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Santos: o time da diáspora

José Paulo Florenzano

No início da temporada de 1971, como se tornara habitual na era Pelé, o time do Santos foi viajar pelas Américas, seguindo um longo roteiro que incluía as regiões do Caribe e das Antilhas. A viagem, a rigor, teve início no dia 19 de janeiro, na Cidade do Panamá, com um amistoso promovido pelo Instituto Nacional de Cultura e Desportos, encontro precedido da condecoração oficial do governo panamenho ao renomado atleta. A etapa subsequente da excursão possuía como destino o Departamento Ultramarino da França, a Martinica, morada do poeta Aimé Césaire, expoente do movimento literário da négritude. Embora o desembarque da delegação ocorresse somente tarde da noite, mesmo assim, conforme o registro do enviado especial de A Tribuna, Marcos Fonseca, “havia muita gente aguardando no aeroporto”[1]. No sábado, em Fort-de-France, o alvinegro jogaria contra o selecionado local no Louis Achille, estádio com capacidade para sete mil pessoas. Além da partida de futebol, a agenda previa também uma visita política à Assembleia Legislativa.

Segundo acreditava Marcos Fonseca, o martinicano sentia “orgulho” em afirmar que era “francês”, assim como demonstrava “orgulho do seu mar, do seu sol, das suas frutas e das suas morenas”[2]. Portanto, nada de conflitos ou de tensões na paisagem idílica evocada pela reportagem a respeito da viagem do alvinegro praiano, o qual, em seguida, levantava voo rumo a Guadalupe, outra possessão colonial que se afigurava “a própria França” transplantada em um “cenário tropical”[3].

Apesar de comporem um quadro edulcorado das Antilhas francesas, ignorando por completo a existência das lutas anticoloniais, as matérias jornalísticas, nas entrelinhas, captavam a força de atração que a “utopia lúdica” encarnada pelo Santos, projetava no horizonte histórico dos povos colonizados[4]. Com efeito, elas desvelavam a popularidade desfrutada por Pelé em uma área cultural alheia à prática do futebol[5], mas, em contrapartida, mobilizada em torno dos jogos de redenção proporcionados pelo Santos no contexto histórico da negritude, compreendida agora em sua acepção mais ampla, enquanto movimento de afirmação das identidades negras[6]. Nesse sentido, embora mais uma vez se exibisse em um estádio acanhado, algo em torno de quinze mil torcedores, as associações suscitadas pelo time da diáspora transcendiam em muito o público presente aos eventos futebolísticos, como deixava entrever o enviado especial de A Tribuna:

O encontro foi retransmitido pelo rádio e pela televisão para toda a faixa do Caribe e das Antilhas, mas, assim mesmo, vieram caravanas de várias localidades para assistir à apresentação.[7]

Principal responsável por toda a mobilização verificada em torno do Santos, Pelé estava prestes a concretizar mais uma marca significativa em sua carreira. Ao entrar em campo na quinta-feira, 28 de janeiro, no Suriname, ele realizaria a milésima partida como atleta profissional, efeméride comemorada à noite, em Paramaribo, com um gol de pênalti assinalado na vitória por 4 a 1 contra a equipe local do Transvaal. No dia seguinte, em um voo matutino da KLM, os jogadores do alvinegro deixaram a antiga Guiana Holandesa com destino a Kingston, na Jamaica, onde uma “enorme multidão” reunida no aeroporto os aguardava ansiosamente[8]. Ao longo dos anos sessenta esta multidão se habituara a recepcionar líderes religiosos, chefes de governos e ícones esportivos. Mais do que nunca, a Jamaica havia se convertido em um espaço de articulação das lutas políticas e de elaboração das práticas culturais, consoante o conceito de Paul Gilroy, em um ponto de confluência das correntes pan-africanas que atravessavam o circuito comunicativo do Atlântico Negro.

