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São Paulo: origens do futebol na cidade

Marina Oliveira de Almeida

A São Paulo do início do século XX era uma cidade em pleno desenvolvimento, advindo, principalmente, das riquezas que as plantações de café trouxeram. A cidade crescia desenfreadamente, e se transformava de maneira desconhecida até então, “a multiplicidade de experiências sociais, (…) os conflitos agudos que marcam a vida turbulenta da cidade do trabalho, da seriedade e do progresso, em processo de acelerada industrialização e modernização (…)”1 , eram características que compunham a cidade que se estruturava.

Essa cidade que se erguia de maneira muito rápida necessitava de espaços e práticas de lazer, que ainda não faziam parte do contexto paulistano, e foram, incialmente, espelhados nos modos de diversão da sociedade européia. Teatros, cinemas, restaurantes e cafés traziam o requinte que a elite metropolitana buscava, mas também a busca pelo esporte dentro dos clubs mais renomados agregariam ao ar europeu que pairava em São Paulo.

E essa busca permitiu que uma série de práticas esportivas se desenvolvessem na cidade. O remo e o turfe foram os que alcançaram maior adesão de público, mas também tiveram outros esportes como o atletismo, a aviação, o tênis, o automobilismo, o basquete, o boxe e o críquete. São Paulo vivia uma febre esportiva, que visava moldar o corpo e a mente, de modo que essa prática contribuísse para uma convenção da época: buscar uma raça e uma sociedade mais pura2.

Mesmo com essa gama de esportes, o que mais ganhou destaque no período foi o futebol, que aos poucos foi ganhando mais e mais admiradores e adeptos. As discussões sobre as origens do futebol em São Paulo são as mais diversas e menos convergentes. A mais repetida e creditada fica a cargo de Charles Miller, filho de pai escocês e mãe inglesa, foi enviado para a Inglaterra com o intuito de estudar. Ao conviver com uma sociedade diferente, conhece uma série de esportes, e dentre eles o football, que lhe despertou bastante interesse. Ao retornar ao Brasil, no fim do século XIX, Miller trouxe consigo as regras do sport e materiais para a prática do jogo, principalmente dentro da colônia britânica existente no Brasil, responsável pela fundação do São Paulo Athletic Club (SPAC), o primeiro club a praticar o futebol3.

Mesmo com essa gama de divergências entre as origens do futebol, o que se faz mais importante aqui é como o futebol se desenvolveu rapidamente e passou a fazer parte do cotidiano da metrópole, por vezes confundindo-se com ela.

O crescimento do futebol em conjunto com a cidade, possibilitou o surgimento de novos clubs, e o interesse desses novos que surgiram contribuíram para garantir o espaço do futebol na cidade, mesmo que esse fosse delimitado à elite paulistana. O football ajudou a moldar a cidade, surgiram novos estádios e alguns já existentes para a prática de outros esportes sofreram adaptações para receber a prática do futebol.

No início do século XX, fez-se necessária a organização de uma entidade que regrasse o futebol, já que esse estava em uma crescente desordenada. Em 1901, a Liga Paulista de Futebol (LPF) é fundada por quatro clubes, são eles: São Paulo Athletic Club, Sport Club Germânia, Club Athletic Paulistano e Sport Club Internacional4. A LPF trabalhava para manter o futebol apenas como um esporte da elite, não permitindo que qualquer clube se afiliasse, e organizando jogos apenas entres os que eram tidos como os grandes clubes da cidade.

Charles Miller no SPAC (1905). Foto: autor desconhecido.

Nesse mesmo período, o esporte estava se popularizando e ganhando novos praticantes. A dificuldade em se inserir na Liga – além de manter poucos clubes, a Liga ainda cobrava um preço alto para a manutenção dos próprios clubes, já que os materiais eram caros e os preços dos ingressos insuficientes para cobrir todos os gastos com jogos, era necessário que os jogadores sustentassem a LPF, contribuiu para uma prática mais popular do esporte. Assim, o futebol foi sofrendo adaptações para ser jogado nos locais mais variados da cidade, se espalhando inclusive para os bairros mais distantes. A várzea do Carmo foi um dos espaços onde o futebol conseguiu se desenvolver. Praticado por meninos e rapazes das classes menos abastadas, o futebol extraoficial se tornou o que chamou-se de “futebol de várzea”5.

No entanto, essa expansão e popularização do futebol gerava cada vez mais descontentamento por parte da LPF, somados ao surgimento de clubes populares com grande expressão. A ideia de manter o futebol, pelo menos o oficial, apenas para “jovens delicados e finos” estava desmoronando, e as tentativas de manter uma Liga “branca e rica” não estavam surtindo efeito. Em 1913, ocorre a primeira cisão no futebol paulista. Fundou-se a Associação Paulista de Esportes Atléticos (APEA). Essa cisão surgiu do preconceito já posto anteriormente. Preconceito social e racial. A APEA buscava um futebol livre da massa, voltado apenas aos rapazes “de boa família”.

