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Sara Estevez: mulher, torcedora, e pioneira no jornalismo esportivo

Victor de Leonardo Figols

Década de 1960, domingo pós-jogo, Vizcaya inteira sintonizava na Radio Juventud para ouvir o programa Stadium, em especial a análise da rodada de Marathon. A voz masculina de Marathon, que saía em cada caixa de som dos rádios do País Basco, tecia crônicas apuradas e análises precisas do Athetic Club de Bilbao. O programa era quase uma obrigação semanal para qualquer torcedor do clube, ninguém sabia mais de futebol e da vida do Athetic do que Marathon. Mas o que poucos sabiam é que uma mulher era responsável tanto pela direção do programa, quanto pelas crônicas semanais assinadas por Marathon. Por trás do Stadium e de Marathon, estava Sara Estevez, a primeira jornalista, cronista e radialista esportiva da Espanha.

Sara Estévez Urquijo nasceu em Bilbao em 1925. Ainda pequena ficou órfã e passou a ser cuidada pelas irmãs. Antes mesmo de começar a frequentar a escola, Sara aprendeu a ler e escrever em casa, com a sua irmã mais velha. Mas a Guerra Civil Espanhola obrigou Sara a parar os estudos, tanto que não conseguiu ingressar em um curso superior. Para sobreviver aos tempos difíceis, Sara teve que trabalhar em fábricas, como operária, e foi nesse ambiente que teve mais contato com o futebol e com o Athletic. Foi só no pós-Guerra que conseguiu concluir os cursos técnicos de taquigrafia, mecanografia e contabilidade, conhecimentos necessários para se trabalhar em escritórios como secretária.

Em 1947, já trabalhando como secretária e ganhando seu próprio salário, Sara tinha muito claro o que faria com o dinheiro: se tornar sócia do Athletic Club. Entretanto, naquela época, uma mulher não poderia se associar a um clube de futebol. Mesmo assim, Sara passou a acompanhar o time de Bilbao das arquibancadas, comprando o carnê para assistir todos os jogos da temporada.

Sara Estévez como radialista. Foto: El País – Divulgação.

No final dos anos 1940, o futebol e o rádio eram as poucas opções de entretenimento em um país que ainda tentava se recuperar de uma guerra civil, e vivendo a ditadora de Francisco Franco. O futebol já estava em seu cotidiano, e o rádio entrou na vida de Sara por acidente, quando foi acompanhar uma amiga em um concurso de rádio, e acabou conhecendo o ambiente da redação. Sara havia descoberto o mundo radiofônico. Com facilidade para escrever, e completamente envolvida no ambiente futebolístico, passou a escrever crônicas e análises sobre o Athetic. As suas colaborações, que não eram assinadas como Sara, eram lidas por um locutor da rádio.

Segundo Sara, dois motivos fizeram-na não assinar os seus textos com o próprio nome, primeiro era a timidez, e, segundo, porque pensava que tanto os torcedores quanto os jogadores do Athletic poderiam dizer que ela não tinha capacidade para analisar o futebol. Em outras palavras, o ambiente masculino e machista que era o futebol dos anos 1950 impediu Sara de assinar seus textos. Ao assinar com o pseudônimo de Marathon (Maratona), Sara estava homenageando o soldado ateniense Fidípides, da mitologia grega, que deu a vida para levar a informação.

Só em 1954, com a inauguração da Radio Juventud que Sara passou a ser um membro permanente do quadro de redatores. Desde que entrou para a rádio, ela ficou responsável pelo esporte, mais especificamente com o futebol. Sara era a única da equipe de redação que acompanhava rigorosamente o futebol, e o Athletic. A direção e redação do programa Stadium foi apenas consequência de sua paixão pelo futebol e pela escrita.

Como frequentadora de arquibancada, o método de Sara para analisar os jogos consistia em levar um bloquinho e um caneta para anotar tudo que via no estádio. Sara afirma que os torcedores daquela época jamais imaginaram que ela era uma jornalista esportiva, e que era o Marathon o fenômeno dos programas de domingo à noite.