A ilha do Caribe tinha acolhido, em junho de 1965, o líder do movimento pelos direitos civis, Martin Luther King, convidado para proferir o discurso inaugural do ano letivo na Universidade das Índias Ocidentais. Pouco depois, em abril de 1966, recepcionara o Imperador da Etiópia, Hailé Selassié, ovacionado nas ruas da capital pela comunidade rastafári, cujos adeptos, conforme assinala Stuart Hall, enxergavam no referido país africano o “espaço mítico” onde os “reis negros governaram por mil anos”[9]. Ao mesmo tempo, inspirados pelas sucessivas ondas de protesto provocadas pelos conflitos raciais nos Estados Unidos, os artesãos de Kingston esculpiam “pequenos punhos negros em madeira”, vendidos em seguida nas lojas de discos que anunciavam a chegada do “Poder Negro” para os rudes boys confinados nos bairros de lata da periferia[10]. Mais adiante, em janeiro de 1973, transformada no palco da disputa pelo título mundial dos pesos pesados, a ilha presenciara a luta na qual George Foreman arrebatara o título mundial da categoria dos pesos pesados, derrotando Joe Frazier em quatro minutos e trinta e cinco segundos[11].

O time do Santos dos anos 1970. Fonte: Z e n e L P i b r a L.

A excursão do Santos empreendida em janeiro de 1971, portanto, inseria-se nesse contexto de efervescência social, política, esportiva e cultural vivido pela Jamaica. Ela suscita-nos uma série de indagações que, infelizmente, só podemos tangenciar com base nas fontes jornalísticas brasileiras. De fato, só nos é dado conjecturar a respeito do tipo de multidão que aguardava Pelé no aeroporto e o reverenciava no estádio. Nesse sentido, a análise da historiadora Giulia Bonacci, acerca das significações do culto rastafári, permite-nos divisar algumas pistas. Sendo assim, atentemos para as considerações da autora:

Invertendo a imagem dos africanos associadas às correntes infamantes da escravidão, os corpos negros reivindicados como o lugar da divindade eram sacralizados. Esta reviravolta da linha de cor associando negritude e realeza, e mais ainda divindade, constituía uma crítica explícita da condição social dos negros nas colônias britânicas.[12]

Ora, à luz da reflexão de Giulia Bonacci, formulemos a pergunta: acaso a ideologia religiosa que havia reconhecido no Imperador da Etiópia uma figura divina, por razões semelhantes, não investira o Rei do Futebol com uma significação imaginária semelhante? Desdobrando a indagação: se, como assinala Paul Gilroy, o ícone do reggae, Bob Marley, cultivava “uma paixão duradoura pelo time do Santos”[13], tal admiração porventura não se devia, sobretudo, à presença da personagem lendária da camisa dez na equipe-símbolo da diáspora negra? Mais ainda: a veneração do músico jamaicano pelo atleta brasileiro não exprimia os jogos de identificação em curso no circuito transatlântico, transcendendo o simples apreço pelo talento exibido dentro das quatro linhas? Por certo, somente uma pesquisa mais aprofundada acerca do futebol na Jamaica poderia encontrar respostas mais precisas a esta série de questões. Nos limites deste artigo, devemos nos contentar em enunciá-las e retomarmos, com base nos dados esparsos recolhidos nos relatos lacunares do correspondente de A Tribuna, a excursão que o time do Santos realizava pela ilha do Caribe.

Dois dias depois da chegada a Kingston, no domingo, 31 de janeiro, a equipe praiana entrou em campo para enfrentar a Seleção da Jamaica diante de um público estimado em cerca de trinta mil espectadores. Antes do apito inicial, postado no gramado diante das tribunas, Pelé recebeu das autoridades locais a “chave da cidade”, a mesma deferência dispensada anos antes a Martin Luther King[14]. Ao contrário, porém, do efeito suscitado no público pelo discurso do pastor batista na Universidade das Índias Ocidentais, o futebol exibido pelo jogador brasileiro no Estádio Nacional decepcionara a assistência. De modo geral, o time como um todo não teve uma atuação satisfatória. Conforme o relato do jornalista de A Tribuna, após estabelecer o predomínio nos primeiros vinte minutos de jogo, o alvinegro se viu acuado em seu próprio campo, com a Jamaica obrigando o goleiro Cejas a realizar inúmeras defesas, “principalmente em lances preparados por Allan Cole, o melhor valor do selecionado”[15]. Todavia, no segundo tempo, aproveitando um lançamento em profundidade, Edu enfileirou a defesa adversária, ziguezagueou por ela, assinalando o primeiro gol da partida, comemorado em meio aos abraços de parte da assistência que, arrebatada, “invadiu o campo” para festejar junto com o ponteiro esquerdo.

