argentina de 1982 se converteram em caravanas itinerantes do sentimento de uma torcida pelo seu time. Os jogos do Ciclón como mandante eram disputados em diversos estádios (Ferro Carril, Vélez, River, etc). Todos estes lotados de corvos que não abandonaram o clube no momento mais difícil de sua história. Um fenômeno social admirado até os dias de hoje na Argentina.

No ano seguinte, o San Lorenzo voltaria para a elite do futebol, mas a alegria do acesso contrastava com a dor de uma notícia: a prefeitura aprovou o projeto de demolição do estádio Gasômetro para a construção de prédios comerciais. Em 1984, o estádio começou a ser desmontado e em 1985 o terreno seria vendido para a rede francesa Carrefour, que instalou no local o seu primeiro supermercado na Argentina. Era o fim.

Novo gasômetro: enfim, a justiça

Sem casa, o San Lorenzo precisou “pedir emprestado” diversos estádios para poder jogar como mandante. Assim foi até 1993, quando o clube inaugurou seu novo estádio: o Novo Gasômetro, no bairro de Bajo Flores, cerca de 3 quilômetros de Boedo. Não era ainda a volta para a casa, mas um pouco do resgate do amor próprio. O antigo estádio passou a ser chamado de Viejo (Velho) Gasômetro. Um viejo nunca esquecido.

Mesmo com a casa nova, os torcedores continuam a pedir justiça. San Lorenzo era de Boedo e ponto final. No ano de 2006, foi iniciada uma pressão maior por parte dos torcedores, sócios e dirigentes junto à Câmara de Buenos Aires para a revisão histórica e a devolução da “Terra Santa” ao merecido dono. O movimento começou a crescer. Em 08 de março de 2012, cerca de 100 mil torcedores de San Lorenzo de todas as regiões do país e de todas as idades se aglomeram na Praça de Maio para pressionar a aprovação da “Lei de Restituição Histórica”. O texto é aprovado em 15 de novembro de 2012, com 50 votos favoráveis e nenhum contra. O Carrefour seria obrigado a vender o terreno para o clube e o San Lorenzo voltaria para a casa. Enfim!

 

Em 2014, San Lorenzo e Carrefour entraram em acordo do valor a ser pago para a rede de supermercados pelo espaço na Avenida La Plata: 94 milhões de pesos (cerca de 19,6 milhões de dólares). Para quitar o montante o clube desenvolveu um sistema no qual os torcedores poderiam ajudar o clube com a compra de metros quadrados simbólicos. Cada m² custava 450 dólares e 27 mil adeptos contribuíram com a causa.

O Carrefour anunciou em abril de 2019 o fechamento de sua unidade na Avenida La Plata. Fato consumado em 05 de maio de 2019. Um dia histórico para todo o “sanlorencismo”. E lá estavam os corvos para acompanhar o fechamento do supermercado. Adeus Carrefour, é hora de voltar.

No próximo 1º de julho, será inaugurada a pedra inaugural do novo estádio na “Terra Santa”. A construção será outro imenso desafio em um país em grave crise econômica. Mas como duvidar do que essa gente é capaz de fazer? A volta a Boedo não foi um milagre do Papa Francisco – o torcedor mais ilustre do clube –, mas a atitude de cada torcedor que não deixou morrer a lembrança do antigo amor. A cada dia, a cada derrota, a cada título, a cada noite escura, a cada momento bom ou ruim.  

O grito que foi dito tantas vezes desde 1979 está cada vez mais próximo: me verás volver! E dessa vez será para todo o sempre. Amém!


BIBLIOGRAFIA:

PERRONI, Román. San Lorenzo de los milagros. Buenos Aires: o autor, 2007.

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