O interesse de Sara não se limitava apenas ao time principal do Athletic. Como Marathon, Sara destacava as canteiras do clube, elencando jogadores que poderiam trazer grandes alegrias para o time basco em um futuro próximo. Por outro lado, Sara também tecia duras crítica a direção do clube, tanto que o Athletic vetou a imprensa escrita da Radio Juventud no Estádio San Mamés e nas coletivas de imprensa. Mas isso não impediu Sara de escrever as suas crônicas diretamente das arquibancadas, em uma época que poucas mulheres frequentavam os estádios de futebol.

Para cobrir os outros jogos na região do País Basco, o método adotado por Sara era manter uma rede de contatos com as mães dos jogadores. Elas anotavam os resultados, dados e classificação, e deixavam tudo em lousas espalhadas pelos bares de toda a Vizcaya. Durante o programa, a rádio entrava em contato com os bares, que passavam as informações previamente anotadas. O método permitia cobrir todos os jogos de futebol da rodada de domingo.

No tempo que Marathon era o principal destaque do programa Stadium (1954 a 1973), Sara ficou responsável pela direção do programa, além de ser a principal cronista da rádio. O programa chegou a ser o de maior audiência de toda a região de Vizcaya. No auge do programa, ninguém desconfiava que aquelas crônicas e análises brilhantes sobre Athletic, e sobre o futebol espanhol, eram escritas por uma mulher, e apenas lidas pelo locutor Francisco Blanco, a principal voz da Radio Juventud.

Durante os 20 anos em que o programa esteve no ar, poucos suspeitaram que Marathon era na verdade Sara. A revelação só veio nos anos 1970, quando a Radio Juventud se fundiu com a Radio Nacional, e o programa Stadium deixou de existir. Sara assumiu os microfones para ser repórter, cobrindo diferentes temas. Entretanto, a realização de Sara era quando podia cobrir matérias sobre futebol, ou quando participava de programas esportivos da rádio. Sara foi a primeira mulher a falar sobre futebol em uma cadeia radiofônica na Espanha.

A morte simbólica de Marathon fez Sara crescer ainda mais enquanto jornalista esportiva, conseguindo finalmente largar o trabalho de secretária, que durante anos conciliou com o trabalho na rádio. Em suas crônicas, Sara passou a questionar o Athletic, por ainda não permitir que mulheres fossem sócias do clube, além de questionar a relação desigual de salários entre o time masculino e o feminino. Sara defendia que o time feminino recebesse um salário equivalente ao masculino, para evitar que as jogadoras tivessem jornadas duplas, ou que as atletas deixassem de jogar futebol devido aos baixos salários.

Sara Estevez, no San Mamés, em 2012. Foto: As/Divulgação.

Ao final dos anos 1990, com mais de 70 anos, Sara se aposentou da carreira de radialista, depois de passar mais de 40 anos no mundo do rádio. Mesmo depois da aposentadoria, Sara colaborou com os seus textos, participou das rodas de debate e sempre teve a sua opinião muito respeitada no meio do jornalismo esportivo. Apaixonada pelo Athetic, Sara virou sócia e frequentou o San Mamés até pouco tempo atrás, antes de completar 90 anos de idade. Hoje não frequenta mais estádios, mas é uma entusiasta do estilo que técnico Marcelo Bielsa implantou no Athetic.

O protagonismo de Sara Estévez, enquanto mulher, torcedora e radialista deve ser sempre reverenciado. Como diretora do programa Stadium, foi a precursora dos programas de mesa redonda, as tertulias de fútbol. O programa também foi um dos primeiros a usar o recurso de entrevistas por telefone, uma novidade nos programas de rádio dos anos 1960. Como jornalista, Sara foi a primeira cronista e radialista esportiva da Espanha, e a primeira mulher a falar sobre futebol no rádio.


Referências:
RIVAS, Jon. Athletic Club: Héroes, pasajes y personajes. Barcelona: Roca Editorial de Libros, 2012.
Marathon, la voz que escondía a una mujer
Sara Estevez (ex Radio Juventud de Vizcaya): «Mi llegada al palco de prensa molestó un poco»
El misterio de la chica que lo clavaba