O alvinegro praiano, contudo, não se encontrava em uma jornada inspiradora. Depois de muita insistência, o selecionado local obteve afinal o gol de empate através de uma cobrança de pênalti convertida por Allan Cole. Segundo a avaliação do correspondente brasileiro, o conjunto da Vila Belmiro apresentara um “mau futebol”, decepcionando o público presente. Pelé, em particular, tinha se mostrado muito aquém do talento que os aficionados lhe reconheciam. Aliás, já na Martinica o jornalista brasileiro o julgara simplesmente o “pior jogador do Santos”. De fato, sem os extraordinários atletas dos anos sessenta, contando basicamente com jovens promessas, o alvinegro estava muito longe de corresponder às expectativas criadas em torno de uma equipe que àquela altura havia se transformado em um mito.

O passado sobrevivia apenas nos lampejos de genialidade de alguns atletas, como no exemplo acima citado de Edu, ou nos momentos fugazes da arte coletiva, quando a equipe acertava o compasso e desafiava o oponente a uma dança imprevista. Não obstante a distância cada vez maior entre o espetáculo anunciado nos cartazes promocionais e o futebol concretamente exibido nos gramados de jogo, as significações que lhe giravam em torno continuavam intactas. A partida seguinte, realizada na terça-feira, 2 de fevereiro, o demonstrava. Cerca de trinta e cinco mil torcedores foram ao Estádio Nacional prestigiar o embate entre Santos e Chelsea. E eis, afinal, o espetáculo tão aguardado pelos jamaicanos, assim descrito pelo periódico brasileiro: “Léo passa o pé por cima da bola, o público vibra. Pelé deixa a bola passar por entre suas pernas para Douglas, a assistência delira. Edu finta seu marcador, a plateia se levanta”[16]. O alvinegro praiano desta feita não decepcionara, embora tenha vencido pelo placar mínimo, gol assinalado aos quarenta e três minutos do segundo tempo pelo centroavante Douglas. A descrição do prélio feita pelo jornalista de A Tribuna, não obstante o exagero, deixava transparecer nas entrelinhas uma questão que nos remete ao cerne do problema abordado no presente artigo. Recordando o passado colonial da ilha, e o vínculo com a Comunidade Britânica, Marcos Fonseca formulava a seguinte indagação: “Como explicar então essa preferência da torcida por um time brasileiro que enfrenta um time inglês?” Ele próprio arriscava uma resposta:

É que a Jamaica é negra, é que a Jamaica é África, e é quase samba e quase carnaval.[17]

A representação evocada pelo repórter santista exprimia uma alteração recente na história da Ilha. Sob o prisma dos colonizadores e das elites governantes, a Jamaica se desvelara até a década de sessenta como uma sociedade branca, europeia e ocidental. Os anúncios direcionados aos turistas estrangeiros, com efeito, apresentavam-na como o “Jardim do Éden redescoberto”. Ali, hotéis de luxo reservados somente para hóspedes brancos, servidos por empregados quase todos negros, ofereciam aos visitantes campos de polo e de golfe, quadras de tênis e jogos de críquete[18]. Em contrapartida, a prática do futebol corria pelas ruas do gueto, em meio às brigas dos rudes boys e às incursões da polícia, constituindo-se em uma improvável via de ascensão social para os jovens marginalizados.