Os principais motivos de conflito no futebol paulista foram as questões sociais e raciais. A dificuldade em se integrar as classes mais populares ao futebol inicialmente elitizado sempre esteve presente, e fez com que a popularização do esporte fosse mais dificultosa.

Em 1917, após grandes confusões, o futebol paulista conseguiu uma conciliação. A LPF – que desde o surgimento da APEA perdeu muita expressão – foi extinta e todos os clubes afiliados, inclusive os mais populares, foram agregados à APEA, que se tornaria a única entidade que organizava o futebol no estado de São Paulo6.

Ainda que passando por diversos conflitos de organização, o futebol se desenvolvia na cidade de modo bastante rápido, e passava a atingir e encontrar adoradores em diversas partes de São Paulo e em diversas camadas sociais nas primeiras décadas do século XX. A ideia da competição apresentada pelo futebol, encontrava ressonância nos dias da metrópole que se estabelecia, tudo era uma luta, e o futebol contribuía para fortalecer o homem para a luta diária, além da aprendizagem do trabalho coletivo. A proliferação dos esportes no período era vista com aprovação, a busca pelo corpo equilibrado com a alma era um resultado que poderia se obter através do avanço das atividades físicas.

Tricampeonato do SPAC. Foto: São Paulo Athletic Club.

Mesmo com todo o descontentamento da elite, o esporte possuía grande apelo, e se espalhava cada vez mais por entre as camadas mais populares da sociedade. Vista com bastante intolerância essa popularização se chocava com o uso que estava sendo feito do futebol. O momento pelo qual o país passava – surgimento de uma valorização do sentimento nacional, de um amor à pátria e o reconhecimento do homem como o homem brasileiro – permitia que o futebol se encaixasse em um projeto de mens sana in corpore sano e buscasse o fortalecimento da raça brasileira, preferencialmente branca, e dos princípios morais que deveriam reger a pátria. Os jovens footballers deveriam ser a representação máxima do brasileiro que se queria aqui7.

Com o avanço do esporte, podemos observar uma série de relações que se dão no âmbito do futebol. Segundo Gilmar Mascarenhas de Jesus, há uma sugestão, feita através de um estudo do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico (CONDEPHAT), de que a partir da década de 1930, os bairros da cidade se relacionavam sobretudo através do futebol8. Jogos realizados nas periferias da cidade permitiam que o esporte participasse da vida de diversos bairros, e fosse além da sua manutenção no centro da cidade.

E o futebol praticado nos bairros geralmente se mantinha como um futebol extraoficial, varzeano. Em 1909, foi registrado o que seria o primeiro campeonato de várzea de São Paulo. Não eram equipes que tinham a pretensão de se alinhar ao futebol oficial, mas também tinham a ânsia de jogar.

E o jogo? Imaginem: o “pega” era de quem chutasse mais alto e forte; corridas loucas atrás da bola; a preocupação dos avantes em “encher” de pontapés o arqueiro que, por sua vez, tratava de se desviar dos adversários com a bola na mão. O mais belo feito era aquele dos jogadores fintarem o mais possível… Que partidas, que entusiasmo! Naquele tempo o jogo era para todos os gostos, leve e pesado, de acordo com as regras do futebol daquela época; dava gosto assistir a um jogo. Havia jogadores de fato, a camisa ficava molhada…
…esse foi o primeiro campeonato da Varzea de que se tem noticia. Foi então que tomou impulso o pequeno futebol9.

O futebol de várzea se expandiu muito por São Paulo ganhando grande relevância nos significados da metrópole, e após a profissionalização, foi o que ficou de amador pela cidade.

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[1] RAGO, Margareth. A invenção do cotidiano na Metrópole: Sociabilidade e Lazer em São Paulo, 1900 – 1950. São Paulo: Paz e Terra, 2004. p. 1

[2] FRANZINI, Fábio. Corações na ponta da chuteira: capítulos iniciais da história do futebol brasileiro. Rio de Janeiro: DP&A, 2003. p. 34

[3] WISNIK, José Miguel. Veneno remédio: o futebol e o Brasil.São Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 41.

[4] CALDAS, Waldenyr. O pontapé inicial: memória do futebol brasileiro (1894 – 1933). São Paulo, Ibrasa, 1990. p. 95.

[5] AQUINO, Rubim Santos Leão de. Futebol, uma paixão nacional. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2002, p. 32.

[6] CALDAS, Waldenyr. O pontapé inicial: memória do futebol brasileiro (1894 – 1933). São Paulo, Ibrasa, 1990. p. 98.

[7] Esse não era um consenso dentro da sociedade brasileira. Existiam aqueles que não acreditavam que o futebol pudesse ter grande espaço dentro do Brasil. Guimarães Rosa afirmava que “o football não pega, com certeza.”

[8] JESUS, Gilmar Mascarenhas de. São Paulo: a cidade e o futebol. Buenos Aires: 2001.

[9] MAZZONI, Thomaz. História do futebol no Brasil: 1894—1945, p.77 Apud: BROTTO, Erik Orsatti. Esporte do Povo? O controle da elite no futebol em São Paulo entre 1910 e 1919. Monografia de conclusão de curso. UNIFESP, São Paulo: 2013, p. 20.