As expressões culturais da década de sessenta, articuladas em torno do culto rastafári, estabeleceram, como salientado por Stuart Hall, um divisor de águas na imagem da ilha, tornando “negras, pela primeira vez e irremediavelmente, a Jamaica e outras sociedades caribenhas”[19]. A manifestação de apoio da torcida local à equipe brasileira adquiria inteligibilidade no quadro desta mudança de identidade cultural. A admiração de Allan Cole pelo futebol-arte, por sua vez, indicava a existência de um elo bem mais profundo, interligando as cidades de Kingston e de Santos no espaço simbólico delimitado pelo Atlântico Negro. Atleta rastafári, integrante do círculo de amizades de Bob Marley, assim como o músico de reggae, o jogador jamaicano nutria verdadeiro fascínio pelo estilo de jogo consagrado pelo Santos de Pelé. Uma excursão à ilha do Caribe realizada pelo Náutico lhe daria a tão sonhada chance de atuar no que ele próprio denominava de “melhor futebol do mundo”[20]. Mas esta história será abordada no próximo artigo.


[1] Cf. “Nas Antilhas, Santos conquista outra praça para novas excursões”, A Tribuna, 1 de fevereiro de 1971.

[2] Cf. “Nas Antilhas, Santos conquista outra praça para novas excursões”, A Tribuna, 1 de fevereiro de 1971.

[3] Cf. “Nas Antilhas, Santos conquista outra praça para novas excursões”, A Tribuna, 1 de fevereiro de 1971.

[4] Wisnik, José Miguel (2008) Veneno remédio: o futebol e o Brasil. São Paulo: Companhia das Letras.

[5] Burton, Richard D. E. (1991) Cricket, Carnival and Street Culture in the Caribbean. In: Sport, Racism and Ethnicity. Edited by Grant Jarvie. London and New York: Routledge Falme.

[6] Munanga, Kabengele (2009) Negritude: usos e sentidos. 3º Ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora.

[7] Cf. “Guadalupe também vê o Santos”, 25 de janeiro de 1971. Sobre as partidas citadas anteriormente, ver “No Panamá, Santos enfrenta à noite um clube salvadorenho”, 19 de janeiro de 1971; “Santos contra Combinado a sensação na Martinica”, 23 de janeiro de 1971. Todas as matérias publicadas no jornal A Tribuna.

[8] Cf. “Na Jamaica, Santos joga contra a Seleção, à tarde”, 31 de janeiro de 1971; sobre a partida no Suriname, ver “Pelé em Paramaribo: jogo nº 1000”, 28 de janeiro de 1971. Ambas as matérias publicadas no jornal A Tribuna.

[9] Hall, Stuart (2006) A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, p.41.

[10] Marley, Rita (2004) No woman no cry: minha vida com Bob Marley. São Paulo: Planeta, p.52.

[11] Cf. “A segunda grande luta do século (os lutadores serão os mesmos da primeira) ”, Folha de S. Paulo, 13 de janeiro de 1974.

[12] Bonacci, Giulia (2010) Exodus! L´histoire du retour des Rastafariens en Éthiopie. Paris: L`Harmattan, p.187.

[13] Gilroy, Paul (2001) O Atlântico negro: modernidade e dupla consciência. São Paulo: Editora 34/ Rio de Janeiro: Universidade Cândido Mendes/Centro de Estudos Afro-Asiáticos, p.12.

[14] Cf. “Kingston é mesmo a cidade do Rei. Do Rei do Futebol, Pelé”, A Tribuna, 4 de fevereiro de 1971.

[15] Cf. “Torneio de Kingston tem Santos x Chelsea à noite”, A Tribuna, 2 de fevereiro de 1971.

[16] Cf. “Esse público ficou com o Santos. Foi tudo uma questão de sentimento”, A Tribuna, 8 de fevereiro de 1971.

[17] Cf. “Esse público ficou com o Santos. Foi tudo uma questão de sentimento”, A Tribuna, 8 de fevereiro de 1971.

[18] White, Timothy (2004) Queimando tudo: a biografia definitiva de Bob Marley. Rio de Janeiro: Record, p.130.

[19] Hall, Stuart (2003) Da diáspora: identidades e mediações culturais. Organização: Liv Sovik. Belo Horizonte: Editora UFMG.

[20] Cf. “Allan é o atacante original que o Náutico tem para sua equipe”, Diário de Pernambuco, 26 de novembro de 1971.